"Não tenho o direito de desistir". Será Yulia Navalnaya o novo rosto da oposição russa?

por Andreia Martins - RTP
Foto: Yves Herman - Reuters

Durante mais de uma década, Yulia Navalnaya procurou manter uma aparência de normalidade na família perante as pressões e dificuldades. Longe de procurar qualquer papel político de relevo, a viúva de Alexei Navalny sempre acompanhou e apoiou o marido, ainda que longe dos holofotes. Isso mudou definitivamente nos últimos dias, quando incriminou Putin pela morte de Navalny e prometeu prosseguir com a sua luta.

“Ao matar o Alexei, Putin matou metade de mim, metade do meu coração e metade da minha alma. Mas ainda tenho a outra metade, e isso diz-me que não tenho o direito de desistir”, anunciou Yulia Navalnaya num vídeo publicado na última segunda-feira no Youtube e na rede social X.

Aos 47 anos, a mulher de Alexei Navalny poderá ser a próxima figura de destaque na oposição ao presidente russo, ao reagir com mensagens políticas veementes à morte do marido. Yulia vinha a aceitar um papel de maior relevo ao longo dos últimos anos, sobretudo após o envenenamento de Alexei Navalny com Novichok, em agosto de 2020.

Natural de Moscovo, Yulia Navalnaya nasceu em 1976 no seio de uma família de classe média. A mãe trabalhava no Ministério da Indústria Leve, na altura o departamento soviético para bens de consumo. O pai era Boris Ambrosimov, então um cientista de renome.

Yulia estudou economia na Universidade Russa de Economia Plekhanov. Conheceu Alexei Navalny durante umas férias na Turquia, em 1998.

Com o casamento e o nascimento da primeira filha do casal, Dasha Navalnaya, em 2001, Yulia dedicou-se em pleno à família e passou a ser dona de casa. O segundo filho do casal, Zakhar, nasceria em 2008. Nos anos seguintes, Alexei Navalny foi estando cada vez mais envolvido na política e Yulia procurava manter a normalidade possível.

“Vejo que é a minha função fazer com que nada mude na nossa família: as crianças são crianças, um lar é um lar”, afirmou Yulia numa rara entrevista, em 2021. “A minha principal tarefa é que a nossa família permaneça na mesma, apesar de tudo”, acrescentava, em declarações à revista norte-americana Harper’s Bazaar.
“Tsikhanouskaya“ da Rússia?
No dia em que foi anunciada a morte de Alexei Navalny, as palavras de solidariedade e apoio surgiram de vários quadrantes, com destaque a líder da oposição bielorrussa.

“Querida Yulia, sinto a tua dor, como esposa e mãe. A morte do teu marido, Alexei Navalny, não é apenas uma tragédia para a tua família, mas uma perda para todos nós que acreditamos na liberdade e na justiça. Neste momento de profunda tristeza, fica a saber que não estás sozinha. Os nossos corações estão contigo”, escreveu a líder da oposição bielorrussa, Sviatlana Tsikhanouskaya na rede social X.

Tsikhanouskaya tem sido a líder de facto da oposição bielorrussa desde a detenção do marido, Syarhei Tsikhanouski, condenado a 18 anos de prisão em dezembro de 2021 após ter participado num protesto antigovernamental e impedido pelo regime de se candidatar às eleições presidenciais.

Assumiu este papel sem experiência política anterior e tem sido a principal figura na oposição a Alexander Lukashenko nos últimos anos, ainda que a partir do exílio.

Por sua vez, ao longo de vários anos nos bastidores, Yulia Navalnaya acompanhava o marido nas ações de protesto, diligências judiciais, mas também nas ideias políticas.

“Em todas as fases da carreira de Alexei, Yulia esteve sempre ao seu lado”, afirmou Anna Veduta, funcionária da filial norte-americana da Fundação Anticorrupção de Navalny, em declarações ao Politico.

“Havia uma espécie de ligação telepática entre eles, às vezes nem precisavam falar; eles pensavam da mesma forma”, acrescentou ainda Anna Veduta.

Em 2013, quando Alexei Navalny recebeu a primeira sentença de prisão num caso de alegada fraude que, de acordo com os seus apoiantes, teve motivações políticas, Yulia Navalnaya reagia com firmeza: “Estes bastardos nunca vão ver as nossas lágrimas”, afirmava na altura.
A família de Navalny após 2020
Com o envenenamento de Navalny em agosto de 2020 e tudo o que se lhe seguiu, a família foi ganhando visibilidade nos palcos internacionais. De acordo com o site de jornalismo de investigação Bellingcat, a própria mulher de Navalny sofreu efeitos de envenenamento dois meses antes.

