OMS avisa que "nacionalismo de vacinas" não ajudará a vencer a Covid-19

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Amanda Perobelli - Reuters

Na quinta-feira, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criticou o “nacionalismo de vacinas” para a Covid-19, defendendo que a recuperação económica em todo o mundo poderá ser mais rápida se uma vacina for disponibilizada para todos como um bem público. “Nenhum país ficará a salvo até que estejamos todos seguros”, argumentou o diretor-geral da OMS.

Durante uma videoconferência, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, criticou a disputa entre países por uma vacina contra a Covid-19, argumentando que “partilhar vacinas ou outras ferramentas ajuda realmente o mundo a recuperar-se em conjunto”.

"O nacionalismo em relação às vacinas não presta. Não nos ajudará. Quando dizemos que uma vacina deve ser um bem global de saúde pública, não se trata de partilhar por partilhar. Para o mundo poder recuperar mais depressa, tem de recuperar em conjunto", afirmou Tedros Ghebreyesus.

“O dano da Covid-19 pode ser menor quando esses países que têm o financiamento se comprometerem com isto”, defendeu Ghebreyesus, argumentando que os países que cheguem primeiro a uma vacina e que se comprometam a contribuir para que seja distribuída equitativamente por todo o mundo "não estão a fazer caridade para os outros, estão a fazê-lo por si próprios, porque, quando o resto do mundo recuperar e as economias reabrirem, também beneficiam".


Apesar de todas as nossas diferenças, somos uma raça humana a partilhar o mesmo planeta e a nossa segurança é interdependente. Nenhum país ficará a salvo até que estejamos todos seguros”, disse o diretor-geral da OMS, apelando a que todos os líderes “escolham o caminho da cooperação e ajam agora para acabar com a pandemia de Covid-19”.

"Não é só a escolha mais inteligente, é a escolha acertada", sublinhou Ghebreyesus. Existem mais de 200 vacinas contra a Covid-19 a serem desenvolvidas a nível global, incluindo 26 em ensaios clínicos humanos. Destas 26, seis estão num nível mais avançado, isto é, na fase 3.

O alerta do diretor-geral da OMS surge na sequência da corrida às vacinas e da luta entre países para garantir doses suficientes.

A Rússia, por exemplo, garante que já completou a fase 3 dos ensaios clínicos e planeia começar a vacinar em massa já em outubro.

No entanto, a OMS alerta que “a fase 3 não significa ‘quase lá’”. “A fase 3 significa que esta é a primeira vez que a vacina é aplicada na população em geral, em indivíduos saudáveis, para verificar se a vacina os irá proteger contra infeções naturais”, explicou o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan.

Apesar dos resultados promissores, a OMS já adiantou que nenhuma vacina estará ponta antes de 2021, sublinhando que é imprescindível garantir não só a eficácia, mas também o controlo de efeitos secundários.

A OMS também avançou que provavelmente serão necessários vários tipos de vacinas para combater a pandemia. “Temos uma boa variedade de produtos numa série de plataformas diferentes, em vários países”, disse Tedros Ghebreyesus. No entanto, o diretor-geral da OMS explica que “não há garantia de que qualquer um desses seis [num nível mais avançado] nos dê a resposta e provavelmente precisaremos de mais do que uma vacina para fazer esse trabalho”.
“Rápido é bom para os políticos”
A frenética corrida mundial levanta preocupações relativamente à segurança de uma eventual vacina. Em contextos normais, uma vacina levaria cerca de dez anos a ser desenvolvida e testada de forma a garantir a segurança e eficácia. No entanto, no panorama atual de pandemia, a busca de uma vacina está a ser acelerada.

Para além da Rússia, também os EUA se comprometeram a disponibilizar uma vacina ainda este ano. Donald Trump avança mesmo que poderá estar pronta antes das eleições presidenciais, a 3 de novembro.

Na busca por uma potencial vacina para a Covid-19, “rápido é bom para os políticos”,
disse Heidi Larson, que lidera o Vaccine Confidence Project (VCP), um projeto de vigilância global sobre vacinas. “Mas, do ponto de vista do público, o sentimento geral é: ‘demasiado rápido não pode ser seguro’”, acrescentou Larson em declarações à agência Reuters.

Apesar de várias entidades terem vindo a afirmar repetidamente que a velocidade não compromete a segurança – dado que os resultados mais rápidos resultariam da realização paralela de testes –, grande parte da população não se mostra convencida.

Os resultados preliminares de uma pesquisa realizada nos últimos três meses em 19 países demonstram que apenas 70 por cento dos entrevistados britânicos e norte-americanos se vacinariam contra a Covid-19. A alimentar esta desconfiança está ainda uma ameaça anterior à pandemia: os grupos anti-vacinação que tentam aproveitar a atual crise para semear a dúvida e resistência de certos grupos à imunização.

As farmacêuticas e os Governos esperavam que a crise provocada pela pandemia dissipasse as preocupações em torno das vacinas, na medida em que seria vista como crucial para derrotar a doença e permitir a recuperação das economias. No entanto, Scott Ratzan, membro do “Business Partners to CONVINCE”, diz que
“estamos a observar um crescimento desta desconfiança contra a ciência e o Governo”.

“Precisamos de abordar as preocupações legítimas sobre o ritmo acelerado do desenvolvimento, promessas políticas exageradas e os riscos de vacinação”, acrescentou Ratzan.

Especialistas apelam, por isso, à adoção de estratégias, alertando que se não for dada uma resposta a esta hesitação, os riscos serão muito elevados.

A desconfiança provavelmente irá revelar-se um problema quando a vacina for disponibilizada”, alertam os cientistas.

c/agências
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