Joe Biden. Retirada das tropas americanas do Afeganistão ficará concluída "a 31 de agosto"

por Graça Andrade Ramos - RTP
Joe Biden anuncia a 8 de julho de 2021 a data de conclusão para a retirada norte-americana dos norte-americanos do Afeganistão Reuters

O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou esta quinta-feira que a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão ficará concluída "a 31 de agosto", dias antes das cerimónias em memória dos 20 anos dos ataques de 11 de setembro.

O Presidente afirmou que os Estados Unidos "atingiram os seus objetivos" no Afeganistão e deixou garantias de apoio ao actual executivo do país e aos norte-americanos capturados e afegãos que serviram as tropas norte-americanas.

"O apoio americano vai perdurar", afirmou. O Pentágono anunciou terça-feira que a retirada esta atualmente concluída a "90 por cento". A maior base norte-americana no país, Bagram, foi evacuada no fim de semana passado.

"Há uma casa para vós nos Estados Unidos", prometeu também Joe Biden aos seus aliados afegãos no terreno, dando garantias de que serão transferidos para países terceiros de forma a garantir a sua segurança e que haverá já este mês "voos de retirada" para os afegãos a quem foram atribuidos vistos norte-americanos especiais.

As chefias militares são unânimes na antecipação de guerra civil no Afeganistão quando a retirada das tropas internacionais ficar completa. O Presidente reconheceu esta quinta-feira que "os taliban estão na sua força militar máxima desde 2001", contudo recusou-se "enviar uma nova geração de americanos para a guerra no Afeganistão".

"Esta é a decisão certa e já vem tarde", sustentou o líder supremo das tropas norte-americanas. "Estamos a pôr um fim à guerra mais longa da América".

Após a retirada, os Estados Unidos vão manter um contingente de 650 soldados para garantir a segurança da embaixada em Cabul.
Afegãos capazes
Para Biden, os Estados Unidos necessitam de "reforçar os seus pontos fortes para responder a nova competição estratégica com a China e outras nações" e "reposicionar os seus recursos e forças contraterroristas para responder às ameças onde elas se encontram atualmente". A ameaça do extremismo islâmico no Afeganistão deixou de preocupar Washington, conclui-se.

Apesar das vozes críticas, o Presidente norte-americano tem dito desde que anunciou a retirada das tropas, em meados de abril, que chegou o momento dos povo afegão "decidir o que quer". Esta quinta-feira, repetiu a ideia.

Os Estados Unidos não intervieram no Afeganistão há vinte anos "para construir uma nação", o que é "responsabilidade" dos próprios afegãos, afirmou, ao mesmo tempo que apelava aos países na região para aumentarem os esforços de conseguir uma solução política para o país.

"Nenhuma nação conseguiu alguma vez unificar o Afeganistão", alegou Biden, num aparente sacudir de responsabilidades.

O Governo apoiado pelo Ocidente em Cabul enfrenta o avanço armado dos taliban, que desde a primavera tem estado a ganhar terreno, perante a impotência e, muitas vezes, a fuga do exército. As agências norte-americanas de intellegentsia antevêem uma sobrevivência de curta duração ao executivo, apesar da ascenção taliban ao poder, ao fim de 20 anos de recuo, ser considerada pouco provável.

Os dados não apontam para o colapso do Governo afegão, garantiu Joe Biden esta tarde. "Não é inevitável" que o país caia em mãos taliban", afirmou, apesar de "não confiar" neles. "Confio na capacidade militar afegã", respondeu aos reporteres reunidos na Casa Branca.
Emissão de vistos tem de "acelerar"
O Presidente negou ainda estar prevista uma evacuação semelhante à ocorrida na guerra do Vietname, que chocou o mundo e foi considerada uma verdadeira derrota.

"Os taliban não são o exército norte-vietnamita e sob nenhuma circunstância haverá helicópteros a retirar pessoas dos telhados da embaixada", afirmou Biden. A retirada norte-americana começou a ser preparada pelo antecessor de Biden, Donald Trump, que contudo exigia em contrapartida um entendimento político entre o executivo de Cabul e os taliban, que ainda não foi alcançado. O acordo de outono passado, que abriu caminho à retirada dos Estados Unidos e seus aliados internacionais, não se tem traduzido na prática.

Apesar do otimismo de Biden, que está a retirar sem condições, os combatentes taliban já controlam metade do país, sobretudo as áreas rurais e os afegãos que trabalharam como tradutores e intérpretes para as tropas são considerados pelos extremistas como colaboradores e traidores. Correm risco de vida, a par das suas famílias, e exigem abrigo nos EUA.

O Presidente norte-americano reconheceu somente esta quinta-feira que os processo de emissão de vistos para os aliados afegãos necessita de "acelerar". Em maio havia mais de 18.000 candidaturas para cerca de 4.000 vistos emitidos e muitas candidaturas estavam a ser recusadas sem grandes explicações para desespero de muitos afegãos.

Joe Biden também prometeu continuar a trabalhar para a libertação dos cidadãos norte-americanos capturados em solo afegão em 20 anos de guerra e ainda detidos.
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