Afeganistão. Presidente Ghani atira as culpas da espiral de guerra para as costas dos EUA

por Graça Andrade Ramos - RTP
Ashraf Ghani, Presidenye do Afeganistão, ao Parlamento afegão a 02 de agosto de 2021 Reuters

Ashraf Ghani quebrou o silêncio das últimas semanas para imputar a degradação da situação militar no país à "brusca" retirada dos norte-americanos, ao fim de 20 anos de presença. Perante o Parlamento afegão, o Presidente prometeu defender as cidades do assalto taliban e mencionou planos para quebrar o ímpeto dos islamitas num prazo de seis meses.

Um porta-voz dos taliban, Zabihullah Mujahid, classificou esta última declaração de Ghani como "absurda". Nos últimos dias os islamitas apertaram o cerco a três grandes urbes, Herat e Kandahar, segunda e terceira maiores cidades do país, e à capital de Helmand, Lashkar Gah.

Os combates têm gerado uma onda de refugiados, com os civis em fuga perante o avanço taliban e sem qualquer proteção. O país, já em situação frágil, mergulhou no caos, em plena pandemia de Covid-19.

“A situação atual deve-se à brusca decisão” de Washington, declarou sem meias palavras Ashraf Ghani, perante uma câmara convocada de urgência devido à gravidade da situação no terreno.

Na origem estará um processo de paz “apressado e importado”, acrescentou Ghani, referindo-se às conversações em Doha, no Qatar, iniciadas sob a Administração Trump em finais de 2020 e que acenavam com a retirada das tropas norte-americanas em caso de entendimento entre o Governo afegão e a liderança taliban.

O anúncio do sucessor de Trump, Joe Biden, em abril de 2021, de saída unilateral sem contrapartidas foi o toque de finados das conversações, que já agonizavam. O mal estava feito, para Ghani, que condenou um processo que “não só fracassou no objetivo de trazer a paz como criou dúvida e ambiguidade” entre os afegãos.

“Os Taliban não acreditam numa paz justa ou duradoura”, afirmou Ghani, que viajou de helicóptero até ao Palácio Darul Aman, em Cabul, onde decorreu a sessão, tendo inspecionado uma guarda de honra antes de entrar.
Reversão "em seis meses" com apoio dos EUA
Ashraf Ghani prometeu que o seu Governo iria concentrar esforços na proteção das capitais de província e nas maiores áreas urbanas, face ao rápido avanço dos taliban, apelando a uma mobilização geral e mantendo que as forças regulares afegãs têm meios e capacidade de “vencer” a rebelião.

O Presidente previu mesmo uma mudança no palco de guerra “nos próximos seis meses”, que iria fazer recuar os taliban, sem elaborar além de referir apoio norte-americano.

Nas últimas semanas o exército afegão mostrou-se incapaz de suster o avanço taliban e tem sido deixado praticamente sem provimentos ou reforços.

No domingo, o porta-voz das Forças Armadas do Afeganistão, o general Ajmal Omar Shinwari, reconheceu que três províncias no sul e no ocidente do país enfrentam uma situação securitária crítica.

Kandahar, berço do movimento taliban, e as províncias de Helmand e de Herat têm sido palco de vários combates.

A queda de uma grande cidade perante os taliban deverá ter um efeito devastador na moral das tropas afegãs, prevêm vários analistas.
Assalto a Lashkar Gah
Sexta-feira passada as forças islamitas lançaram um assalto a Lashkar Gah, de 200 mil habitantes e capital de Helmand, e controlam já o sétimo bairro da cidade, estando a pressionar a conquista de outras áreas vitais para a segurança.

“Há combates, quebras de eletricidade, as redes de telecomunicações não funcionam, já não há medicamentos, as farmácias e centros de saúde estão encerrados”, afirmou esta segunda-feira à Agência France Presse, uma habitante da cidade, Hawa Malalai.

“Têm ocorrido tiroteios ininterruptos, bombardeamentos e morteiros em áreas densamente povoadas”, revelou por seu lado Sarah Leahy, coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras de Helmand, em comunicado. “As casas estão a ser bombardeadas e muitas pessoas estão a ser atingidas”, acrescentou.

A vida na cidade estagnou, com os residentes que não conseguiram fugir a manter-se fechados em casa, com medo de sair exceto em caso de emergência. “Alguns dos nossos colegas estão a passar a noite no hospital por ser mais seguro, mas também para continuarem a tratar dos pacientes”, disse Leahy.

