Afeganistão. Retirada ocidental irreversível apesar de avanço e de atrocidades taliban

"O que é que os fez matar os meus filhos?" A pergunta foi feita por Fida Mohammad's Afghan, pai de Sher Mohammad, de 34 anos, e de Mahmoud Khan, de 37, mortos pelos taliban há três semanas, na véspera de Eid al Adha, o Festival que se segue à peregrinação do Haj.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Jovens tiram fotografias numa colina sobre Cabul, Afeganistão, em abril de 2021 Reuters

Os repórteres Ruchi Kumar e Hikmat Noori, do The National, registaram o lamento de um pai perplexo e inconsolável. Um dos filhos era comerciante e o outro diretor do Comité Olímpico regional afegão. A casa da família em Spin Baldak foi cercada durante a noite pelos taliban que depois arrastaram os dois irmãos para o exterior onde os executaram.
"Nunca recebemos ameaças”, sublinha Fida Afghan, de 57 anos, membro do conselho provincial de Kandahar, cidade onde se encontrava na mesma noite e impedido pela guerra civil de chegar a tempo para o funeral de ambos.
O seu lamento é apenas mais um entre milhares por entes queridos assassinados pelos taliban na sua ofensiva relâmpago que varre o Afeganistão desde maio, perante a fuga ou rendição de um exército afegão aparentemente perdido e sem meios.


Mas nada faz reverter a retirada das forças internacionais estacionadas no Afeganistão há 20 anos.

Nem a lista crescente de violações dos direitos humanos, de assassínios e de perseguições, ou os relatos sobre a avalanche de milhares pessoas em fuga que tentam refugiar-se em Cabul ou nos países vizinhos,

“Os relatos de Kunduz e de todo o Afeganistão são amargos e fazem-nos sofrer muito”, afirmou a ministra alemã da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer, na rede Twitter. “Estão a sociedade e o Parlamento preparados para enviar forças armadas para a guerra e permanecer ali, com milhares de tropas por pelo menos uma geração? Se não estão, então a retirada conjunta com os aliados foi a melhor decisão”, acrescentou.

O contingente alemão era o maior no país a seguir ao norte-americano, o qual providenciava quase toda a logística. Sem os Estados Unidos, ninguém quer permanecer no Afeganistão, reconheceu o secretário britânico da Defesa, Ben Wallace.

Alguns países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte “disseram estar dispostos mas não os seus parlamentos. Ficou evidente muito depressa que sem os Estados Unidos como a nação estruturante essas opções estavam tapadas”, referiu Wallace.

Um responsável da NATO confirmou que a retirada é para manter. “Não há solução militar para o conflito e os taliban têm de compreender que nunca serão reconhecidos pela comunidade internacional se rejeitarem o processo político e tentarem conquistar o país pela força”, acrescentou a mesma fonte. “Têm de parar com os ataques e tomar parte nas conversações de paz em confiança”.
Armar a população para resistir
O capital de confiança já se esgotou há muito em Cabul, onde o Governo do presidente Ashraf Ghani colocou este fim de semana uma pedra no assunto. O seu porta-voz, Mohammad Amiri revelou que Ghani decidiu “mobilizar e armar” as populações locais para lutar contra os taliban, depois de uma reunião com senhores da guerra e líderes políticos no início de segunda-feira.

O risco de desagregação do país é crescente e ameaça arrastar toda a região. Está já no horizonte a fragmentação das forças entre dezenas ou centenas de grupos armados, divididos ao longo de linhas tribais e políticas ou simplesmente criminosos, numa guerra civil semelhante à de há 30 anos, ocorrida após a derrota soviética e antes da ascensão dos taliban.

Os vizinhos Irão e Paquistão, ameaçados por uma onda de refugiados, apelaram esta segunda-feira à ação da comunidade internacional, a favor de uma decisão política negociada entre as partes.

“Cabe aos afegãos decidirem o seu futuro”, referiu o ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Shah Mehmood Qureshi.

Sexta-feira passada, reunido de emergência, o Conselho de Segurança da ONU limitou-se a pedir aos taliban para suspenderem os ataques e regressarem às negociações. Esta segunda-feira o envidado especial das Nações Unidas ao Afeganistão, Jean Arnault, reuniu-se em Teerão com o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Javan Zarif.