Os repórteres sustentam que esta pode ter sido uma tentativa falhada antes de terem conseguido alcançar o líder da oposição russa.

O opositor russo esteve em coma e acabou por recuperar após tratamentos na Alemanha. Decidiu regressar à Rússia em janeiro de 2021 e foi detido pelas autoridades na chegada ao aeroporto.

De acordo com a revista The New Yorker, Navalny via-se como o “Nelson Mandela da Rússia”, recusando-se a ficar no exílio e a tornar-se politicamente irrelevante. Acreditava que poderia viver para lá da presidência de Putin e tornar-se-ia presidente após vários anos na prisão.

Nos últimos três anos, a cada informação vinda da Rússia sobre as condições severas em que Navalny se encontrava detido, na Rússia, mais a voz de Yulia Navalnaya se fazia ouvir. O opositor russo fez uma greve de fome e por várias ocasiões ficou completamente incontactável.

Em março de 2023, quando o documentário “Navalny”, venceu o Óscar de melhor documentário, Yulia discursava ao mundo: “O meu marido está na prisão só porque disse a verdade. O meu marido está na prisão apenas por defender a democracia”.

Já no final do ano, após três semanas de ter estado em paradeiro desconhecido, Alexei Navalny foi transferido para uma prisão russa no Ártico, perto dos Montes Urais.

A prisão, conhecida como colónia "o Lobo Polar", é considerada uma das mais rígidas da Rússia, albergando presidiários condenados pelos crimes mais graves. Aqui, os invernos são particularmente difíceis, com temperaturas que chegam aos -30º.

E ao longo destes anos, Yulia Navalnaya não foi o único elemento da família a expressar-se em defesa do opositor. Em março de 2023, a filha mais velha do casal, Daria Navalnaya, prometia, em entrevista à CNN, que não desistiria de lutar pela libertação do pai e de outros prisioneiros políticos detidos na Rússia.

“Não vamos parar de lutar”, prometia na altura. Em resumo, dizia que o pai lutava “por um Estado livre, com eleições livres, com liberdade de imprensa, liberdade de expressão”, no fundo, um país “com a oportunidade de fazer parte da comunidade ocidental normal e democratizada”.

Dias após a morte de Alexei Navalny, Yulia Navalnaya viajou até aos Estados Unidos para estar junto da filha, estudante na Universidade de Standford, na Califórnia, o que possibilitou um encontro de ambas com o presidente norte-americano na quinta-feira.
Os próximos desafios
Alexei Navalny morreu exatamente a um mês das eleições presidenciais na Rússia e também no dia em que começava a Conferência de Munique, na Alemanha. Em 2007, Vladimir Putin tinha escolhido este mesmo espaço diplomático para criticar o "mundo unipolar", dominado pelos Estados Unidos, e anunciar uma nova direção para a Rússia.

Em 2024, 17 anos depois, Yulia Navalnaya estava na Alemanha para a conferência de Munique quando os serviços prisionais russos anunciaram a morte de Navalny. De forma inesperada, falou na conferência de geopolítica perante vários líderes mundiais, recebendo as condolências e vários elogios pela coragem de discursar em tais circunstâncias.

No entanto, esta coincidência deu azo a várias teorias da conspiração, com vários comentadores a apontarem também que Navalnaya estava “demasiado sorridente” na Conferência de Munique, ou mesmo que a viúva de Navalny estaria a atuar sob a influência e ordens da CIA.

“Ela demonstrou grande coragem, porque obviamente que será o próximo alvo das campanhas difamatórias do Kremlin. (…) Eles vão tentar quebrá-la”, disse o advogado Lyubov Sobol, próximo de Alexei Navalny, em declarações ao Politico.

Tatiana Stanovaya, investigadora sénior do Carnegie Russia Eurasia Center, resumia na rede social X os principais desafios que se colocam a esta nova figura política na oposição russa.

Desde logo, o “dilema de ser apenas percecionada como viúva de Navalny” e o desafio de se estabelecer como “autoridade política distinta, separada do marido”. Por outro lado, a ligação ao Ocidente.

“Para o público russo, uma postura pró-Ocidente é frequentemente percecionada como sinónimo de traição ou de aliança com o inimigo, particularmente no contexto de guerra”
, adianta, o que está na origem das mais “insanas” teorias da conspiração.

Há também a comparação inevitável com Svetlana Tikhanovskaya, da Bielorrússia, com “dificuldades em estabelecer-se como figura significativa da oposição” estando no exílio.

“Apesar do possível reconhecimento e respeito por parte da comunidade internacional, a falta de apoio substancial na Rússia poderá reduzir significativamente a sua eficácia como figura política”, resume Tatiana Stanovaya.
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