Donald Trump sobre o Estado da União. "Esta é a idade de ouro da América"

Donald Trump sobre o Estado da União. "Esta é a idade de ouro da América"

Donald Trump prometera um discurso longo sobre o Estado da União, por ter "muito a dizer", e cumpriu. O seu foi o mais longo discurso de sempre, 1H48m. O presidente afirmou que o país "está melhor do que nunca", prometeu prosseguir com as tarifas e atacou diversas vezes o Partido Democrata e os imigrantes ilegais.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Donald Trump durante o primeiro discurso sobre o Estado da União, no Congresso dos EUA Foto: Kenny Holston - Reuters

A chegada de Donald Trump foi recebida friamente pelos congressistas democratas e entusiaticamente pelos republicanos. Em março do ano passado, Trump discursou perante as duas câmaras durante 1H42m, o mais longo discurso na história do Congresso, mas não foi considerado como tal, por ocorrer apenas duas semanas depois da tomada de posse.

E o presidente entrou ao ataque. 

"A nossa nação está de volta e melhor do que nunca", começou por afirmar. 

"Esta é a idade de ouro da América", acrescentou, afirmando que no primeiro ano do seu segundo mandato supervisionou uma "reviravolta histórica" ​​e prometendo "enfrentar as ameaças à América".

"Nunca voltaremos onde estivemos", garantiu, perante a primeira dama, Melania Trump, outros membros da sua família, a sua Administração, as bancadas dos congressistas, republicanos e democratas, e de múltiplos convidados.
As conquistas

Entre o que conseguiu no seu segundo mandato, Trump invocou a queda da pressão imigrante na fronteira com o México. "A nossa fronteira está segura" e  "zero imigrantes ilegais" a atravessaram para os EUA nos últimos meses, afirmou. "Após quatro anos em que milhões e milhões de imigrantes ilegais atravessaram as nossas fronteiras sem qualquer controlo ou fiscalização, temos agora a fronteira mais forte e segura da história americana", afirmou.

"O fluxo de fentanil, uma droga mortal, através da nossa fronteira caiu 56 por cento em apenas um ano", alegou ainda Trump.

"Éramos um país moribundo, somos atualmente o melhor país do mundo, de longe", afirmou ainda.

Prosseguindo os elogios, agora às suas conquistas económicas, Trump invocou a redução da inflação do último ano, repetindo ataques contra o seu antecessor, Joe Biden, afirmando que este supervisionou a "pior inflação da história do nosso país".

"Mas, em 12 meses, o meu governo reduziu a inflação subjacente para o nível mais baixo em mais de cinco anos", disse ao Congresso.

Acrescentou ainda que "o mercado bolsista atingiu 53 recordes históricos desde a eleição" e que o seu governo conseguiu atrair mais de 18 triliões de dólares em investimentos no seu primeiro ano.

"Mais americanos têm emprego" e a taxa de desemprego é "a mais baixa desde que há resgisto", referiu ainda.

"Por todas estas razões, digo-vos, congressistas, o Estado da União é forte", afirmou, perante o aplauso entusiástico da bancada republicana. E referiu que os americanos voltaram a habituar-se a ganhar. 
Entre elogios e espetáculo 

Para provar como os americanos voltaram a ganhar, Trump convocou a equipa de hóquei no gelo dos EUA, que trouxe a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de inverno, a primeira desde há 46 anos.

Foi o primeiro de diversos momentos de espetáculo que caracterizaram o discurso.

Os jogadores receberam uma ovação em pé, incluindo dos congressistas democratas, mostrando as medalhas de ouro e recebendo uma série de elogios do presidente. "Para além de campeões sáo pessoas muito especiais", afirmou Trump. A equipa feminina, que também conquistou uma medalha de ouro, recusou o convite.

O guarda-redes da equipa, Connor Hellebuyck, deverá receber a Medalha Presidencial da Liberdade a maior honra civil que um presidente pode atribuir.

