Alemanha risca Brexit da agenda. "Um verão desperdiçado" lamentam diplomatas

por RTP
Um ativista anti-Brexit apela à extensão do período de transição prós-Brexit, frente às Casas do Parlamento, em Londres, Reino Unido, em junho de 2020 Reuters

A agenda da cimeira da União Europeia para dia 2 de setembro, deixou de incluir um dos seus pontos principais, as negociações pós-Brexit, uma vez que o progresso nas conversações com Londres tem sido "mínimo", noticiou o jornal britânico The Guardian.

A Alemanha detém a presidência da UE e decidiu que não há nada que valha a pena debater sobre o Brexit na primeira semana de setembro, acrescenta o jornal.

Nem Berlim nem Bruxelas confirmaram ainda a decisão, mas diplomatas europeus sob anonimato citados pelo Guardian, foram perentórios.

"Uma vez que não houve quaisquer progressos palpáveis nas negociações entre UE e RU, o Brexit foi retirado da agenda", referiu um deles.
Os diplomatas europeus lamentam a estratégia seguida por Londres e especificamente, pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.
"As pessoas nem imaginam o clima de pessimismo que reina entre a equipa de negociações da União Europeia", acrescentou outro.

"Tivemos um verão completamente desperdiçado, um executivo que não entende como funcionam as negociações, um primeiro-ministro que, penso, não percebe como se fazem negociações - porque está sob a impressão errada de que será capaz de negociar à ultima hora".

É cada vez mais provável a saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo, a 31 de dezembro.

A ronda de negociações mais recente terminou sexta-feira passada
com o líder dos negociadores britânicos, David Frost, a dizer que "não vai ser fácil conseguir" um acordo. Michel Barnier, o seu homólogo do lado europeu, referiu que Boris Johnson estava a "desperdiçar tempo precioso" nas negociações.

Quarta-feira, Barnier repetiu um apelo para ser alcançado até finais de outubro um acordo com o Reino Unido quanto às relações futuras entre ambos. À agência Reuters, à margem de um encontro empresarial em Paris, confirmou que não tinha planos para se reunir com Frost esta semana. "Mas talvez na próxima semana, se as condições o permitirem".
Pessimismo
É necessário concluir as linhas gerais de um acordo até fim de outubro para o Parlamento Europeu ter tempo de o ratificar, antes do Reino Unido abandonar o mercado único e a união aduaneira do bloco europeu, a 31 de dezembro.Já se fala numa possível extensão do período de transição, devido ao impacto da pandemia de Covid-19 nas negociações e nas economias.

As negociações têm marcado passo sobretudo quanto aos direitos de pesca da UE nas águas britânicas e às regras de apoios à competitividade empresarial. Noutras áreas, como migração, segurança, mecanismos de resolução de litígios ou garantias quanto aos Direitos Humanos, há ainda arestas a limar.

Paris tem expressado a impaciência europeia para com Londres, particularmente quanto ao controlo da migração no Canal da Mancha para o Reino Unido.

A União Europeia terá entretanto de substituir o comissário responsável pela pasta do comércio, Phil Hogan, um irlandês que pediu demissão esta semana, num período turbulento, não só devido às negociações do Brexit, como à guerra de tarifas entre a China e os Estados Unidos.

O Departamento do Comércio Externo do Governo britânico formou entretanto 11 grupos de estudo em áreas desde ciências da vida e serviços financeiros, para aconselhar nas negociações pós-Brexit, incluindo com o Japão, os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia.

A responsável pela pasta, Liz Truss, afirmou que o Governo quer acordos que beneficiem "todo" o Reino Unido.

"As conversações com o Japão, os estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia entraram em fases cruciais, por isso faz todo o sentido acelerar compromissos com indústrias vitais para utilizar a sua experiência técnica e estratégica", referiu Truss.
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