Há meses que a situação é grave, mas agora é ainda pior”, sustentou. O chefe do Conselho Provincial de Helmand, Ataullah Afghan, acusou os taliban de “se refugiarem nas casas de civis”, tornando-os escudos humanos. Um comando de elite foi enviado para Lashkar Gah esta segunda-feira, para ajudar a defender a cidade.

Quem conseguiu fugir da cidade tenta seguir o rio Helmand até lugar seguro e afirma que as forças afegãs da cidade estão “sem alimentos e sem provimentos”.

Em Cabul, Ashraf Ghani afirmou que o seu Governo tem o apoio financeiro e político dos Estados Unidos e da comunidade internacional, para reverter o avanço taliban, ao mesmo tempo que apelava os islamitas a regressar às conversações.

Ou nos sentamos joelho a joelho a uma verdadeira mesa de negociações ou lhes quebramos os joelhos no terreno de batalha”, afirmou.
Força Aérea afegã pressionada
Além dos comandos de elite, o grande socorro das tropas regulares tem sido o apoio aéreo e há relatos de que os taliban estão a assassinar pilotos fora das bases militares. Pelo menos sete foram já vítimas de atentados, afirmaram à agência Reuters dois altos responsáveis governamentais, como parte da estratégia taliban de ver os pilotos treinados pelos Estados Unidos “identificados e eliminados”.

O inspetor-geral para a Reconstrução do Afeganistão, conhecido pela sigla SIGAR, referiu ainda que a frota aérea afegã mostra sinais de esgotamento face ao esforço que lhe está a ser exigido.

Os helicópteros UH-60 Black Hawk tinham em junho uma prontidão de 39 por cento, metade do nível registado em abril e maio. E todos os meios aéreos afegãos estavam a voar a pelo menos 25 por cento dos intervalos recomendados de paragem e manutenção, de acordo com um relatório do SIGAR, devido ao aumento de missões para “apoio aéreo, vigilância, informação, reconhecimento e reabastecimento, agora que se foi o apoio militar aéreo norte-americano”. O esforço reflete-se não só nos pilotos como no pessoal de terra, referiu.

O relatório do SIGAR afirma ainda que as forças especiais têm sido “chamadas para tudo” pelas tropas regulares, para efetuar tarefas que estas deveriam garantir, como controlo ou limpeza de vias.
EUA alargam acolhimento da afegãos
As embaixadas dos EUA e do Reino Unido em Cabul acusaram segunda-feira em uníssono os taliban de “ter massacrado dezenas de civis”, no distrito meridional de Spin Boldak, que conquistaram a 14 de julho, com base num relatório de uma comissão independente, a AIHRC.

Pelo menos 40 pessoas terão sido mortas por represália, funcionários ou responsáveis governamentais, tanto em funções como os seus antecessores, sem funções de combate.

Os Estados Unidos anunciaram por seu lado o alargamento do programa de acolhimento dos afegãos que de alguma forma serviram as forças ocidentais nos últimos 20 anos. Os candidatos terão de ser referenciados por uma agência governamental norte-americana ou pelo mais alto responsável americano de um órgão noticioso baseado nos Estados Unidos, ou de uma organização não-governamental.

A nova diretiva deverá ultrapassar em muito os atuais 20.000 candidatos aos vistos especiais de imigração, SIV, que serviram como intérpretes ou noutras funções cruciais as forças norte-americanas e que temem pela própria vida sob um eventual regresso ao poder dos taliban.

Com as suas famílias estes refugiados poderão já atingir as 100.000 pessoas, de acordo com algumas estimativas, e o processo de retirada está a ser incrivelmente lento. Os primeiros 200 de uma ponte aérea para os por a salvo, chegaram sexta-feira a solo norte-americano. Milhares de afegãos, mesmo que passem todos os requisitos de segurança e sejam aprovados para sair do país à boleia doa EUA, deverão ficar para trás após 31 de agosto.


A retirada norte-americana foi anunciada por Joe Biden em meados de abril, desencadeando um efeito dominó de outros Governos das forças ocidentais, maioritariamente de países da NATO.

A saída militar generalizada iniciou-se em maio e está agora praticamente concluída, semanas antes da data oficial de 31 de agosto.

Aproveitando o vazio, os taliban lançaram uma ofensiva fulgurante sem encontrar resistência à altura, a qual, em três meses, lhes deu o domínio de mais de metade dos 420 distritos, sobretudo nas zonas rurais, e varreu para as grandes cidades, sob proteção da força aérea, o exército regular do Afeganistão fiel ao Governo de Ghani e formado com apoio ocidental.
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