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Iémen. Governo e separatistas continuam batalha por Aden
O Governo do Iémen, liderado por Abd Rabbuh Mansur Hadi, acusou esta quinta-feira os Emirados Árabes Unidos de lançarem ataques que mataram “dezenas” de militares e mesmo civis na zona sul do país. As informações de novos combates surgem um dia depois de as tropas governamentais terem anunciado que conseguiram recuperar o controlo de Aden aos separatistas. Entretanto, o Presidente Hadi anunciou que, na sequência dos bombardeamentos, as tropas governamentais vão retirar-se de Aden para "evitar a destruição da cidade".
O Governo iemenita acusou esta quinta-feira os Emirados Árabes Unidos de levarem a cabo vários ataques aéreos que vitimaram dezenas de civis e militares da cidade portuária de Aden.
De acordo com Mohamed al-Oban, comandante iemenita da província vizinha de Abyane, as tropas governamentais estavam a caminho da capital provisória, Aden, esta quinta-feira, quando ocorreram os ataques.
O responsável não atribuiu estes ataques a nenhuma força, mas o Governo do Iémen já veio considerar que foram as forças separatistas, apoiadas pelos emiradenses, que estiveram na origem deste ataque. O Conselho de Transição do Sul (STC) é um movimento separatista que
pretende a recuperação da independência territorial e económica. De
recordar que o Iémen do Sul foi independente até 1990, ano em que
ocorreu a reunificação com o norte.
“Responsabilizamos os Emirados Árabes Unidos por este ataque extrajudicial explícito”, acrescenta ainda o responsável, num tweet citado pelas agências internacionais.
Não houve até ao momento qualquer reação por parte de Abu Dhabi a estas acusações.
Forças governamentais retiram-se
Ao final da noite de quinta-feira, o Presidente iemenita também atribuiu o ataque aos Emirados Árabes Unidos e assinalou que o Governo reconhecido internacionalmente está a enfrentar "uma rebelião armada" levada a cabo por milícias Conselho de Transição do Sul, que estão a "visar a legitimidade constitucional do Iémen".
Exilado na Arábia Saudita, Abd Rabbuh Mansur Hadi acusa os separatistas de usarem o arsenal militar dos Emirados Árabes Unidos "para dividirem o país" e apela a Riade para que intervenha no sentido de "para esta instrusão flagrante e os bombardeamentos aéreos" das forças governamentais.
Na sequência dos últimos desenvolvimentos, o Presidente do Governo iemenita anunciou que as forças governamentais se retiraram provisoriamente de Aden de forma a evitar que a cidade seja destruída, de acordo com a agência estatal de notícias SABA, citada pela agência Reuters.
A guerra no Iémen assume por estes dias contornos cada vez mais imprevisíveis com a oposição entre aqueles que tinham sido antigos aliados na luta contra os Houthis.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos integravam a coligação que combate desde o início da guerra, em março de 2015, o grupo xiita no norte do país.
No entanto, Abu Dhabi está ao lado dos separatistas do sul (Conselho de Transição do Sul) e Riade apoia o Governo de Abd Rabbuh Mansur Hadi - líder do Governo, exilado na Arábia Saudita - e a divisão interna tem-se acentuado cada vez mais, ainda que as duas partes a tentem desvalorizar.
Em julho último, os Emirados Árabes Unidos anunciaram que se retirariam do porto de Hodeida, assegurando que o faziam em plena coordenação com a Arábia Saudita no seguimento dos termos definidos por um acordo de paz das Nações Unidas, assinado em dezembro do ano passado em Estocolmo.
No entanto, esta decisão surgiu no contexto de elevadas tensões junto ao Golfo Pérsico, numa altura em que o Irão abordou vários petroleiros no Estreito de Ormuz (entre o Irão, Omã e os Emirados Árabes Unidos).
