Sem nenhum novo acordo à vista, o mundo arrisca-se a, pela primeira vez em cerca de 50 anos, não ter um acordo que limite o armamento destas duas grandes potências, o que causa receio pela possível corrida que se poderá seguir.
O que é o New START?
O New START (ou START III) foi um tratado assinado entre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente da Federação Russa, Dmitry Medvedev, a 8 de abril de 2010, e que entrou em vigor a 5 de fevereiro de 2011.
Este documento substituiu o Tratado sobre Reduções de Ofensiva Estratégica (SORT em inglês), assinado entre os dois países em 2003, e que faz parte de uma série de tratados bilaterais que remontam a 1972, quando foi assinado o SALT I.
O tratado New START tinha uma duração de 10 anos, mas foi estendido por um prazo de cinco anos, em 2021, por proposta russa, que foi aceite pelos Estados Unidos.
No entanto, na sequência do apoio norte-americano à Ucrânia, a Rússia suspendeu a sua participação no tratado, em 2023, mas garantiu que iria continuar a cumprir os termos do acordo, sem permitir a inspeção do seu arsenal por parte da NATO e dos Estados Unidos, nem a partilha informação.
O que diz o tratado?
O tratado prevê a redução das armas estratégicas ofensivas dos dois países ao longo de sete anos e a não ultrapassar o limite estabelecido durante a vigência do acordo.
Esses limites são:
- 700 mísseis balísticos intercontinentais;
- 1.550 ogivas nucleares;
- 800 lançadores de mísseis balísticos intercontinentais.
O tratado também limita todas as armas nucleares intercontinentais e de longo alcance capazes de atacar os Estados Unidos num espaço de 30 minutos, e prevê trocas de informação semestrais, assim como 18 inspeções anuais in loco aos arsenais feitas por inspetores de ambos os países.
Até 2023, foram feitas 328 inspeções, mais de 25 mil trocas de notificações e 42 trocas de dados, assim como 19 reuniões da comissão consultiva bilateral do tratado. As inspeções foram interrompidas após a pandemia do Covid-19 e a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022.
Qual é o arsenal de ambos os países?
De acordo com dados russos de 2022 e norte-americanos de 2023, ambos os países têm os seus arsenais abaixo do previsto pelo tratado.
Os Estados Unidos dispõem de 662 mísseis balísticos intercontinentais e a Rússia 540. Em termos de ogivas nucleares, os Estados Unidos têm 1419 e a Rússia 1549, um a menos do limite previsto. Já em termos de lançadores, os Estados Unidos têm 800, o número mínimo previsto, enquanto a Rússia tem 759.
Segundo dados da Federação de Cientistas Americanos, a Rússia tem 5459 ogivas nucleares – 1718 dos quais implantadas em mísseis – e os Estados Unidos 5177 – 1770 das quais ativas. Ambos os números são muito menores em relação aos da Guerra Fria, em que a União Soviética chegou a ter mais de 40 mil ogivas e os Estados Unidos mais de 31 mil.
O que está em causa?
Os Estados Unidos e a Rússia detêm cerca de 90% de todo o arsenal nuclear a nível mundial, segundo o Centro para o Controlo de Armas e Não-Proliferação. Ainda que longe dos números da Guerra Fria, a inexistência de um tratado bilateral que limite o arsenal nuclear de ambos os países causa preocupação num ambiente geopolítico cada vez mais tenso e que pode motivar uma nova corrida ao armamento, segundo Daryl Kimball, diretor executivo da Associação norte-americana de Controlo de Armas.
O Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, ratificado por 191 países, incluindo os Estados Unidos e a Rússia, não inclui nenhum limite para os arsenais nucleares dos países, como está previsto nos tratados bilaterais assinados entre Moscovo e Washington.
Nos últimos anos, tratados bilaterais como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário expiraram, sem renovação. Este tratado, assinado em 1987, expirou em 2019, após os Estados Unidos anunciarem a sua retirada. O acordo previa a eliminação de misseis balísticos e de cruzeiro, com alcance entre os 500 e os cinco mil quilómetros.
Com a expiração desde tratado, têm sido desenvolvidos e usados mísseis balísticos hipersónicos como os Oreshnik, usados pela primeira vez em novembro de 2024, contra uma fábrica de armas em Dnipro, na Ucrãnia. Os Oreshnik podem chegar aos cinco mil quilómetros por hora e permitem transportar múltiplas ogivas – incluindo nucleares e convencionais - capazes de atingir vários alvos em simultâneo.Apesar de Donald Trump, em setembro de 2025, ter afirmado que a observação dos termos previstos do tratado após a sua expiração ser “uma boa ideia”, admitiu ao New York Times, em janeiro, que “se expirar, expira. Apenas faremos um acordo melhor”.
