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Serge Prokofiev - Trabalhar na União Soviética e a Segunda Guerra Mundial (1936-1941)
Um dos pontos culminantes do legado musical de Serge Prokofiev é o bailado Romeu e Julieta, baseado no famoso enredo de Shakespeare. A encomenda original partiu do Teatro Kirov (nova designação do Teatro Mariinsky em Leningrado). Por vicissitudes várias, o agendamento da estreia passou para o Teatro Bolshoi em Moscovo, e depois de novos contratempos acabou por ser estreado discretamente fora do país, em Brno na então Checoslováquia. A apresentação em Leningrado e em Moscovo só ocorreria três anos mais tarde, em 1940, muito depois do êxito entretanto alcançado além fronteiras. Para alívio e surpresa dos intervenientes, o bailado foi também um grande sucesso na Rússia. Na estreia em Moscovo, Prokofiev, que se tinha mostrado insatisfeito com vários aspetos da produção, acabou por se juntar ao elenco em palco para agradecer os aplausos com inúmeras vénias.
Depois deste triunfo, Prokofiev compôs também a gigantesca Cantata para o 20º Aniversário da Revolução de Outubro, originalmente destinada a ser apresentada em 1937. Só que dessa vez, a música não soou bem aos ouvidos das autoridades. Antes da primeira apresentação em público, o chamado Comité de Assuntos Artísticos considerou a obra incompreensível, a tal ponto que a cantata só pôde ser estreada em 1966, 13 anos depois da morte do compositor.
Em 1938 Prokofiev colaborou com o cineasta Sergei Eisenstein concebendo a banda sonora do filme Alexander Nevsky. Aqui pôde dar largas à sua criatividade, criando uma partitura para coro e orquestra em jeito de cantata. O filme tem um caráter épico, ilustrando a resistência dos russos perante a invasão dos cavaleiros teutónicos, antecessores dos alemães no século XIII. Ficou para a história a cena em que os invasores são engolidos pelo gelo ao atravessarem o Lago Peipus, não muito longe de São Petersburgo. O filme teve um êxito retumbante. O próprio Estaline adorou-o e condecorou tanto o cineasta como o ator principal, Nikolay Cherkasov.
O sucesso, não deixava, portanto, antever o fracasso de outra obra estreada na mesma altura: o Concerto para Violoncelo. O solista no dia da estreia, Lev Berezovsky, bem se esforçou, mas as críticas ou mesmo a má língua contra este concerto foram de tal ordem que o compositor decidiu, pouco depois, retirar o concerto de circulação.
E dedicou-se à estreia de mais uma ópera: Semyon Kotko, que retrata as tensões políticas e sociais na Ucrânia durante a Guerra Civil Russa.
Tudo acaba como era suposto, com a vitória dos revolucionários, um desfecho épico que contrasta com as circunstâncias reais da estreia desta ópera, já que começou por ser adiada porque o encenador, Meyerhold, num exemplo típico do estalinismo mais feroz, foi preso pelo NKVD em junho de 1939, acusado de ser um espião britânico, trotskista e sabotador do teatro soviético, torturado, e fuzilado poucos meses depois. Estamos, portanto, no auge do terror estalinista, com as autoridades a tratarem os artistas de acordo com a avaliação duma agência concebida para monitorizar as suas criações, testando, portanto, a conformidade com o regime. É nesse contexto que Prokofiev escreve a oratória Zdravitsa dedicada a Estaline, o que lhe assegurou o estatuto de compositor soviético. Zdravitsa significa saúde, em jeito de brinde, e em concreto serviu para celebrar o 60º aniversário do camarada Estaline.
É ainda nesse contexto que surgem as chamadas sonatas da guerra para piano, três ao todo: a Sonata para Piano nº 6 estreada em abril de 1940, a Sonata para Piano nº 7 estreada em janeiro de 1943 e a Sonata para Piano nº 8 no final de 1944. No seu conjunto constituem um dos marcos do legado de Prokofiev.
A segunda guerra já tinha começado quando o regime decidiu levar alguns artistas mais relevantes para o Cáucaso, no sul do país, e Prokofiev estava entre eles...
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