"Ameaça para levar a sério". Irão publica mapa com centenas de alvos em Israel e na Cisjordânia

Sob o título "Somente um passo em falso" um artigo, publicado quarta-feira à noite por um dos principais jornais iranianos em inglês, revela todos os potenciais alvos do Irão num ataque com mísseis em resposta a uma eventual ofensiva israelita.

Graça Andrade Ramos - RTP /
O 'mapa de alvos' do Irão em caso de ataque a Israel Tehran Times/Jerusalem Post

“Ameaças e pressão não funcionam com o Irão”, refere em subtítulo o Tehran Times. Além de centenas de locais em Israel, o mapa que ilustra o texto inclui alvos na Cisjordânia e no Líbano. A publicação do mapa dos alvos coincide com preparativos militares de reação caso falhem as negociações em Viena de Áustria sobre a reimplementação do acordo nuclear iraniano, conhecido pela sigla JCPOA - Joint Comprehensive Plan of Action.

“Um agravamento das ameaças militares de Israel contra o Irão parece sugerir que o regime sionista se esqueceu de que o Irão é mais do que capaz de os atingir seja de onde for”, refere o artigo, acrescentando “não ser necessário lembrar o regime ilegítimo de Israel das capacidades de defesa do Irão”.

A resposta e o mapa de alvos que a acompanha parecem esquecer por seu lado o escudo de defesa de Israel, que tem impedido os mísseis lançados pelo Hamas de atingir a maioria dos alvos israelitas.

O Iron Dome está contudo dependente em grande parte de financiamentos oficiais norte-americanos, assim como a manutenção de Israel na linha da frente regional em termos de armamento. E diversas vozes no Congresso dos EUA se têm levantado contra este apoio.
Sem motivo para pânico
O programa nuclear iraniano, oficialmente de índole pacífica, estará à beira de ultrapassar os limites impostos à produção de material passível de ser usado no fabrico de bombas. Estados Unidos, vários países europeus e as Nações Unidas querem impedir estes desenvolvimentos e Israel é fundamental nessa estratégia, enquanto inimigo do Irão.

Um dos maiores estudiosos do Irão e do regime dos Ayatolas comentou mapa e artigo, considerando-os credíveis. “As ameaças iranianas deviam ser levadas a sério”, afirmou Roei Kahanovich ao Jerusalem Post.Os iranianos "conhecem as fraquezas reais do Estado israelita e sabem que cidades são estrategicamente relevantes. Dizem ainda que Tel Aviv e Haifa serão as primeiras a serem fortemente atacadas mal se abra uma frente com Israel”, sublinhou Kahanovich.

O analista garantiu ao Jerusalem Post que não há ainda necessidade de pânico, mesmo se Teerão jurou destruir Israel. Considerou contudo que não será uma ofensiva militar que irá impedir os iranianos de tentar adquirir a bomba atómica.

“Falamos de um país que é científico, que se vê como uma espécie de potência, com mais de 80 milhões de pessoas, grande parte das quais com alto nível de instrução. Se olharmos para a História, o Irão via-se a si próprio como uma espécie de poder regional. Enquanto Estado soberano, acredita que armas ou tecnologia nuclear lhe irão possibilitar dar um salto em frente para se tornar um poder mundial”, referiu Kahanovich.

"Qual será a resposta de Israel e dos americanos, seja diplomática ou militarmente? Não sei. Porque a dar-se um ataque, não irá impedir os iranianos de prosseguirem com o programa nuclear, poderá apenas atrasá-los vários anos, mas não detê-los completamente", considerou.
Ameaças "de raspão"
Facto significativo é a inclusão, no mapa, de alvos em território palestiniano ocupado e além da fronteira israelo-libanesa. As cidades de Jenin e de Nablus, de Ramallah e de Hebron, estão na lista iraniana de ataque em resposta a Israel, apesar de se situarem na Cisjordânia. Também se incluem algumas áreas aparentemente vazias do deserto do Neguev.

Na área, apenas a Faixa de Gaza, dominada pelas milícias do Hamas, aliadas do Irão, fica a salvo.

Não seria contudo a primeira vez que o Eixo da Resistência – nome dado pelos iranianos aos seus aliados na região e que incluem ainda o Hezbollah libanês – atacaria alvos palestinianos rivais do Hamas.

O Irão lidera o xiismo islâmico, maior rival do sunismo liderado pela Arábia Saudita. Esta vê com maus olhos a influência iraniana nos assuntos regionais e vários dos seus países satélites estabeleceram recentemente ligações diplomáticas e económicas com Israel, numa frente comum contra o Irão apoiada por Washington.

A probabilidade de o passo seguinte ser uma aliança militar com Israel contra o velho inimigo é diminuta, apesar de algum apoio logístico poder ser disponibilizado por parte de alguns países árabes num eventual ataque, sobretudo em caso de participação norte-americana.

Jerusalém tem-se oposto frontalmente ao JCPOA, inclusive quando este foi firmado pela primeira vez em 2015. Agora, avisa os aliados ocidentais que os iranianos estão a arrastar propositadamente as conversações sobre o retomar do acordo, por estarem prestes a conseguir a quantidade de material atómico necessário para fabricar uma bomba nuclear.

Para Israel é necessário agir antes de esse limite ser ultrapassado.
Agir preventivamente
Na semana passada, o ministro israelita da Defesa, Benny Gantz, reuniu-se com o seu homólogo norte-americano, Lloyd Austin, e com altas patentes norte-americanas, para tentar estabelecer um calendário para uma eventual ofensiva contra o Irão.

Gantz revelou ao Pentágono que já pediu aos seus generais “para se prepararem para o desafio iraniano a nível operacional”. Estará já previsto para 2022 um gigantesco treino das Forças de Defesa de Israel, as IDF, com esse objetivo. Washington não se comprometeu com calendários, nem sequer quanto ao bater da porta nas negociações do JCPOA, apesar de se mostrar atento aos argumentos levantados por Gantz face ao perigo iraniano.

“Os americanos continuam connosco mas ao mesmo tempo os israelitas têm também de entender que eles têm prioridades mais amplas”, reconheceu Gantz, numa referência implícita à falta de entusiasmo da Administração Biden face uma nova frente de guerra no Médio Oriente.

A participação dos Estados Unidos numa eventual ofensiva militar para impedir Teerão de desenvolver armamento nuclear é incerta apesar das ameaças, sobretudo pela falta de apoio da opinião pública norte-americana, mesmo se os israelitas confiam de que esta virá a “mudar” quando o Irão adquirir os meios de fabricar armas atómicas.

Teerão respondeu a estas notícias e a Israel através do Tehran Times no artigo com o mapa de alvos.
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