"A próxima vez que a bandeira do Jogos Olímpicos se erguer será em Los Angeles. E Los Angeles vai ser uma cidade segura", prometeu Trump. "Será uma ocasião para celebrar o nosso país".
Tarifas

Numa das múltiplas farpas dirigidas aos congressistas do Partido Democrata, Donald Trump apontou-lhes o dedo pela sua oposição à redução de impostos conseguida pela sua Administração.

“Com a grande e bela lei, eliminámos os impostos sobre as gorjetas, as horas extraordinárias e as contribuições para a Segurança Social”, afirmou, uma alegação que tem sido contestada no seu alcance.

Apesar do retrato economicamente positivo apresentado pelo presidente norte-americano, sondagens recentes indicam que a sua popularidade tem caído, alegadamente arrastada por dificuldades económicas sentidas pela população. 

A derrota da estratégia de Trump quanto às tarifas, chumbadas sexta-feira passada pelo Supremo Tribunal (ST), será disso sintoma.

Apesar de Trump ter ameaçado em resposta à decisão com tarifas de 15 por cento sobre todos os produtos não abrangidos por isenções, acabou por as diminuir para 10 por cento.O presidente precisará contudo do apoio do Congresso. As tarifas de 15 por cento que implementou após a decisão do Supremo Tribunal, expiram em 150 dias, caso o Congresso não as prorrogue.

Numa primeira reação, o presidente norte-americano não hesitou em considerar os juízes do ST como "anti-patriotas" pela sua decisão. 

Perante o Congresso, Trump desvalorizou-a, classificando-a como "decepcionante" e "lamentável" e dizendo que será apenas um obstáculo no caminho. 

O presidente prometeu encontrar outras formas de dar continuidade à sua agenda tarifária à qual atribui "uma impressionante recuperação económica" dos Estados Unidos da América.

As tarifas "permanecerão em vigor sob regimes legais alternativos totalmente aprovados e testados", disse Trump, acrescentando que "alguém substituirá completamente o imposto sobre o rendimento".

"As tarifas vão apoiar imenso a economia e tirar um peso enorme das costas do povo americano", referiu, considerando que poderão abolir o imposto sobre o rendimento, uma ideia aplaudida pelos republicanos. 

Houve um silêncio ensurdecedor quando Trump enfatizou a palavra "tarifas" pela primeira vez, mas logo se ouviram murmúrios na Câmara quando afirmou que os impostos de importação estavam a "funcionar bem". "Até os democratas sabem disso", referiu.
Fim do Obamacare
"Finalmente temos um presidente que coloca a América em primeiro lugar, porque eu amo a América", afirmou em seguida Trump, dando o mote a um novo rol de críticas ao Partido Democrata, que acusou de roubar o país e de deixar entrar "loucos" no Estados Unidos. Trump frisou que, em poucos meses, conseguiu baixar os preços da energia e de diversos bens alimentares, incluindo o dos ovos. "Ninguém acredita", sublinhou.

Na saúde, Trump atribuiu os elevados custos à Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act), também conhecida por Obamacare, afirmando que as seguradoras se aproveitaram destas políticas para enriquecer.

O presidente prometeu pressionar pela transparência nos preços dos seguros de saúde e pelo fim do "custo exorbitante dos medicamentos". "Quero dar o dinheiro diretamente ao povo para que as pessoas possam comprar medicamentos a preços muito mais baixos", disse. 

Acrescentou que outros presidentes "só falavam e não faziam nada".
Ataque a imigrantes ilegais

Os temas seguintes foram pretexto para Trump voltar a criticar severamente os congressistas democratas que recusaram aplaudir diversos dos casos apresentados de vítimas americanas, e as suas políticas de "defesa dos americanos". "Como é possível não se levantarem" referiu diversas vezes, dirigindo-se aos democratas.

Em destaque, os imigrantes ilegais, que juntou em massa sob os epítetos "assassinos" e "ladrões". 

"Não os queremos cá", disse, lembrando o caso da fraude de subsídios atribuídos a imigrantes da Somália no Minnesota.

A luta contra este tipo de fraudes será dirigida pelo vice-presidente JD Vance. "Irá dar conta do recado", prometeu Trump. "Quando descobrirmos essas fraudes, isso irá ajudar a equilibrar as contas", antecipou.