Ao retirarem-se de Hodeida, os Emirados Árabes Unidos terão procurado sinalizar perante Teerão um afastamento do país na luta contra os Houthis ao lado da Arábia Saudita, de forma a procurar uma solução diplomática e evitar um eventual confronto militar junto ao Estreito de Ormuz.
A violência recente no sul do Iémen conheceu um recrudescimento precisamente na sequência de uma rara visita de uma delegação dos Emirados a Teerão, no final de julho. Essa visita foi seguida de uma investida contra o Conselho de Transição do Sul, que por sua vez atribuiu o ataque ao Governo de Hadi e respondeu com violência em Aden.
Este conflito latente entre os aliados de ontem no combate aos Houthis – por sua vez, apoiados pelo Irão - gera agora uma nova frente de batalha naquela que é considerada pelas Nações Unidas como a pior crise humanitária do mundo, tendo provocado dezenas de milhares de mortos nos últimos quatro anos.
Quem controla Aden?
A 10 de agosto, milícias separatistas do Iémen apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) tomaram a cidade de Aden, ponto estratégico de enorme importância e capital provisória no sul do país desde que os xiitas Houthis passaram a controlar a cidade de Sanaa, em setembro de 2014.
A cidade tinha estado sob controlo das tropas governamentais de forma intermitente desde então, isto porque, ao longo dos últimos anos de guerra, forças aliadas ao Governo de Hadi e separatistas do sul já tinham entrado em confronto pelo controlo de Aden.
Mas a atual crise entre parceiros de coligação na luta contra os Houthis parece ter assumido proporções mais graves desde o início de agosto.
Na última quarta-feira, as forças governamentais recuperaram o controlo de Aden e expulsaram os separatistas da cidade, mas o Conselho de Transição do Sul confirmou já hoje que algumas das tropas separatistas posicionadas perto de Hodeidah, cidade controlada pelos Houthis, voltaram para Aden para combater as forças leais ao Presidente Hadi.
A guerra civil dura no Iémen há mais de quatro anos e opõe o Governo reconhecido internacionalmente, com o apoio de vários países, incluindo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, e os Houthis, xiitas apoiados por Teerão.
“A todos aqueles que dizem que o CTS se foi embora, eu digo: Estamos aqui”, disse o vice-presidente do movimento, Hani Bem Brik, através das redes sociais.
A situação é incerta na capital improvisada do Iémen. Um porta-voz do CTS garantia esta quinta-feira à agência France-Presse que as forças separatistas voltaram e “tomaram o controlo completo da cidade de Aden” às forças governamentais.
Um responsável governamental ouvido pela mesma agência confirmava que as tropas de Hadi que entraram na cidade de Aden na quarta-feira foram obrigadas a sair esta quinta-feira, um dia após terem recuperado a cidade, tal como viria a ser confirmado pelo Presidente do Governo, horas mais tarde.
“Está um caos total. Houve combates na cidade durante todo o dia. As coisas parecem ter acalmado um pouco durante a manhã, mas é expectável que as hostilidades recomecem a qualquer altura”, disse em comunicado Caroline Seguin, responsável pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Só os MSF contabilizaram esta quinta-feira 51 vítimas mortais na sequência dos combates.
Já esta tarde, os países que integram o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotaram de forma unânime uma declaração em que se assumem “particularmente preocupados” com a situação no sul do Iémen, pedindo às partes envolvidas para que “preservem a integridade territorial do país”.
O Conselho de Segurança apela ao regresso das negociações e declara apoio “a um acordo político negociado em que todas as partes possam participar num diálogo inclusivo que permita resolver as disputas e responder às preocupações legítimas de todos os iemenitas, incluindo os do sul”.
De acordo com Saeed Thabit, especialista em política do Iémen, em declarações à Al Jazeera, a luta vigente entre separatistas e forças governamentais está longe de terminar.
“Nenhuma das partes teve até ao momento uma vitória decisiva sobre a outra. A batalha por Aden está a ser complicada e as linhas de combate mudam de hora em hora”, sublinha.