Economia
COVID-19
Penúria de mão-de-obra. Brexit e Covid-19 esvaziam prateleiras no Reino Unido
A tempestade perfeita antecipada para este verão abateu-se sobre os comerciantes do Reino Unido e está a deixar prateleiras vazias e cadeias de comida rápida sem alternativa além do encerramento.
A cooperativa Co-op, cujos negócios se estendem do retalho alimentar a farmácias, seguros, aconselhamento jurídico e funerárias, tem sido gravemente afetada.
Steve Murrells, presidente da cooperativa, afirmou ao jornal The Times que nunca viu nada assim.
“A escassez está no pior nível que alguma vez vi”, afirmou. O problema deve-se “ao Brexit e a problemas causados pela Covid-19”, acrescentou.
As leis de migração do pós-Brexit deram o pontapé de saída. A Associação britânica de Transporte Rodoviário, RHA, calcula que faltem cerca de 100 mil motoristas de pesados no país. Estima que só o ano passado 14.000 condutores de camião europeus deixaram o Reino Unido, tendo regressado menos de 600 até julho de 2021.
A aplicação governamental de rastreio emitiu mais de 700 mil sinais na primeira semana de julho, no que ficou conhecido como a pingdemia. Os principais afetados foram os empregados de serviços e de distribuição, agravando ainda mais a penúria de mão-de-obra disponível.
Só a 17 de agosto o Governo autorizou as pessoas vacinadas e os menores de idade a ignorar a obrigação de isolamento em favor de um teste PCR e após contacto com o Serviço Nacional de Saúde britânico, o NHS. O isolamento é agora restrito aos casos positivos.
Militares de prontidão
Os alertas começaram a soar ainda antes do verão. A 23 de junho, perante a gravidade da situação e numa carta enviada ao primeiro-ministro, Boris Johnson, os dirigentes dos setores alimentares e de transportes de mercadorias pediam vistos de trabalho temporário para motoristas de veículos pesados europeus ao abrigo de uma "lista de carência". Sem a ajuda do Governo, alertavam, as principais cadeias de abastecimentos do Reino Unido corriam o risco de "falhar a um nível sem precedentes e inimaginável" durante o verão.
No início de agosto, circularam entretanto informações de que o Executivo planeava colocar em alerta um contingente militar para conduzir os camiões e evitar a penúria nas prateleiras.
Cerca de dois mil motoristas do exército com licenças válidas estariam de prontidão para auxiliar nas entregas de alimentos e medicamentos, antes do recomeço do ano escolar, ficando alojados em hotéis perto dos armazéns.
O Ministério da Defesa apressou-se a esclarecer que não tinha recebido qualquer requerimento formal de reforço da cadeia de distribuição alimentar, enquanto os distribuidores avisavam que a proposta não era uma solução viável a longo prazo.
A situação continua por resolver. Murrels afirmou esta quarta-feira ao Times que a Co-op tem estado a converter parte dos seus 63 mil empregados em motoristas de camião para tentar mover os stocks, sob pena de deixar de vender.
Nem todos têm esses recursos. Uma das mais recentes afetadas pela escassez foi a cadeia McDonald´s, forçada a deixar de vender batidos de leite, assim como bebidas engarrafadas, nos seus restaurantes de Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.
Presos ao trabalho
A falta de pessoal afeta igualmente a agropecuária e a indústria de processamento de carnes. E só se tem vindo a agravar. A KFC e a Nandos têm sofrido o impacto de falta de carne de aves e tiveram mesmo de encerrar alguns dos seus restaurantes.
Na semana passada, a organização dos empresários do setor avícola (British Poultry Council) informou que um em cada sete postos de trabalho no setor - cerca de sete mil - ficou vazio devido ao Brexit.
Em desespero, precisamente um mês depois da primeira carta dos dirigentes dos transportes, a Associação de Produtores Independentes de Carne (AIMS, na sigla em Inglês) tentou na passada segunda-feira alternativas e apelou ao Governo de Johnson para que facilite o recurso a presos para atenuar a falta de pessoal. Ao jornal The Guardian, um porta-voz da AIMS indicou que um pequeno número dos seus associados já tem detidos nas prisões britânicas a trabalharem durante licenças temporárias, mas realçou que "os números são muito baixos".
O Ministério Público já deu o seu aval à sugestão, sublinhando que "ajudar os presos a encontrar trabalho durante a sua sentença e depois de libertados torna muito mais improvável que reincidam", nos seus delitos.
"Vamos apoiar todas as indústrias com problemas de pessoal quanto for possível", vincou um porta-voz do Ministério.
A política do Executivo britânico tem sido a de recomendar a contratação da mão-de obra nacional, mas o porta-voz da AIMS, Tony Goodger, afirmou que não se encontram trabalhadores já residentes do Reino Unido em número suficiente para preencher as vagas. A taxa de desemprego no Reino Unido foi de 4,7 por cento no trimestre abril/junho, abaixo dos 4,8 por cento do trimestre anterior.
A meio deste ano, dados do motor de busca de empregos Indeed revelaram que o número de cidadãos da União Europeia (UE) à procura de emprego no Reino Unido tinha caído mais de um terço desde o Brexit.
Segundo a plataforma, as pesquisas de europeus por empregos no Reino Unido diminuíram 36 por cento em comparação com os níveis médios de 2019 e 45 por cento desde 2016, enquanto as pesquisas por parte de cidadãos de fora da UE recuperaram, desde então, para níveis pré-pandemia.