O presidente defendeu ainda a lei que irá impedir os imigrantes ilegais de ter acesso a licenças de condução. "O nosso dever é proteger os cidadãos americanos e não os imigrantes ilegais", afirmou. Enquanto Trump falava sobre fraude e atacava a comunidade somali no Minnesota, uma das democratas levantou-se e abandonou o plenário. A democrata Ilhan Omar, do Minnesota, a primeira somali-americana eleita para o Congresso, gritou que Trump era um mentiroso.

Noutra investida, Trump apelou à aprovação da lei "Salvação da América", que visa impedir a entrada de imigrantes na América e "que votem nas nossas eleições". 

"Todos aqueles que votem têm de apresentar documentação que legitime esse voto, tem de ser demonstrada essa capacidade", afirmou, defendendo o cartão de eleitor obrigatório e o voto presencial, com poucas exceções.

Num novo ataque aos democratas, Donald Trump acusou-os de cometerem "fraude eleitoral", como única forma de conseguir votos. "Isto é algo que tem de ser impedido", defendeu.
Democratas "loucos" e Kirk

Trump defendeu ainda que os Estados proíbam o acesso das crianças a tratamentos médicos relacionados com o género sem o consentimento dos pais.

"Certamente todos concordamos que nenhum Estado poderia ter permissão para arrancar crianças dos braços dos seus pais e realizar a transição de género", disse ao Congresso. Os cuidados médicos, incluindo os tratamentos relacionados com o género, requerem geralmente o consentimento dos pais em todos os estados americanos.

“Quem acreditaria que estamos sequer a discutir isto?”, espantou-se. 

“Precisamos de proibir isto, e precisamos de proibir imediatamente”, defendeu, criticando novamente os democratas, que recusaram apoiar estas políticas contra o transgenderismo. 

"Ninguém se levanta", lamentou. "Esta gente está doida, é o que vos digo". "Os democratas querem destruir este país, felizmente chegamos a tempo de o impedir", acrescentou.

Referindo que o cristianismo tem estado em recuperação em todo o país, marcadamente entre a juventude, Trump elogiou a contribuição neste sentido de Charlie Kirk, "assassinado" pelos seus desafios a estudantes universitários. 

O país precisa de se unir e "rejeitar a violência política de qualquer tipo", defendeu o presidente. "Os Estados Unidos são uma nação temente a Deus. Amamos a religião e queremos trazê-la de volta e está a regressar", afirmou. "É uma forma de manter as comunidades seguras".

Trump elogiou ainda a controversa colocação de tropas federais em várias cidades para "combater o crime", sobretudo o oriundo de imigrantes ilegais e garantiu que "o crime em Washington está nos níveis mais baixos desde que há registo".

Lembrando o caso da imigrante ucraniana assassinada num meio de transporte público por um homem condenado diversas vezes mas deixado ir em liberdade, Trump pediu "leis para manter aqueles que têm um registo criminal extenso atrás das grades". 

Na sua defesa dos americanos, Trump não mencionou as duas vítimas mortais que protestaram e tentaram impedir operações anti-imigrantes clandestinos, do CEI, a força federal dos serviços de imigração e fronteira dos EUA.
Papel internacional

No plano internacional, o p residente repetiu o estribilho de que nos últimos meses acabou com oito conflitos no mundo, referindo mesmo ter impedido "uma guerra nuclear" entre a Índia e o Paquistão.Trump elogiou ainda o papel da sua Administração, incliundo do seu genro, Jared Kushner, no fim do conflito na Faixa de Gaza e na devolução de todos os reféns israelitas "vivos e mortos" às famílias.

Destacando o sucesso da sua operação para deter Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, a 5 de janeiro de 2026, Donald Trump aplaudiu a presença surpresa de um líder da oposição venezuelana, Enrique Márquez, no Congresso. 

Um piloto gravemente ferido durante a operação venezuelana recebeu a Medalha de Honra do Congresso, um dos vários condecorados ao longo do discurso.

