Alemanha. Extrema-direita sob fogo cerrado após ataque que fez nove mortos

por Joana Raposo Santos - RTP
"Fascismo e racismo matam em todo o lado", lê-se no cartaz segurado por manifestantes curdos que prestaram homenagem às vítimas do mais recente tiroteio na Alemanha Foto: Kai Pfaffenbach - Reuters

Vários políticos e cidadãos alemães apelaram a uma vigilância do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) por acreditarem que este tem incentivado o aumento de ataques extremistas no país. Os apelos ganharam força depois do mais recente tiroteio nesse país, que resultou na morte de nove jovens, na maioria de origem turca.

Na madrugada de quinta-feira, nove jovens foram assassinados e cinco ficaram feridos num tiroteio em dois bares da cidade alemã de Hanau. O autor dos disparos foi Tobias Rathjen, um homem de 43 anos que, antes de levar a cabo o ataque, publicou na internet um vídeo e um manifesto racistas.

No final da mesma madrugada, o autor do tiroteio foi encontrado morto num apartamento, onde se encontrava também o cadáver da própria mãe.

O Partido Social-Democrata da Alemanha, membro do Governo de coligação de Angela Merkel, liderou os apelos a uma repressão da extrema-direita, defendendo que esta tem contribuído para a normalização da retórica extremista.

“Foi apenas uma pessoa que realizou o tiroteio em Hanau, aparentemente, mas foram muitos os que lhe forneceram as munições, entre eles a AfD [partido de extrema-direita, Alternativa para a Alemanha]”, sublinhou o secretário-geral do partido, Lars Klingbeil. Para além de exigências de um maior controlo da atividade da extrema-direita na internet, têm sido pedidas regras mais rigorosas sobre a posse de armas.

Para os socialdemocratas, a AfD contribuiu para um “envenenamento da sociedade” nos últimos anos, particularmente desde 2017, altura em que entrou no Parlamento alemão como o maior partido da oposição.

“É muito claro que a AfD é um partido que deveria estar sob vigilância policial”, argumentou o Partido Social-Democrata.

Na Alemanha, se as autoridades considerarem que uma organização ou partido possuem “ambições extremistas”, podem optar por monitorizar de perto a entidade em questão através de diversas técnicas de vigilância.

A agência de inteligência desse país tem estado a investigar a Alternativa para a Alemanha para determinar se esta deve ou não passar a ser vigiada, mas ainda não chegou a uma conclusão. A ala juvenil do partido, porém, já se encontra sob vigilância policial.
“O braço político do ódio”
Ainda do lado do Partido Social-Democrata da Alemanha, vários outros políticos apressaram-se a criticar o AfD. “É claro que existe uma relação direta entre a crescente força da AfD e o aumento da violência de extrema-direita”, considerou Boris Pistorius, ministro do Interior para o Estado alemão da Baixa Saxónia. “Está em curso uma desinibição fatal e a AfD é cúmplice”.

Também o partido alemão Os Verdes apontou ao dedo à extrema-direita, defendendo que está na altura de os principais partidos no Parlamento excluírem o Alternativa para a Alemanha, que considerou “o braço político do ódio”.

A AfD já reagiu às acusações de que tem sido alvo, recusando-se a reconhecer qualquer responsabilidade pelo ataque de Hanau e referindo-se a uma “perturbadora instrumentalização de um crime monstruoso”.

“O diagnóstico de um psiquiatra [ao autor dos disparos] afirma que ele sofria de esquizofrenia, alucinações e paranoia. Por outras palavras, ele pertencia à ala psiquiátrica. Mas, em vez de o admitirem, estão a tentar culpar-nos por este ato de loucura”, escreveu o partido em comunicado.

A AfD ganhou destaque em 2015, no pico da crise dos refugiados, quando um milhão de requerentes de asilo chegou à Alemanha. Nas últimas eleições, o partido conseguiu 12,6 por cento dos votos e tem agora representação nos parlamentos dos 16 Estados alemães.

A deportação de estrangeiros é uma das medidas mais frequentemente defendidas pela Alternativa para a Alemanha, que culpa os refugiados por tornarem menos segura a vida nesse país.
Policiamento aumenta
Horst Seehofer, ministro alemão do Interior, anunciou entretanto que iria aumentar o policiamento em mesquitas e noutros locais considerados vulneráveis a ataques de extrema-direita.

“As manchas de sangue do extremismo de direita estão a deixar rasto pela Alemanha”, declarou o membro do Governo, antes de uma reunião com representantes das comunidades turca e curda.

Gokay Sofuoglu, o representante da comunidade turca na Alemanha, argumentou que a AfD pretende criar condições semelhantes às de uma guerra civil e desestabilizar a democracia. “As autoridades precisam de se concentrar total e permanentemente no extremismo de direita”, disse.

“As pessoas afetadas pelo racismo (…) devem sentir-se protegidas por este país e pela Constituição. Como um primeiro passo, estamos a pedir uma comissão parlamentar de inquérito para lidar com o terrorismo e racismo de extrema-direita”.

Ainda na semana passada, as autoridades alemãs detiveram 12 homens, incluindo um polícia, suspeitos de envolvimento num grupo de extrema-direita que alegadamente planeava ataques contra políticos, minorias étnicas e refugiados.
“Nazis fora”, gritaram manifestantes
Na noite de quinta-feira, centenas de pessoas manifestaram-se nas ruas de 50 cidades alemãs para prestarem homenagem às vítimas do ataque e para exporem a sua posição contra a extrema-direita. “Nazis fora” e “Nunca mais” foram algumas das palavras mais repetidas em uníssono.

“Como uma pessoa afetada pelo terrorismo de extrema-direita, não consigo dormir à noite”, admitiu um dos manifestantes. “Penso que muitas das pessoas aqui sentem o mesmo. Muitos sentem medo”.

O ataque de Hanau está a ser investigado e a Procuradoria Federal alemã já concluiu que este teve “motivação xenófoba”. O procurador-geral federal, Peter Frank, disse mesmo que o autor dos disparos demonstrou uma “mentalidade profundamente racista” nos vídeos que publicou online.

Os bares Hookah, onde ocorreram os ataques, são locais onde se fuma tabaco aromatizado em cachimbos de água, característicos do Médio Oriente. Estes dois bares em específico, na cidade de Hanau, eram habitualmente frequentados por imigrantes turcos.

As autoridades avançaram que um veículo de "cor escura" foi visto a abandonar o bar onde se verificaram os primeiros disparos, tendo-se depois verificado um outro ataque num bar localizado a cerca de um quilómetro de distância do local onde ocorreram os primeiros tiros.
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