É um olhar otimista aquele que o embaixador francês lança sobre Portugal. Jean-Michel Casa aponta que o país é “um dos melhores alunos da Europa”, notando que Lisboa fez “esforços consideráveis durante a crise” e conseguiu modernizar-se nos últimos 35 anos. Em conversa com a RTP, o diplomata francês recorda a primeira vez que pisou solo luso.
“Era um país que saía da ditadura, de um período difícil com a Guerra Colonial e num nível de vida bem abaixo do atual”, relembra Jean-Michel Casa, para quem Portugal “é o exemplo de um país que conseguiu modernizar-se” ao mesmo tempo que reforçou a sua identidade. É um dos fatores que o embaixador considera ter contribuído para que Portugal seja o “país da moda” em França.Na entrevista à RTP, o Jean-Michel Casa fala sobre o momento atual de França, o Brexit, os emigrantes portugueses e o interesse francês em Portugal.
“Portugal está na moda porque merece. É um país bonito e Lisboa é uma das mais belas capitais da Europa, sempre o foi”, analisa o atual inquilino do Palácio de Santos.
Jean-Michel Casa espera que o crescimento do turismo não perturbe a autenticidade de cidades como Lisboa, ao contrário do que aconteceu em lugares como Praga ou Veneza, acreditando que a autarquia está a trabalhar nesse sentido.
O embaixador sublinha ainda o papel das empresas francesas em Portugal, notando que não se foram embora com a crise e investiram em algumas das privatizações. Para além das empresas, alguns franceses também se sentem atraídos e tentam uma nova vida em Portugal.
O emissário não acredita que sejam as vantagens fiscais condedidas pelo Governo aos reformados estrangeiros que justifiquem os números e garante que estas não criam tensão entre Paris e Lisboa.
Casa admite, no entanto, que a Europa poderia fazer progressos em termos fiscais, para que haja uma maior harmonização entre Estados-membros. Sublinha que também os direitos sociais dos trabalhadores precisam de ser harmonizados, numa referência à questão dos trabalhadores que trabalham num país diferente daquele em que estão registados.
O representante de Paris acredita que as interconexões elétricas entre França e a Península Ibérica vão avançar, explicando que o problema é essencialmente financeiro. “É caro, é mesmo muito, muito caro”, insiste.
Disse há pouco que Portugal é o país que está na moda em França. Porquê?
Portugal está na moda porque merece, em primeiro lugar. É um país bonito e Lisboa é uma das mais belas capitais da Europa, sempre o foi. Acho que há vários fenómenos que contribuem hoje para isso.
A explicação mais fácil é indicar a situação mais tensa no norte de África, no Egito e na Turquia. As pessoas vão menos a esses países e procuram locais culturalmente mais próximos. Mas acho que há outro fator aqui: Portugal, sendo um dos melhores alunos da Europa, que fez esforços consideráveis durante a crise e se coloca na vanguarda da União Europeia, é um dos países que mostra o quanto os populismos mentem.
Isto é, a Europa não nivela as identidades. Pelo contrário, a Europa permite que estas identidades se afirmem. Provavelmente, o que faz o sucesso de Portugal é, apesar de tantos anos de pertença à União Europeia, ter desenvolvido a sua identidade, a sua língua, continuando sempre aberto às restantes culturas e a manter as ligações com os seus antigos territórios.
É um país que conseguiu crescer e modernizar-se. Conheci Portugal pela primeira vez há mais de 35 anos, era um outro país. Era um país que saía da ditadura, de um período difícil com a guerra colonial e um nível de vida bem abaixo do atual. Portugal é o exemplo de um país que conseguiu modernizar-se, não só sem perder a sua identidade, como reforçando-a.
Nunca Portugal valorizou tanto as denominações de origem protegida para os vinhos, queijos, pastelaria e a gastronomia de forma geral. É isto que também faz o sucesso de Portugal junto dos turistas e que agrada nomeadamente aos franceses. Um país onde há bom tempo, onde as gentes são acolhedoras, onde se come, bebe bem e onde é agradável viver.
Portugal está a aproveitar esta oportunidade?
É um país que conheceu um extraordinário progresso nas suas capacidades de acolhimento. Há bons hotéis, há um bom sistema de transportes públicos, boas autoestradas, comboios que funcionam. É um país que está pronto e com uma elevação considerável no acolhimento, na qualidade dos vinhos, dos produtos, na gastronomia. Uma valorização da identidade portuguesa que não é de todo contrária à Europa.
Aliás, os verdadeiros europeus são aqueles que conservaram a sua identidade nacional. Dizemos às vezes, sobretudo em Lisboa, que os portugueses estão um pouco aborrecidos com este fluxo de turistas, porque os estrangeiros investem no imobiliário e fazem subir os preços.
Teme que a forma como Lisboa se vira para o turismo possa afetar as suas especificidades e prejudicar o próprio turismo no futuro?
