Atropelada moratória de 2017. Coreia do Norte acusada de ensaiar míssil intercontinental

por Carlos Santos Neves - RTP
Segundo o Ministério japonês da Defesa, o míssil balístico norte-coreano “voou durante 71 minutos” KCNA/ Reuters

A Coreia do Norte disparou esta quinta-feira um projétil identificado por Seul como um míssil balístico intercontinental, em violação de uma moratória para os ensaios deste tipo de armamento datada de 2017. Foi alcançada a zona marítima económica exclusiva do Japão.

Foi o presidente sul-coreano quem indicou, em comunicado, que o projétil lançado pelas estruturas militares do regime de matriz estalinista seria um míssil intercontinental. Moon Jae-in sublinhou tratar-se de “uma rutura da suspensão de lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais prometida pelo presidente Kim Jong-un à comunidade internacional”.As Forças Armadas sul-coreanas responderam com disparos – simbólicos - de “mísseis a partir do solo, do mar e do ar”, na direção das suas águas costeiras.

Por sua vez, o primeiro-ministro japonês veio acusar Pyongyang de ter cometido “um ato escandaloso de imperdoável”, ameaçando assim “a paz e a segurança do Japão, da região e da comunidade internacional”. Fumio Kishida pronunciou-se em Bruxelas, na antecâmara da cimeira do G7, o grupo dos sete países mais industrializados.

Também a Casa Branca reagiu ao lançamento norte-coreano, garantindo que a Administração Biden tomará “todas as medidas necessárias para acautelar a segurança do território americano, da Coreia do Sul e do Japão”.

Segundo o número dois do Ministério japonês da Defesa, Makoto Oniki, o míssil balístico norte-coreano “voou durante 71 minutos”, antes de se precipitar, às 15h44 (6h44 em Lisboa), “na zona económica exclusiva do mar do Japão, a cerca de 150 quilómetros a oeste da Península de Oshima”, na ilha de Hokkaido, no norte do país.

“Tendo em conta que o míssil balístico, desta vez, voou a uma altitude de mais de seis mil quilómetros, mais alto do que o ICBM Hwasong-15, lançado em novembro de 2017, pensamos que este seja um novo ICBM”, fez notar Oniki.
Um fracasso a 16 de março
As autoridades sul-coreanas denunciaram um primeiro ensaio balístico da Coreia do Norte a 16 de março, que terá fracassado: o míssil explodiu no céu sobre território norte-coreano pouco depois do lançamento, a partir do aeroporto de Sunan, a norte da capital Pyongyang; o regime manteve-se em silêncio.

“Pyongyang tentou lançar um ICBM no aeroporto de Sunan, na semana passada, mas falhou. Agora procederam ao lançamento de hoje para maquilhar esta falha e porque querem dominar logo que possível as tecnologias de ICBM”, disse Go Myong-hyun, investigadores do instituto de estudos políticos Asan, em declarações à agência France Presse.A Coreia do Norte prepara-se para assinalar, a 15 de abril, o 110.º aniversário do nascimento do fundador do regime, Kim Il-sung, avô do atual líder.


“Kim Jong-un considera muito importante provar que é um dirigente competente antes do 110.º aniversário de Kim Il-sung, sobretudo ao seu próprio povo”, assinalou, por seu turno, Cheong Seong-chang, do centro de estudos norte-coreanos do Instituto Sejong.
“Míssil monstro”
Jong-un elegeu em 2021 como prioridade do regime a otimização da capacidade militar da Coreia do Norte. A começar pelo desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental capaz de transportar várias ogivas convencionais ou nucleares – com trajetórias independentes, logo mais difíceis de intercetar. Trata-se do ICBM Hwasong-17, batizado pelos analistas como “míssil monstro”, recorda a AFP.

Apesar de múltiplas resoluções da ONU e de pesadas sanções internacionais contra o seu programa nuclear, a Coreia do Norte já terá realizado, desde o início de 2022, uma dezena de ensaios de mísseis – recorrendo, aparentemente, a outros projéteis que não os ICBM.

Em 2017, o regime fez três lançamentos de mísseis intercontinentais Hwasong-15, com capacidade para atingir território dos Estados Unidos.

c/ agências
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