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500 mil sem casa à espera de ajuda em Port-au-Prince

500 mil sem casa à espera de ajuda em Port-au-Prince

O sismo de magnitude 7.0 na escala de Richter que devastou o Haiti a 12 de Janeiro deixou pelo menos 500 mil pessoas desalojadas na capital do país, que acumula 447 acampamentos precários, alerta a Organização Internacional para as Migrações. A Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah) confessa-se "oprimida" pelo "pesadelo" da logística.

RTP /
"Uma das maiores dificuldades do Haiti é tratar dos vivos", relata a enviada especial da RTP Rosário Salgueiro Tiago Petinga, Lusa

"Até ao momento, só na cidade, foram contabilizados cerca de 447 acampamentos improvisados com 500 mil pessoas. Os números estão a aumentar e não incluem as pessoas que se encontram fora de Port-au-Prince", adiantou esta quinta-feira uma porta-voz da Organização Internacional para as Migrações (OIM), citada pela agência France Presse.

Nove dias após o sismo de 12 de Janeiro, as tendas e o restante material para a construção de abrigos provisórios chegaram a 179 dos 447 campos de desalojados. Apenas três dos campos dispõem de água potável. A OIM espera que as equipas no terreno possam fazer chegar esta quinta-feira garrafas de água e pacotes de higiene a pelo menos 50 mil pessoas. Mas a tarefa é complexa, como reconhece a porta-voz Jemini Pandya: "O transporte de ajuda do aeroporto para os entrepostos e daí para os pontos de distribuição continua a ser um desafio por causa da fraca disponibilidade de camiões e de combustível".

A partir da capital haitiana, a enviada especial da RTP ao Haiti, Rosário Salgueiro, testemunhou as dificuldades quotidianas com que se debatem os sobreviventes, 24 horas depois de a cidade ter sido sacudida por um novo sismo de magnitude 6.1: "Logo de manhã as pessoas vêm para a rua, umas para tentar arranjar trabalho, outras para vender o que conseguem arranjar, umas mangas que apanham em baldios, para conseguir fazer dinheiro, sobreviver e comprar os alimentos mais básicos, que estão muito caros".

"O número de mortos continua a aumentar. Continuam a descobrir cadáveres nos escombros, pessoas de que não se sabia o paradeiro. Alguns familiares pensavam mesmo que se encontrariam algures nesta imensa cidade de campos improvisados. As equipas de resgate não conseguem chegar a todo o lado. Com o sismo de ontem contabilizam-se dezenas de feridos, pessoas com ferimentos graves que, na maioria dos casos, terão de ser amputadas", relatou a jornalista.

O enviado da RTP ao Haiti Vítor Gonçalves, que sofreu um traumatismo craniano na réplica de quarta-feira, encontra-se em situação estável. Depois de ter estado internado na unidade de cuidados intensivos do hospital militar argentino em Port-au-Prince, foi transferido para Fort Lauderdale, no Estado norte-americano da Florida.

ONU está "oprimida"

Em entrevista publicada na edição de quinta-feira do diário francês Le Monde, Edmond Mulet, o homem que substituiu o tunisino Hédi Annabi, morto no sismo de 12 de Janeiro, à frente da Minustah, reconheceu que a equipa das Nações Unidas enfrenta "um pesadelo" de logística no Haiti.

"Na verdade, estamos oprimidos por esta catástrofe e a presença das tropas canadianas e norte-americanas é bem-vinda", afirma o responsável da ONU a Le Monde. Depois de considerar "normais" os problemas de insegurança e até de coordenação, Edmond Mulet recorda que "jamais foi posto em prática um sistema de distribuição protegida de ajuda em 24 horas".

"Se uma casa, ou um supermercado, se desmoronaram, com a porta aberta e sem ninguém, é quase normal que aqueles que têm fome e sede entrem para ver se há qualquer coisa que os ajude a sobreviver", sustentou o coordenador interino da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti, acrescentando que "houve incidentes, roubos e pilhagens, mas foram casos isolados".

"Os bandidos não tomaram o controlo da cidade", afirmou ainda Mulet, apontando críticas a "uma forma de fazer notícias que foi irresponsável", ao retratar um quadro "que não ajuda os haitianos, nem as pessoas que ali trabalham".

Questionado sobre a preponderância das equipas militares e de socorro norte-americanas destacadas para Port-au-Prince, Edmond Mulet admite tratar-se de uma "presença massiva", mas sublinha que as missões têm um carácter "temporário".

"Eles podem eclipsar-nos, mas todos os eclipses são temporários", remata.

Missões de busca aproximam-se do fim

"Milagre" é por estes dias a expressão mais ouvida quando alguma das 43 equipas de resgate enviadas ao Haiti - com 1.800 efectivos e 161 cães - encontra alguém com vida entre as ruínas de cimento e ferro retorcido de um qualquer edifício desmoronado em Port-au-Prince. Casos como o da pequena Mendji Bahina Sanon, de 11 anos, encontrada por vizinhos após oito dias debaixo das ruínas da sua casa. Nove dias depois, 121 pessoas foram resgatadas à morte.

Elysabeth Byrs, a porta-voz do Gabinete de Coordenação da Ajuda Humanitária da ONU, afirmou esta quinta-feira que "as equipas continuam no terreno e continuam a procurar sobreviventes": "Nenhuma pista é negligenciada e os socorristas trabalharam tanto ao oitavo dia como no primeiro, o esforço não diminuiu".

As chefias das equipas norte-americanas indicam, por sua vez, que a fase de busca e salvamento está a aproximar-se do fim. Um balanço provisório das autoridades haitianas refere 75 mil mortos, 250 mil feridos e um milhão de desalojados em todo o país. No entanto, os responsáveis militares dos Estados Unidos evocam números entre os 150 mil e os 200 mil mortos como "base de trabalho".

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