António Esteves

Quem espera por sapatos de defunto morre descalço

Ninguém sabe o resultado das autárquicas e, tal como acontece em democracias verdadeiras, a incerteza vai manter-se até ao próprio dia em que os portugueses vão às urnas para escolher os representantes que querem ver no poder local, mas existe desde já uma certeza: o processo de escolha dos candidatos do PSD para as autarquias está a ser demorado e considerado desastroso por alguns sectores do próprio PSD que não escondem o desencanto e o desagrado e, por isso, não se augura nada de bom para os social-democratas, principalmente nas principais câmaras do país.

É garantido que Pedro Passos Coelho vai ter o partido à perna se não ganhar as autárquicas, mas não se deve dar como adquirido que haverá uma mudança de líder logo após as eleições em caso de derrota. Depende da dimensão dos resultados. Se perder por poucos, Pedro Passos Coelho não vai sair, vai aproveitar para dizer que resistiu mesmo nas piores circunstâncias e que está na altura de um novo ciclo dentro do partido. Se perder por poucos - ganhando a estratégia será natural e óbvia e não contará com opositores de peso - Passos Coelho vai aproveitar para reorganizar as tropas, com o apoio dos indefectíveis de sempre: Luis Montenegro, Maria Luís Albuquerque, Carlos Carreiras e Miguel Pinto Luz, entre outros. Se perder por poucos, as vozes discordantes e os líderes alternativos a Passos vão ter de esperar por piores dias para terem melhor oportunidade.

Em Lisboa, o processo durou demasiado e a escolha de Teresa Leal Coelho está longe de ser consensual, apesar das declarações mais recentes de Miguel Pinto Luz e das cambalhotas linguísticas de Mauro Xavier, o líder da concelhia lisboeta que sempre se opôs à forma como foi gerido o processo de escolha de um candidato para a maior autarquia do país, que nunca escondeu o desagrado por ter sabido pelos jornais os desenvolvimentos deste processo mas que agora, em nome da união e da coesão interna, já defende a escolha. Teresa Leal vai enfrentar dois pesos pesados: Fernando Medina, que lidera a autarquia e que se apresenta com uma lista de obras feitas em Lisboa, nem todas consensuais mas todas acabadas a tempo dos votos, e Assunção Cristas, que apesar do tiro no pé que deu na entrevista mais recente ao jornal Público está numa trajectória ascendente em termos de visibilidade pública e quase fez esquecer o ex-líder Paulo Portas. Quase, porque ao desvalorizá-lo da forma como o fez na mais recente entrevista só ajudou a regressar o fantasma tutelar de Portas à sede do Largo do Caldas. Portas não anda por aí e quase tudo já foi esquecido, mas Cristas será avaliada nestas autárquicas, enquanto candidata a Lisboa e líder responsável pelas escolhas a nível nacional. E nessa altura, se correr mal, não haverá que se esqueça de lhe lembra o que disse do ex-líder. Para ajudar demarcou-se de uma forma tão desastrada de Passos Coelho que só criou mais anti corpos no PSD, o que não vai ajudar nada um partido que pode depender de alguns acordos pós-eleitorais para compor o resultado de umas autárquicas que não vão ser fáceis.

Teresa Leal Coelho não é um peso pesado nem sequer no partido - é amiga e confidente de Passos Coelho e é casada com o embaixador português em Madrid, Francisco Ribeiro de Meneses, ex-chefe de gabinete de Passos Coelho, o que lhe dá um estatuto especial nesta altura e que lhe garante a total confiança do líder. Mas tem uma visibilidade pública reduzida, e tem ainda um passado ligado a Vale e Azevedo, que muitos vão lembrar no tempo certo, o que não vai ajudá-la nada a criar uma imagem séria e credível, como se exige a quem quer liderar a maior autarquia do país. Deputada, vice-presidente do PSD e vereadora em Lisboa, foi uma das vozes mais críticas contra o Tribunal Constitucional durante o governo da PàF. As qualidades políticas e pessoais reconhecidas interna e externamente parecem ser curtas para fazer dela uma candidata de peso à câmara de Lisboa.

No Porto, existe o mesmo problema mas agravado pela total falta de notoriedade de Álvaro Almeida, um independente, economista, e professor universitário que esteve seis anos fora de Portugal: em Londres como investigador e em Washington ao serviço do FMI. O percurso académico relevante choca de frente com o facto de ser uma pessoa que o portuense comum não conhece nem reconhece, mesmo que tenha sido o presidente da Entidade Reguladora da Saúde e da Administração Regional de Saúde do Norte.

Não será fácil conseguir um bom resultado, tendo em conta que do outro lado está Rui Moreira, que fez um mandato muito forte, que se aliou ao PS e que hoje é reconhecidamente uma das vozes mais grossas em defesa do norte do país em geral e do Porto em particular, nem sempre de forma lógica e coerente mas, sem dúvida, eficiente.

O PSD enfrenta mais dificuldades de monta em várias outras autarquias sempre pela mesma razão: não conseguiu encontrar nomes fortes para tentar tomar o poder de forma efectiva. Matosinhos, Gaia, Coimbra, Leiria e Santarém são apenas alguns dos exemplos.

O processo de escolha para as autarquias do país tem sido demorado e até descuidado, do ponto de vista da estratégia política, e é isso que não se entende: ou Pedro Passos Coelho está cansado, desgastado, perdeu o entusiasmo e prepara-se para sair logo após as autárquicas - o que não me parece - ou então teve mesmo muitas dificuldades em encontrar nomes fortes e dispostos a arriscar entrar ao seu lado na batalha que se avizinha. É o tipo de solidão que se gere durante algum tempo mas que acaba por ser fatal, mesmo para os líderes mais fortes, determinados e obstinados. E é disso que estão à espera os que querem chegar à liderança social-democrata. Outra estratégia que pode correr mal, porque "quem espera por sapatos de defunto morre descalço".

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