Envio de mísseis terra-ar para a fronteira ucraniana aproxima Rússia da guerra

As estruturas militares russas começaram, na semana passada, a fazer chegar à linha de fronteira com a Ucrânia sistemas de mísseis terra-ar de médio Alcance Buk-M1 – o mesmo tipo de projéctil que, em 2014, abateu um voo da Malaysian Airlines a partir do leste ucraniano. Estas movimentações dão força ao cenário de uma guerra com o país vizinho. E esvaziam as recentes conversações mantidas entre os presidentes russo, Vladimir Putin, e norte-americano, Joe Biden.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Mesmo que Putin consiga alguma coisa do Ocidente, discussões sérias sobre garantias, o que será suficiente para Putin?”, questiona-se Tatiana Stanovaya, fundadora da empresa de análise política R.Politik Evgeny Odinokov - Sputnik/ EPA

O avistamento do comboio que fez chegar o sistema Buk-M1 à linha da frente é noticiado pelo jornal britânico The Guardian. Como observa o diário, a Rússia não estará ainda a postos para uma eventual invasão da Ucrânia. Para tal, terá ainda de estabelecer linhas de fornecimento de combustível, ou abrir hospitais de campanha. Mas o envio de sistemas de defesa terra-ar é visto como um passo claro no sentido de uma ofensiva.

“Estes dados permitem-nos concluir que, apesar das negociações entre Biden e Putin, continua a concentração de tropas russas nas áreas de fronteira com o território controlado pelas autoridades ucranianas”, escreve a Conflict Intelligence Team, que se tem dedicado a revelar os pormenores da mobilização de forças russas na fronteira.

O grupo Conflict Intelligence Team alega que a denominação dos mísseis Buk-M1 está a ser disfarçada pelos militares russos.
O Presidente russo pode ainda aplicar um travão à máquina de guerra, deixando um contingente reforçado na linha da frente e assim robustecer a sua posição negocial. Todavia, a generalidade dos analistas citados pelo Guardian vislumbra uma escalada cada vez mais irreversível.

“Mesmo que Putin consiga alguma coisa do Ocidente, discussões sérias sobre garantias, o que será suficiente para Putin?”, questiona-se Tatiana Stanovaya, fundadora da empresa de análise política R.Politik, para acrescentar que a comunidade internacional está “a testemunhar o advento de um novo aventureirismo geopolítico da Rússia”.
A escalada
Na passada quinta-feira, os serviços secretos russos – FSB – afirmaram ter intercetado um navio ucraniano no Mar de Azov, perto da Crimeia. No dia seguinte, perto de 70 por cento desta massa de água ficou vedada à navegação.

Para lá das movimentações militares, tem igualmente subido de tom a retórica belicista. O vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, disse recentemente que Rússia e Estados Unidos podem estar a caminho de uma reedição da crise dos mísseis em Cuba de 1962. O próprio Vladimir Putin comparou o quadro no leste da Ucrânia a “um genocídio”.

Na sexta-feira, o Ministério russo dos Negócios Estrangeiros enunciou as condições de Moscovo para admitir aplicar um ponto final a esta crise: desde logo, um recuo “da decisão da cimeira de 2008 da NATO em Bucareste de que a Ucrânia e a Geórgia se tornariam membros” da organização.Moscovo destacou já perto de 100 mil operacionais militares para a fronteira com a Ucrânia. Washington calcula que este número possa atingir os 175 mil até ao final de janeiro.

Em suma, o que Putin está a fazer neste momento é a deixar claro, uma vez mais, que não está disposto a admitir que a Aliança Atlântica lance raízes às portas da Rússia. A anexação da Crimeia, em 2014, e a guerra que se lhe seguiu no leste da Ucrânia materializaram esta “linha vermelha” do Kremlin.

A diplomacia dos Estados Unidos tem procurado persuadir o Kremlin de que a Ucrânia não chegará a integrar a NATO num futuro próximo. Moscovo exigiu, na sexta-feira, uma tomada de posição mais oficial. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da Aliança Atlântica, acabaria por ser taxativo, durante uma conferência de imprensa ao lado do novo chanceler alemão, Olaf Scholz: “A relação da NATO com a Ucrânia vai ser decidida pelos 30 aliados e a Ucrânia e mais ninguém”.

Em artigo publicado na sexta-feira pela revista Foreign Affairs, o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, escrevia, por seu turno, que “a melhor forma de responder aos ultimatos” russos passaria por “ignorá-los por completo”.

“A História mostra que as declarações de neutralidade da Ucrânia ou de qualquer outro país da região não diminuem em nada o apetite de Putin; pelo contrário, alimentam-no”, acusou o governante ucraniano.
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