Este apelou à comunidade internacional para condenar a violência e as suas consequências, ao mesmo tempo que apontava o dedo. “As políticas erradas levadas a cabo por potências estrangeiras são um dos principais fatores a contribuir para atual situação no país”, afirmou.
Seis capitais em mãos taliban
A retirada das forças ocidentais deve estar completa o mais tardar até setembro. A partida levou à  ofensiva dos taliban, em busca do regresso ao poder do qual foram afastados em 2001.

Depois de garantirem o controlo das áreas rurais, os islamitas voltaram-se para as maiores urbes e afirmam ter capturado nos últimos dias seis capitais de província. Aibak, capital de Samagan, juntou-se esta segunda-feira a Sar-e Pul, capital da província do mesmo nome, a Zaranj, capital de Nimruz, a Sheberghan, capital de Zawzjan, e a Taleqan, capital da província homónima e a Lashkar Gah, capital da província do sul, Helmand.

Apesar da propaganda taliban, outras fontes referem resistência por parte do exército afegão em Aibak e também em Kunduz, uma cidade do norte erguida junto a uma confluência de estradas estratégica e a uma extensa área agrícola densamente povoada.

As forças armadas leais a Cabul anunciaram a morte de 500 combatentes taliban nestes combates. Em Herat, próximo da fronteira com o Irão, os combates mantêm-se nos arredores da cidade.

As forças norte-americanas têm realizado vários bombardeamentos aéreos em defesa dos nossos aliados afegãos”, revelou a major Nicole Ferrara, porta-voz do comando central dos Estados Unidos, sem revelar onde ocorreram.

Os taliban já emitiram ameaças contra este auxílio e no Paquistão, país vizinho do Afeganistão e a partir do qual os EUA poderão lançar ataques, a questão divide a opinião pública.
Terror taliban e crimes de guerra
Os filhos assassinados de Latif Afghan estão longe de ser exemplo único da forma como os taliban estão a impôr o seu poder.

Soldados, polícias, civis com alegados laços ao Governo afegão, parecem ser os principais alvos da perseguição taliban. Mas as famílias também são perseguidas, como forma de “aterrorizar e desmoralizar ainda mais as forças armadas afegãs e os funcionários governamentais”, acredita Patrícia Gossman, diretora associada da Human Rights Watch para a Ásia.

Em Nimruz foram testemunhadas execuções sumárias. O The National diz ter tido acesso a vídeos e fotografias captadas por jornalistas locais, que mostravam filas de soldados afegãos que se teriam rendido aos taliban, de mãos atadas atrás das costas, a serem torturados e depois executados. Os repórteres são eles próprios alvos, pelo risco que representam para a propaganda afegã. Só este ano já foram mortos ou assassinados mais de 30 jornalistas. O mais recente foi alvejado esta segunda-feira na capital, Cabul. Outro foi raptado domingo de casa, em Helmand.
Tadin Khan, antigo chefe de polícia de Kandahar, acredita que só em Spin Baldak tenham sido mortas centenas de pessoas. “É possível que tenham martirizado 800 a 900 pessoas no último mês e meio”, afirmou média locais. “A brutalidade do que ali ocorreu é imperdoável”.

Em muitos casos, os homens foram atraídos a uma armadilha montada pelos taliban, para se “registarem” de forma a garantir a própria segurança, sendo depois detidos e executados.

Supostamente foram buscar uma carta de salvo-conduto que se revelou ser sem qualquer significado ou, ainda pior, foi como pintarem um alvo nas costas”, reagiu a diretora da HRW.

Gossman fala em crimes de guerra.

As agências de defesa dos direitos humanos só conseguem confirmar uma ínfima parte destas mortes. A Comissão Independente Afegã para os Direitos Humanos fala em 40 execuções em Kandahar e 37 na província de Ghazni. A Human Rights Watch aponta pelo menos 44 execuções sumárias mas Gossman concede que o total de vítimas é provavelmente superior ao registado pela sua organização.

Os únicos objetivos das execuções parecem ser aterrorizar a população e dizimar os homens em idade de combate.

Mulheres e crianças também não estão a salvo. Só nas últimas 72 horas, denunciou a UNICEF, foram mortas 20 crianças e 30 outras ficaram feridas no distrito de Kandahar.

As atrocidades agravam-se a cada dia”, disse à agência Reuters o representante no Afeganistão da organização das Nações Unidas para a infância, Hervé Ludovic de Lys.
PUB