Afeganistão. ONU dá primeiro passo para retomar ajuda humanitária

As Nações Unidas viabilizaram a retoma da ajuda humanitária ao Afeganistão. Apesar dos receios de que os talibãs beneficiem desta situação, os Estados-membros aprovaram o pagamento de fundos e o fornecimento de bens e serviços necessários para atender às "necessidades humanas básicas nos Afeganistão". Os talibãs consideram que este "é um bom passo" em frente.

RTP /
A Organização das Nações Unidas refere que está iminente um grave desastre humanitário no Afeganistão, mas os talibãs desmentem Jorge Silva/ Reuters

A resolução aprovada foi proposta pelos Estados Unidos e é válida por um ano. A resolução refere que tanto “o pagamento de fundos” como “o fornecimento de bens e serviços” ao abrigo da ajuda humanitária são “permitidos” e não constituem uma violação“ das sanções impostas ao regime talibã.

Com esta resolução, a ONU quer reduzir o número de refugiados do Afeganistão que procuram os países vizinhos do país à beira do colapso económico.
 
A versão aprovada esta quarta-feira é mais abrangente do que outro texto debatido no início da semana e que mereceu objeções da China.

"A ajuda humanitária e a assistência para salvar vidas devem chegar ao povo afegão sem nenhum obstáculo", defendia o embaixador chinês na ONU, Zhang Jun, na segunda-feira, alegando que "as condições ou restrições criadas artificialmente não eram aceitáveis".

Para tentar garantir que a ajuda chegue efetivamente aos afegãos ficou definido que os princípios hoje aprovados serão reavaliados daqui a um ano. A questão da reavaliação dividiu os países. Por um lado, a China não se revê neste prazo. Por outro, a França e a Índia queriam uma reavaliação dentro de seis meses.

Contudo, o texto aprovado define um controlo do destino da ajuda humanitária nos dois meses após a sua distribuição, bem como o acompanhamento pela ONU do funcionamento da assistência a cada seis meses. Um diplomata, que pediu anonimato, declarou à AFP que será possível “voltar atrás” caso haja provas de abusos ou que o dinheiro chegue “às pessoas sancionadas”.

O secretário-geral adjunto da ONU para Assuntos Humanitários lembrou recentemente que "a necessidade de liquidez" no Afeganistão é "urgente". É "não apenas (para) salvar o povo afegão, mas também (para) permitir que as organizações humanitárias ajam", disse Martin Griffiths.

A Rússia pediu “o descongelamento” dos quase 9,5 mil milhões de dólares do Banco Central Afegão bloqueados pelos Estados Unidos quando os talibãs regressaram ao poder, em agosto.

Há duas semanas, o Banco Mundial anunciou o pagamento, antes do final do ano, de uma ajuda humanitária de 280 milhões de dólares à UNICEF e ao Programa Mundial de Alimentos (PMA), com destino ao Afeganistão.
Talibãs saúdam “um bom passo”
A resolução da ONU que abre caminho para o regresso das ajudas humanitárias ao país é um “bom passo” em frente, mas os talibãs querem agora o levantamento das sanções contra o regime.

"Este é um bom passo, que nós apreciamos, porque pode ajudar a situação económica no Afeganistão", disse o porta-voz dos talibãs.Os talibãs esperam também que a comunidade internacional "acelere" os esforços para suspender as sanções económicas e bancárias dirigidas a entidades ligadas ao grupo.

É um passo que merece ser apreciado e que ajuda muito o povo afegão”, sublinhou o porta-voz dos talibãs, Zabiullah Mujahid.

Segundo a Organização das Nações Unidas, o Afeganistão está à beira de um dos mais graves desastres humanitários e o PMA teme uma "avalanche de fome" no país.

No entanto, os talibãs desmentem este cenário admitindo contudo que os preços dos alimentos e o desemprego aumentaram.

A ajuda chegou de muitos países e o governo tem um grande stock de alimentos”, garantiu Zabiullah Mujahid. “Não vemos o risco de uma crise humanitária, mesmo que as pessoas precisem de ajuda”, ressalvou o porta-voz.

Os talibãs tomaram o poder no Afeganistão em agosto e formaram um governo que ainda não foi reconhecido pela comunidade internacional.
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