Espero que não. Há outras cidades que viveram estes crescimentos do turismo no passado, como Praga ou Veneza. Provavelmente, aí o turismo é excessivo. Penso que é importante fazer aquilo que acredito estar a ser feito pelo município de Lisboa, para manter a identidade dos bairros, os comércios de proximidade e de contribuir para que não esteja tudo estandardizado. O que atrai em Lisboa é precisamente o seu lado autêntico.
Tivemos vários investimentos franceses nos últimos anos, nomeadamente no programa de privatizações durante a troika. A crise foi uma oportunidade para as empresas francesas em Portugal?
Não sei se foi uma oportunidade, mas é certo que as empresas francesas que já estavam presentes não se foram embora. Continuaram a desenvolver-se e a investir durante a crise. Penso nomeadamente nas empresas do setor automóvel que continuaram a investir apesar das dificuldades do mercado. Ainda recentemente, a Renault abriu uma grande fábrica no norte do país.
Não sei se aproveitaram uma oportunidade mas, nos setores que foram privatizados ou foram alvo de concessões de serviço público, muitas empresas francesas estiveram presentes. Foi o caso nos aeroportos, nas autoestradas. É bom que as empresas francesas invistam nas privatizações.
Há muitos franceses que vêm viver para Portugal. Há vantagens fiscais que facilitam…
Não só, acho que têm um efeito marginal. As vantagens fiscais dizem apenas respeito aos reformados e é necessário preencher alguns requisitos.
Não pensa que estas vantagens podem ser uma forma de concorrência desleal com os parceiros europeus?
De uma forma geral, tudo o que são vantagens fiscais para estrangeiros nunca são uma coisa boa. Mas por enquanto são números muito pequenos que não criam tensão nenhuma entre as autoridades portuguesas e francesas.
Os números são muitos sobrestimados, são algumas centenas de pessoas, talvez milhares. Porque as restrições são fortes, porque há pessoas que não têm vontade de viver o ano inteiro em Portugal. No fim de contas, os números não são consideráveis e não o serão.
Há uma falta de estratégia fiscal comum na União Europeia?
Poderíamos fazer melhor. Já houve algumas coisas que foram feitas. O IVA, por exemplo, foi consideravelmente harmonizado. Não esqueçamos que é o principal imposto na Europa, aquele que permite maior encaixe.
Poderíamos fazer mais. Há a taxa sobre transações financeiras de que falávamos há pouco e que é objeto de um projeto de cooperação reforçada. Sem entrar numa caricatura de que Bruxelas é que decide as regras, os europeus teriam interesse em aproximar os seus sistemas fiscais, nomeadamente no caso das empresas.
Não é normal que em alguns lugares as empresas sejam taxadas a 30 ou 40 por cento sobre os seus benefícios e noutros o sejam a 20 por cento. A prazo, será preciso aproximar os sistemas fiscais, da mesma forma como se devem aproximar as normais sociais. Há também aqui uma possibilidade de concorrência.
Refere-se aos trabalhadores destacados?
Claro, é uma evidência. É um assunto importante que não vai desaparecer.
É possível haver uma harmonização a nível europeu que reduza esse problema?
Esperemos que sim. Temos de trabalhar sobre isto porque é um problema que diz respeito a todos os europeus. Aqueles que pensam que é um trunfo para os seus trabalhadores, enganam-se. Os seus trabalhadores têm interesse em estar alinhados por regras sociais mais elevadas.
Teve uma carreira nas instituições europeias, Israel na Jordânia. Porquê Portugal agora?
Fiz carreira nos assuntos europeus, trabalhei em Paris e Bruxelas durante o essencial da minha carreira, mas às vezes também faço outras coisas. Passei perto de oito anos no Médio Oriente porque é uma região pela qual tenho interesse, tive também vontade de trabalhar na América Latina e particularmente na Argentina.
E também tinha vontade de voltar à Europa. A única coisa que eu não tinha feito era trabalhar como embaixador bilateral num outro Estado-membro. Era algo que me faltava e que tinha vontade de fazer. Gostava muito de Portugal, que conhecia bastante bem porque já tinha vindo em turismo ou em missão quando era diretor dos Assuntos Europeus no Ministério francês dos Negócios Estrangeiros.
Tenho uma simpatia natural por Portugal. É um país muito europeu, com o qual podemos sempre contar quando queremos avançar. Interessava-me, candidatei-me e fui selecionado, pelo meu Governo e pelas autoridades francesas.
Qual é o principal defeito do povo português?
Não sei se falaria em defeito. Há uma desvantagem natural que têm mas que não é hoje um verdadeiro problema, uma vez que há talvez 30 voos por dia entre Portugal e a França, sem falar dos restantes destinos europeus.
É um país que não está no centro geográfico da Europa, o que é um pequeno obstáculo que dá às vezes lugar a, não diria tensões, mas discussões entre franceses e portugueses sobre as interconexões elétricas. É um assunto eterno porque estas não são fáceis, uma vez que é necessário atravessar os Pirenéus.
Podemos acreditar que as interconexões elétricas vão avançar?
Temos de esperar que sim. É preciso tempo, é caro, é mesmo muito, muito caro.