Trump dirigiu-se ainda severamente ao regime iraniano dos ayatolahs.

Lembrou a operação americana Martelo da Meia-Noite, que teve como alvo de 2025 as instalações nucleares iranianas para aconselhar mudanças de rumo a Teerão.

"Após a Operação Martelo da Meia-Noite, foram avisados ​​para não fazerem mais nenhuma tentativa de reconstruir o seu programa de armas nucleares - no entanto, continuam, e neste momento estão novamente a procurar as suas sinistras ambições nucleares", disse.

Acrescentando que o Irão quer fazer um acordo para evitar novos ataques americanos, ainda não se comprometeu a nunca produzir uma arma nuclear.

Deu entratento a sua explicação mais detalhada sobre o motivo pelo qual está a concentrar recursos militares dos EUA em torno do Irão, afirmando que o seu objetivo é impedir o país de obter uma arma nuclear. 

"A minha preferência é resolver este problema através da diplomacia, mas uma coisa é certa. Nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo, que são, de longe, tenha uma arma nuclear", prometeu.

Trump não chegou contudo a apresentar uma descrição completa do seu objectivo estratégico ao ameaçar Teerão com a guerra.
Breve referência à Ucrânia
Apesar de discursar apenas um dia depois do início do quinto ano de guerra na Ucrânia, o presidente fez-lhe somente uma breve menção.

"Estamos a trabalhar arduamente para acabar com a nona guerra, a matança e o massacre entre a Rússia e a Ucrânia, onde 25 mil soldados morrem todos os meses. Pensem nisso, 25 mil soldados a morrer por mês", disse Trump, antes de acrescentar o seu comentário frequente: "uma guerra que nunca teria acontecido se eu fosse presidente, nunca teria acontecido".

Trump fez apenas mais uma menção à guerra da Rússia contra a Ucrânia no resto do discurso, referindo, numa secção sobre a NATO, que as armas fornecidas pelos EUA à Ucrânia são enviadas através da aliança militar.

O presidente elogiou ainda as forças armadas norte-americanas e afirmou que o número de novos recrutas está em crescimento.

Trump concluiu o discurs referindo que as comemorações do 4 de julho deste ano vão celebrar a América.

"Das cidades fronteiriças rústicas do Texas às aldeias do interior do Michigan, das praias soalheiras da Florida aos campos infinitos das Dakotas... chegou a Idade de Ouro da América", afirmou.
Grandes omissões

O caso Epstein ficou notoriamente fora do discurso de Trump. 

O Partido Democrata convidou vítimas do agressor sexual Jeffrey Epstein, para assistir ao vivo ao discurso de Trump. 

O caso tem feito correr tinta e os democratas têm tentado colar o escândalo ao presidente republicano, à medida que o Departamento de Justiça tem revelado documentos da investigação - de uma forma criticada, terça-feira, antes do discurso de Trump.

Vários congressistas democratas exibiram ainda pins em apoio às vítimas de Epstein.

Apesar das referências ao programa nuclear iraniano, Donald Trump não mencionou a repressão dos recentes protestos de janeiro que abalaram todo o Irão.
A contestação democrata

Dezenas de legisladores democratas boicotaram o discurso e 35 deles juntaram-se no National Mall para um comício de contraprogramação intitulado "O Estado da União do Povo", em simultâneo com a cerimónia no Congresso.

A resposta democrata oficial ao discurso de Trump coube à governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, que apresentou uma “visão positiva” da posição do partido sobre questões-chave, como a acessibilidade e a saúde.

Spanberger aproveitou para criticar Donald Trump por "trabalhar para si próprio" e não para os cidadãos comuns americanos.

“Há o encobrimento dos arquivos de Epstein, os esquemas com criptomoedas, a aproximação a príncipes estrangeiros para conseguir aviões e multimilionários para alugar salões de baile, e a presença do seu nome e rosto em edifícios por toda a capital do país. Não é isso que os nossos fundadores imaginaram, nem de longe. Por isso, volto a perguntar: o presidente está a trabalhar para vocês?”, questionou Spanberger.
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