Embaixador francês em Lisboa: "A França está mais unida do que nunca no combate ao terrorismo"

A França escolhe dentro de poucas semanas o sucessor de François Hollande no Eliseu. Em entrevista à RTP, o embaixador francês em Lisboa considera que o povo gaulês está “mais unido do que nunca no combate ao terrorismo” e considera que esta luta tem sido “muito eficaz”. Jean-Michel Casa sublinha que pode haver novos atentados no futuro e alerta para a necessidade de se preparar o regresso de europeus que estão a combater ao lado do Estado Islâmico.

A França vai a votos com um novo espectro político. As sondagens preveem uma forte votação na Frente Nacional de Marine Le Pen e no independente Emmanuel Macron, que foi já ministro da Economia, em detrimento da direita tradicional e do Partido Socialista.

O país elege um novo Chefe de Estado depois de ter tido François Hollande como Presidente durante cinco anos. Um mandato marcado pela crise europeia e pela ameaça terrorista, nomeadamente com os ataques ao Charlie Hebdo, às esplanadas de Paris e a Nice.Na entrevista à RTP, o Jean-Michel Casa fala sobre o momento atual de França, o Brexit, os emigrantes portugueses e o interesse francês em Portugal.

Apesar das dificuldades, o embaixador francês em Portugal não considera que os franceses estejam hoje mais divididos. “A sociedade francesa está provavelmente mais unida do que nunca na sua luta contra o terrorismo”, afirma em entrevista à RTP.

Jean-Michel Casa sublinha que os ataques terroristas são “o contrário da religião em que os muçulmanos acreditam” e espera que a sociedade francesa não faça amálgamas entre muçulmanos e terroristas.

O embaixador francês considera que a “luta preventiva contra o terrorismo foi muito eficaz”, apesar de haver “alguns fenómenos de radicalização”. Sublinha que os radicalizados são muitas vezes “franceses nativos” convertidos “a um Islão completamente pervertido que não representa a verdadeira mensagem da religião”.

O representante francês em Portugal alerta para a importância da cooperação europeia no combate ao terrorismo e para a necessidade de se preparar o regresso dos europeus que combatem em nome do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. É também por isso que estão em vigor controlos nas fronteiras externas do espaço Schengen para todos os cidadãos, incluindo os europeus.

Apesar de perspetivar o combate ao terrorismo como “eficaz”, a ameaça persiste. “Não quer dizer que não teremos novos atentados”, sublinha. “Pode até atingir países como Portugal, precisamente porque estes terroristas pretendem aterrorizar em todo o lado”, explicita.



A França foi palco de protestos sociais e de ataques terroristas recentemente. Os franceses estão hoje mais divididos?


Penso que não. Em primeiro lugar não houve atentados recentemente. A luta preventiva contra o terrorismo foi muito eficaz, houve vários ataques que foram impedidos.

Diria que, mesmo estando num período eleitoral que motiva debate entre candidatos, a sociedade francesa está provavelmente mais unida do que nunca na sua luta contra o terrorismo, da mesma forma que a sociedade britânica está unida na sequência dos ataques de Westminster e que a sociedade sueca está unida na sequência dos ataques que aconteceram recentemente.

As sociedades têm tendência a reagir de uma forma consensual a esta ameaça externa, que é inaceitável e atinge as nossas sociedades de forma totalmente injusta.

Quanto aos protestos sociais, variam de acordo com os períodos. Este não é um momento particularmente tenso na França metropolitana. Primeiro porque este é um período eleitoral que motiva debate e há poucos movimentos sociais. Houve uma situação muito peculiar na Guiana francesa. É algo muito específico e que está ligado à desestabilização desta região francesa, nomeadamente devido à droga.

Os ataques recentes aumentaram a desconfiança entre os franceses e as comunidades migratórias?

Não considero isso. Primeiro porque a grande maioria das comunidades imigradas em França não são muçulmanas e também porque, para a esmagadora maioria dos muçulmanos, estes ataques representam algo completamente inaceitável.

Para a esmagadora maioria dos muçulmanos que vivem em França, estes atentados são o contrário da religião em que acreditam. Não podemos esquecer que os ataques levados a cabo por estes movimentos islamitas-extremistas fizeram mais vítimas entre os muçulmanos – pelo mundo e algumas vezes até em França – do que entre não muçulmanos.

Aliás, é muito revelador. No ataque ao Charlie Hebdo, a primeira vítima foi um polícia de origem magrebina que foi abatido pelos terroristas.

Não vê a sociedade francesa fazer uma amálgama entre muçulmanos e extremistas?

Espero que não, porque esta amálgama não tem razão de ser. A imensa maioria dos muçulmanos que vive em França não se reconhece nestes movimentos terroristas e não são em nada responsáveis por eles.

