É como uma comunidade perfeitamente integrada na sociedade francesa que o embaixador francês em Lisboa olha para os portugueses que vivem em França.
“Estão de tal forma integrados na sociedade francesa, sobretudo a segunda e terceira geração, que não se distinguem dos franceses”, explica Jean-Michel Casa.Na entrevista à RTP, o Jean-Michel Casa fala sobre o momento atual de França, o Brexit, os emigrantes portugueses e o interesse francês em Portugal.
O emissário francês em Portugal nota que os portugueses tentam no entanto manter a sua identidade cultural e dá conta dos avanços que têm sido feitos no ensino do português em França.
“Saímos de um sistema em que ensinávamos a língua portuguesa aos lusodescendentes. Hoje é um sistema que permite ensinar o português a todos os alunos, sejam eles portugueses ou não”, explica à RTP.
Apesar das ligações à emigração, há muitos franceses de origem portuguesa que deverão votar na Frente Nacional nas eleições presidenciais.
O embaixador nota o paradoxo que representa esta situação, uma vez que se trata de um partido que “é a rejeição de toda a imigração” e que “promove a rejeição do estrangeiro”. Mas não é só o voto de franceses de origem portuguesa na Frente Nacional que Jean-Michel Casa vê como um contrassenso.
“De uma forma geral, é um contrassenso que as pessoas votem em partidos populistas, de extrema-direita e que promovem o ódio, a rejeição do outro. É um contrassenso em si”, afirma o embaixador.
Como é que os franceses veem a comunidade portuguesa em França?
Não quero ser mal interpretado, mas não tenho a certeza de que os franceses tenham uma visão particular sobre os portugueses. Os portugueses, conservando a sua identidade e tendo os seus clubes, estão de tal forma integrados na sociedade francesa, sobretudo a segunda e terceira geração, que não se distinguem dos franceses.
Aqueles que chegaram nos anos 60, provenientes de um Portugal muito pobre, que vivia em ditadura, e que fugiam da miséria mas também porque não queriam que os filhos fossem para a guerra colonial, ficaram até à reforma. Alguns adquiriram a nacionalidade francesa, outros regressaram a Portugal. E a segunda e a terceira geração está perfeitamente integrada, mesmo com alguns a conservar a língua de origem.
Aliás, é algo em que estamos a trabalhar. Há um acordo recentemente assinado entre a França e Portugal que é muito interessante. Precisamente porque saímos de um sistema em que ensinávamos a língua portuguesa nas escolas francesas aos lusodescendentes para um sistema que permite ensinar o português a todos os alunos, sejam eles portugueses ou não, como uma língua estrangeira.
Este é um sinal muito revelador de uma forma de integração. Os portugueses não são diferentes, aliás, a maior parte tem nacionalidade francesa. Até temos dificuldade em contabilizar a comunidade portuguesa, os números variam de 500 mil a um milhão, talvez até mais.
O emigrante português em França já não é o pedreiro e a porteira?
Também os há. A maioria dos pedreiros tornou-se gerente de empresas de construção civil. Continua a haver porteiras portuguesas mas…
Sim, mas falo essencialmente da visão dos franceses em relação aos portugueses.
Não, penso que isso mudou muito. Aliás, basta ver o sucesso de Portugal em França. Portugal é o país que está na moda. Basta consultar qualquer revista em qualquer semana… o último número da GEO é todo ele sobre a promoção de Portugal. É provavelmente o país o mais concorrido atualmente em França.
A comunidade portuguesa envolve-se civicamente e politicamente em França?
Sim, até há associações perfeitamente integradas, que pretendem unir esses eleitos, nomeadamente a CIVICA. Respeitando o caráter francês destes eleitos, que foram escolhidos democraticamente pelo povo francês, são lusodescendentes e querem manter relações culturais. São também uma ponte, que participam na rede de relações extremamente densas entre Portugal e a França.
Os migrantes portugueses estão melhor integrados do que as comunidades que chegam do norte de África?
Depende, não podemos também subestimar a capacidade de integração das comunidades magrebinas. Temos tendência a ver estes aspetos de radicalização de uma parte do Islão, mas a verdade é que uma boa parte da comunidade magrebina está muito bem integrada.
Há cada vez mais pessoas de origem magrebina na polícia, nas forças militares, no sistema de ensino, no design, na moda, nas profissões de todos. Há verdadeiros sucessos.
Uma sondagem realizada em maio de 2016 indicava que 46 por cento dos franceses de origem portuguesa poderiam votar na Frente Nacional. É um contrassenso que as comunidades migratórias votem em movimentos populistas?
De uma forma geral, é um contrassenso que as pessoas votem em partidos populistas, de extrema-direita e que promovem o ódio, a rejeição do outro. É um contrassenso em si. Que descendentes de pessoas de origem estrangeira votem num partido populista que pretende por em causa a Europa e a livre-circulação de pessoas é paradoxal, mesmo que se pode tentar explicar.
Alguns indicam que nalguns subúrbios mais difíceis os portugueses que mais sucesso tiveram vivem mal a coabitação com uma parte das comunidades magrebinas ou da África subsariana. Mas espero que não tenhamos números assim tão relevantes de portugueses que votarão naquilo que é a rejeição de toda a imigração e num partido que promove a rejeição do estrangeiro.
Este texto é uma das quatro partes da entrevista da RTP ao embaixador de França em Portugal. Pode ler toda a entrevista através dos seguintes links:
Parte I: "A França está mais unida do que nunca no combate ao terrorismo"
Parte II: “Portugal é a prova que os populismos mentem”
Parte III: “Voto em partidos populistas que promovem o ódio é um contrassenso”
Parte IV: “Portugal é o país da moda em França porque merece"
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Embaixador francês em Lisboa: "Voto em partidos populistas que promovem o ódio é um contrassenso"
O embaixador francês em Lisboa vê a comunidade portuguesa como perfeitamente integrada na sociedade francesa. Jean-Michel Casa considera que a visão francesa em relação aos portugueses mudou ao longo dos anos. Confrontado com o facto de lusodescendentes votarem na Frente Nacional, o embaixador nota o paradoxo e sublinha que o voto em partidos populistas é “em geral, um contrassenso”.
Christopher Marques, Pedro A. Pina