É sobretudo um problema económico?
Sim, é uma questão de custo das infraestruturas. Não é fácil, é necessário investimento. Os Estados não estão muito ricos, apesar de tudo a crise passou por aqui. Os países são obrigados a alguma disciplina orçamental.
É um exemplo de obstáculo. Mas aquilo de que Portugal precisa é de continuar a praticar uma política sensata, de respeito pelas regras europeias, dos objetivos em termos de défice, ao mesmo tempo que diminui a austeridade que prevaleceu durante e anos e anos. Uma austeridade que foi sem dúvida necessária para sair da crise mas da qual os portugueses tinham vontade de sair.
Considero que a atual política permite um equilíbrio entre o respeito pelas normas europeias, mas promovendo o crescimento e o emprego. Aliás, o crescimento voltou, mesmo que poderíamos esperar mais.
Podemos esperar mais com as medidas tomadas pelo Governo e com aquelas tomadas a nível europeu. Não esqueçamos de tudo o que faz a Europa com o plano Juncker para desenvolver as infraestruturas. Aliás, esta é uma das debilidades a que eu diria que Portugal está atualmente obrigado para respeitar os compromissos europeus, ao mesmo tempo que reduz a austeridade, que foi negligenciar o investimento público. O plano Juncker e os fundos estruturais vêm contrabalançar isto.
É importante que o Portugal continue – tal como deseja – amarrado aos países europeus que mais querem avançar e aumentar a integração. Uma vez mais, no respeito pelas identidades de cada um mas pelo bem comum.
Quais são as suas prioridades como embaixador francês em Lisboa?
As minhas prioridades decorrem de tudo aquilo que tenho vindo a dizer. A prioridade clara para mim – e que foi validada pelas minhas autoridades – é manter a excelente relação que existe entre Portugal e a França e o facto de os dois países terem a mesma posição em praticamente 95 por cento dos assuntos europeus.
Esta é a prioridade, sobretudo num momento em que a Europa não deixa de enfrentar uma fase de dificuldades, com o Brexit. Vamos ser obrigados a submeter-nos a esta negociação durante alguns anos. É preciso responder aos populismos, mostrar que a Europa avança e, nisso, avançamos verdadeiramente de mãos dadas com os portugueses.
O segundo objetivo é consolidar a presença das empresas francesas em Portugal porque criam riqueza tanto em Portugal como em França. O desenvolvimento deste mercado é bom para o emprego em França e para as empresas que lucram com isso. Mas também para o emprego em Portugal e para o desenvolvimento do país. É uma lógica em que todos ganham.
As empresas francesas precisam de ser acompanhadas. Há todo um fenómeno de start-ups que têm interesse no mercado português. Tivemos perto de 200 franceses a participar ativamente a Web Summit.
Como terceira prioridade diria o reforço dos já fortes laços tradicionais entre Portugal e França, nomeadamente a promoção da língua e da cultura francesas. Há uma simpatia natural entre a França e Portugal, uma velha história comum com a comunidade franco-portuguesa em França, com cada vez mais franceses em Portugal e com o turismo. É preciso usar isto para promover o francês que era outrora falado por toda a gente e perdeu algum espaço.
Preocupa-o que se fale cada vez menos francês em Portugal?
Acho que estamos a inverter a tendência e a falar cada vez mais francês em Portugal, nomeadamente com os turistas que chegam.
Mas em termos de portugueses que aprendem francês na escola?
Poderíamos fazer melhor. Estamos a negociar com as autoridades portuguesas para tentar reforçar o ensino do francês nas escolas portuguesas. Mas há também a Alliance Française e as escolas especializadas.
Realizámos recentemente uma operação de promoção da gastronomia francesa e fizemo-lo em colaboração com escolas de hotelaria. Sentimos um interesse destas escolas não só para que haja intercâmbios com França mas também para aprender o francês.
Acredito que, para os portugueses, é mais fácil aprender o francês do que o inglês. Não significa que o francês seja apreendido em detrimento do inglês mas, neste mundo global, o francês representa a língua da diversidade, sobretudo quando comparado com o tudo em inglês e com um inglês básico. É uma língua que traz oportunidades a quem a apreende, a começar pelos portugueses.
Uma última questão. A França já perdoou os portugueses pela derrota na final do Euro 2016?
É uma questão que nem me coloco. Porque não sou um fanático de futebol. Quero dizer que o melhor ganhe. Foi Portugal que ganhou, foi muito bom, fez muito bem aos portugueses. Os franceses ficaram desiludidos alguns dias, mas depois passou. Está tudo muito bem.
Este texto é uma das quatro partes da entrevista da RTP ao embaixador de França em Portugal. Pode ler toda a entrevista através dos seguintes links:
Parte I: "A França está mais unida do que nunca no combate ao terrorismo"
Parte II: “Portugal é a prova que os populismos mentem”
Parte III: “Voto em partidos populistas que promovem o ódio é um contrassenso”
Parte IV: “Portugal é o país da moda em França porque merece"