Há alguns fenómenos de radicalização. Há pessoas que imigraram e que se radicalizaram, frequentemente através do contacto com amigos ou até mesmo na prisão. É um fenómeno que existe: delinquentes que, pelo contrário, até tinham uma prática religiosa muito descontraída e acabaram por radicalizar-se na cadeia.


Também não podemos esquecer que, entre os autores de ataques em França ou mesmo entre aqueles que foram para o Iraque ou a Síria combater em nome do Estado Islâmico, há descendentes de imigrantes mas também nativos franceses que se converteram a um Islão radical que em nada representa esta religião.

O Islão é uma religião que pratica a tolerância e que tem todo o seu lugar em França. Eles são convertidos a um Islão completamente pervertido que não representa a verdadeira mensagem desta religião.

Tem havido alguns ataques recentemente, mas aparentemente sem uma estrutura tão organizada como a do atentado de novembro de 2015 em Paris. O combate ao terrorismo feito pela França e seus aliados tem sido eficaz?

Considero que o combate ao terrorismo é eficaz, o que não quer dizer que não teremos novos atentados. E o que digo é válido para todos os países: nenhum está a salvo dos ataques. Vimo-lo, uma vez mais, em Londres e em Estocolmo.

Pode acontecer em qualquer lado. Aliás, Itália tinha muito receio quando se realizou a cimeira que comemorou os 60 anos do Tratado de Roma. Pode atingir países como Portugal um dia, precisamente porque estes terroristas pretendem aterrorizar em todo o lado.

A cooperação entre parceiros europeus neste domínio é suficiente?

Nunca é o suficiente. Em sentido absoluto, seria sempre preciso fazer mais. Mas já há uma boa cooperação, nomeadamente através do sistema Schengen. Schengen é muitas vezes denegrido, mas inclui um bom sistema de partilha de informações.

Há também uma grande cooperação entre os serviços secretos e as polícias sobre as pessoas radicalizadas e há também o sistema de controlo dos passageiros aéreos, que permite fiscalizar melhor. Evidentemente que não podemos ter um polícia atrás de cada pessoa.

Que medidas poderiam avançar na União Europeia para reforçar esta cooperação?

Em termos absolutos seria precisa ainda mais troca de informação, nomeadamente sobre as pessoas que estão identificadas como perigosas ou radicalizadas. Mas nem sempre é fácil. Muitas vezes estas pessoas mudam de identidade, desaparecem.

Devemos também ter uma ação preventiva a nível europeu, como a França preconiza, para prevenir e impedir ataques por parte dos combatentes que regressarão do Iraque e da Síria quando a organização que afirma ser o Estado Islâmico for completamente derrotada.

O que pode ser feito em concreto?

Trocar informações, fazer circular os nomes das pessoas que chegam dessa região. É preciso que haja troca de informações entre serviços secretos.

O que pode a França fazer para reintegrar estas pessoas?

A reintegração não é bem a nossa abordagem. Em primeiro lugar, é interrogá-los, fazê-los perceber o que fizeram e julgá-los caso tenham cometido crimes. Se combateram as populações sírias e iraquianas, ou até mesmo os aliados que lutam contra o Estado Islâmico, serão investigados e julgados. O objetivo é também, se possível, tentar desradicalizá-los.

Mas não sabemos ainda como…


Precisamente. Mais uma vez, a melhor política neste assunto é a prevenção. É o reforço dos controlos fronteiriços, nomeadamente nas fronteiras externas do espaço Schengen, que já decidimos fazer.

Agora, toda a gente deve ser controlada. Sejam pessoas de origem muçulmana, de origem estrangeira que se radicalizaram ou franceses nativos convertidos, o objetivo é utilizar as nossas informações para tentar identificá-los quando entram.

Daí esta ideia de reforçar os controlos nas fronteiras externas do espaço Schengen para os cidadãos estrangeiros mas também para os europeus. Porque, precisamente, sabemos que podem ser cidadãos europeus – que adquiriram a nacionalidade ou porque são europeus convertidos.

A maior parte dos autores de atentados que puderam ser detidos ou identificados recentemente, seja em Inglaterra, Alemanha, Suécia ou França, muitos tinham nacionalidade francesa, belga, sueca ou britânica. Daí a importância de reforçar os controlos e de trocar informações entre os países de Schengen.

Este texto é uma das quatro partes da entrevista da RTP ao embaixador de França em Portugal. Pode ler toda a entrevista através dos seguintes links:

Parte I: "A França está mais unida do que nunca no combate ao terrorismo"
Parte II: “Portugal é a prova que os populismos mentem”
Parte III: “Voto em partidos populistas que promovem o ódio é um contrassenso”
Parte IV: “Portugal é o país da moda em França porque merece"