Finlândia reforça patrulhas na fronteira com a Rússia perante novas rotas de migrantes

por Carla Quirino - RTP
Guardas de fronteira finlandeses patrulham a fronteira entre a Finlândia e a Rússia, marcada por uma estreita clareira na floresta perto da aldeia de Hoilola, no leste da Finlândia Anne Kauranen - Reuters

A Finlândia está a endurecer políticas para dissuadir a passagem de migrantes que atravessem a fronteira com a Rússia. Uma das medidas passa por aumentar o policiamento de áreas remotas de florestas e lagos a leste do país. Os finlandeses acusam Moscovo de estar a canalizar migrantes através da fronteira comum para criar pressão sobre a Europa. A Rússia devolve a acusação, queixando-se de uma "provocação deliberada" ao serviço da NATO para justificar a implementação de áreas militares.

É na Finlândia que está a fronteira mais longa da União Europeia com a Rússia. Estende-se por 1.340 quilómetros. E por aqui estão a chegar vagas de migrantes, vindos da Síria ou Egito e de muitas outras regiões de África e Médio Oriente.

Para dissuadir - e se possível travar - o fluxo de pessoas, as autoridades finlandesas estão a reforçar as equipas de vigilância ao longo da áreas fronteiriças. Mais patrulhas, drones, detetores eletrónicos, construção de vedações são algumas das medidas decididas por Helsínquia.

“A Finlândia não pode simplesmente permitir a abertura de uma nova rota (de migrantes) para a Europa”, alegou à Reuters a ministra finlandesa do Interior, Mari Rantanen, do Partido Nacionalista Finlandês.

Até ao verão, o Parlamento finlandês pretende aprovar uma nova legislação que, segundo os críticos, violará os compromissos do país em matéria de Direitos Humanos.

A nova legislação finlandesa prevê que a guarda fronteiriça recorra a milhares de reservistas para ajudarem a patrulhar a fronteira ou detetarem os sinais telefónicos dos migrantes.

Entre as medidas está também a possibilidade de enviar os migrantes para centros de detenção e sem ter de aceitar pedidos de asilo. Desta forma, a Finlândia pode empurrá-los de volta para a Rússia.

No final de 2023, a Finlândia fechou indefinidamente todos os pontos de passagem para viajantes ao longo da fronteira com a Rússia, após de cerca de 1.300 migrantes vindos da Síria e Somália terem chegado por essa rota.


Migrantes que chegaram via Rússia à passagem de fronteira de Salla, na Finlândia, a 20 de novembro de 2023 | Guarda de Fronteira Finlandesa via Reuters

Com a adesão da Finlândia à NATO, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de fevereiro de 2022, as relações com Moscovo deterioraram-se acentuadamente.

Helsínquia acusa agora o país vizinho de canalizar migrantes em direção à Europa via a fronteira comum

“No geral, não se trata de uma rota de migrantes: trata-se de uma situação em que as autoridades de outro país estão a ajudar ou mesmo a pressionar e a empurrar os migrantes para a fronteira da Finlândia”, alega Rantanen.
“Provocação deliberada”, denuncia a Rússia
Helsínquia interpreta este fluxo a norte da Europa como uma estratégia travada pela Rússia contra o Ocidente. Os finlandeses chamam-lhe uma " guerra híbrida” para destabilizar “a paz e a tranquilidade de lugares como Hoilola”.

Moscovo já negou tal ideia e devolve as acusações, sugerindo que a própria Finlândia terá fabricado a situação fronteiriça ao convidar os migrantes. Poderá fazer parte de um plano para legitimar a construção de áreas militares ao serviço da NATO, diz a Rússia.

"Acreditamos que a provocação deliberada de uma crise migratória na fronteira estatal russo-finlandesa é necessária para que as autoridades finlandesas implementem os planos da NATO e, acima de tudo, dos Estados Unidos, para implantar infraestruturas militares de campo e enviar tropas estrangeiras para o território, inclusive em áreas que fazem fronteira com a Rússia", argumentou o chefe do serviço de fronteira do Serviço Federal de Segurança Russo (FSB), Vladimir Kulishov, à agência de notícias estatal RIA em 28 de maio, citado na Reuters.

Rantanen apelidou essa acusação de “absurda”, rejeitando-a.
Caso de Mohammed e Mahmoud
Os dois amigos sírios Mohammed, com 25 anos, e Mahmoud, de 27, chegaram à Finlândia e atravessaram em Salla em novembro passado, enfrentando a neve e temperaturas de 20 graus negativos.

Mohammed relata que fugiu primeiro para o Egito para evitar o recrutamento militar sírio e depois pagou 2.500 dólares (2.330 euros) por um visto de estudante para a Rússia. "Entrei legalmente no posto de controlo russo e eles colocaram-me um carimbo de saída. Na Finlândia, mostrei-lhes o carimbo de saída e imediatamente deixaram-me entrar", disse à Reuters, acrescentando que pediu asilo do lado finlandês.

O percurso de fuga foi sempre marcado por intermediários e o desembolso de dinheiro. Primeiro pagaram cinco mil dólares (4.700 euros), cada um, a um contrabandista sírio para chegar à Alemanha através da Bielorrússia, mas foram espancados e depois repelidos pelos guardas de fronteira polacos e lituanos.

Os dois homens ouviram entretanto notícias de que a fronteira finlandesa com a Rússia tinha sido aberta. “Também estava no Telegram e já havia contrabandistas a divulgar os seus serviços para enviar pessoas para a Finlândia”, lembrou Mahmoud.

Mahmoud acrescentou que as autoridades fronteiriças russas controlaram a sua saída para a Finlândia, permitindo apenas a passagem de um número limitado de migrantes de cada vez. "Se a Rússia quiser afogar a Finlândia com refugiados, ela pode. Pode enviar dezenas de milhares de refugiados", rematou.

O vice-comandante da Guarda fronteiriça finlandesa, Samuli Murtonen, sublinha que os procedimentos russos mudaram. Anteriormente, “os guardas de fronteira russos não deixavam ninguém atravessar sem um visto válido para a União Europeia”, mas agora qualquer pessoa que permaneça legalmente na Rússia pode deixar o país.

Entretanto, o Ministério do Interior reconheceu que os pontos da legislação temporária para empurrar os migrantes de volta para a Rússia violam os compromissos internacionais da Finlândia em matéria de Direitos Humanos.

Na segunda-feira, a Amnistia Internacional alertou que as medidas finlandesas para barrar o acesso ao asilo “correm o risco de servir como luz verde para a violência e a resistência na fronteira”.

Os dois amigos sírios ainda aguardam uma decisão das autoridades finlandesas sobre os seus pedidos de asilo.
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