Dmitry Medvedev, que assinou o tratado em 2010 e que atualmente é vice-presidente do Conselho russo de Segurança, lamentou, na segunda-feira, que a inexistência de um novo acordo “deve alarmar toda a gente”. Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, assegurou esta quarta-feira que Vladimir Putin irá “agir numa forma ponderada e responsável” se o tratado expirar sem acordo. Já o presidente russo propôs a Washington a prorrogação do tratado para mais um ano, mas ainda sem resposta por parte dos Estados Unidos.
No entanto, o país tem desenvolvido novos sistemas nucleares, tendo feito testes de mísseis nos últimos meses, como o míssil nuclear Burevestnik, testado em outubro, algo que Putin descreveu como sendo “único, diferente de qualquer outro no mundo”. O Burevestnik pode lançar ataques a partir de qualquer porta-aviões e, nos testes, percorreu uma distância de 14 mil quilómetros, apesar de peritos ocidentais considerarem que pode ser tão vulnerável quanto qualquer outro míssil.
Os testes fizeram com que Donald Trump sugerisse que os Estados Unidos retomassem testes nucleares, pela primeira vez desde 1992, afirmando que o momento é “apropriado”, tendo instruído o Departamento de Defesa nesse sentido. No entanto, o secretário de Energia, Chris Wright, afirmou em novembro que tais testes não incluiriam explosões nucleares.
O presidente norte-americano demonstrou também interesse em desenvolver um sistema de defesa contra mísseis, chamado Cúpula de Ouro, tendo inclusive assinado uma ordem executiva, em janeiro de 2025. Este sistema, baseado no Programa Guerra das Estrelas, de Reagan, seria composto por milhares de satélites equipados com sensores e permitiria detetar e destruir qualquer míssil antes de ser lançado ou durante o seu lançamento.
À Associated Press, Daryl Kimball afirmou que este sistema pode motivar uma resposta por parte da Rússia, mas também da China, “aumentando o número de armas ofensivas que possuem para sobrecarregar o sistema e garantir que tenham potencial para retaliar com armas nucleares”.
Qual o papel da China?
Segundo Georgia Cole, investigadora do think tank britânico Chatam House, declarou ao New York Times que a ausência de um tratado bilateral pode “aumentar o risco de erros de cálculo, acidentes e escalada não intencional, especialmente numa crise”, acrescentando que “incentivaria a China a continuar a acelerar o seu programa nuclear para atingir a paridade”.
Os Estados Unidos afirmam que gostariam de incluir a China num tratado de limitação do seu arsenal nuclear, tendo o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmado na quarta-feira que “é impossível fazer algo que não inclua a China, devido ao seu vasto estoque que cresce rapidamente”.
No entanto, o Pentágono admitiu num relatório ao Congresso norte-americano, em dezembro de 2025, que Pequim “não tem apetite” para discutir limites ao armamento.
O país, apesar de estar a desenvolver o seu armamento os últimos anos, dispõe de apenas 600 armas, muito longe do arsenal norte-americano e chinês. No entanto, Daryl Kimball, afirmou, à Associated Press, que a China “está a aumentar o seu pequeno mas mortífero arsenal nuclear”.Desde 2020 que o país tem estado a expandir e a modernizar o seu arsenal, a um ritmo muito maior do que as restantes potenciais nucleares. Nesse ano, o país tinha, segundo o Pentágono, cerca de 200 ogivas nucleares, sendo agora de 600 e que pode chegar aos mil até 2030.
As infraestruturas de desenvolvimento do arsenal encontram-se sobretudo no norte do país, estimando-se que existem cerca de 350 silos de lançamento de ogivas que, de acordo com o New York Times, tantos quanto os que os Estados Unidos têm.
As armas incluem os mísseis hipersónicos YJ-17, YJ-19 e YJ-20, cuja velocidade pode ser cinco vezes maior à do som, e o míssil intercontinental DF-61, que é capaz de transportar várias ogivas nucleares, e que pode alcançar pontos até 20 mil quilómetros de distância, ou seja, capaz de atingir qualquer país.
No entanto, Pequim tem garantindo que não irá usar armas nucleares se não for atacado e que o aumento do arsenal serve para uma “avançada dissuasão estratégica”, de acordo com uma declaração de Xi Jinping, em 2021. Mas as recorrentes ameaças da China a Taiwan e os exercícios militares chineses junto à ilha têm feito soar alarmes sobre uma possível ofensiva contra Taiwan.
Além disso, na terça-feira, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, apelou para que os Estados Unidos aceitem a proposta russa de prorrogar a vigência do tratado por mais um ano.