Porque é que a Gronelândia está no centro das ambições de Donald Trump?

Da segurança nacional ao legado histórico, passando por minerais estratégicos e pelo futuro da NATO, a maior ilha do mundo tornou-se uma peça-chave no xadrez geopolítico do século XXI.

RTP /
AFP

A Gronelândia deixou de ser uma excentricidade retórica do presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Aquilo que, no seu primeiro mandato, foi tratado como uma bravata presidencial passou agora a ser encarado com alarme real nas capitais europeias.

Trump já não descarta “uma gama de opções”, incluindo o uso da força militar, para garantir controlo sobre o território autónomo dinamarquês. A pergunta deixou de ser se a Gronelândia é importante para Trump- e passou a ser porquê.Joia estratégica no coração do Atlântico
No topo das prioridades está a geoestratégia. A Gronelândia ocupa uma posição central no Atlântico Norte, funcionando como ponte natural entre a América do Norte e a Europa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, deu nome à Greenland Air Gap, zona fora do alcance aéreo aliado onde submarinos nazis devastaram comboios marítimos. O raciocínio mantém-se: “em qualquer nova guerra de grande escala, quem controlar a Gronelândia dominará rotas marítimas vitais do Atlântico”.

Desde a década de 1950, o território dispõe de uma instalação crucial para o sistema de deteção de mísseis de alerta precoce dos Estados Unidos (EUA). Com o degelo acelerado do Ártico a abrir novas rotas marítimas no “teto do mundo”, a sua importância só tende a crescer. Trump sabe-o, tal como Pequim e Moscovo.

A justificação pública do presidente é clara: a segurança nacional. Mas é também aí que o seu argumento começa a falhar. A Gronelândia pertence a um Estado-membro da NATO e é um território semiautónomo aliado. Nada impede Washington de reforçar a sua presença militar, instalar novas bases ou aumentar contingentes. Pelo contrário, existe um tratado com Copenhaga que concede aos EUA liberdade operacional, de portos a pistas de aterragem.

Como ironizam críticos europeus, Donald Trump quer a soberania quando já tem acesso quase total ao território. Daí a questão que permanece: se não é pela segurança imediata, então porquê ir mais longe?

A resposta passa também pela economia estratégica. A Gronelândia é rica em campos offshore de petróleo e gás ainda inexplorados e, à medida que o gelo derrete, os seus depósitos de minerais raros tornam-se mais acessíveis. Estes recursos são essenciais para tecnologias avançadas e armamento de última geração.

“Imperialista prático”
O contexto político é decisivo. Após a queda de Maduro do regime venezuelano e de assumir controlo sob receitas do petróleo, Trump surge agora, aos olhos de aliados e adversários, como um “imperialista prático”. O seu principal assessor, Stephen Miller, referiu que “os EUA já não seguem as “leis de ferro” de um mundo regido pela força e pelo poder- eles próprios são essa força.

A Gronelândia encaixa nesse novo mapa mental de um hemisfério ocidental sob domínio de Trump. Não por acaso que, esta segunda-feira, Miller afirmou “ninguém vai lutar contra os Estados Unidos pelo futuro da Gronelândia”.

Há ainda um fator menos tangível, mas poderoso: o legado. Trump parece tem demonstrado querer deixar a sua marca histórica. Sonha com obras monumentais, com o seu nome gravado na história ao lado de presidentes expansionistas como Thomas Jefferson, que comprou a Louisiana, ou William McKinley, que anexou o Havai.Alterar o nome da maior ilha do mundo como território americano- a hipotética “Trumplândia” - seria o culminar dessa ambição. Katie Miller, esposa do assessor de trump, Stephen Miller, partilhou nas suas redes sociais um mapa da Gronelândia com as cores da bandeira norte-americana, acompanhada da palavra “ Soon” (“brevemente”).

Choque frontal com a Europa
Caso os EUA tomassem a Gronelândia, haveria consequências. Líderes europeus, como da França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Polónia e Espanha concordam que a segurança do Ártico é uma prioridade. "Não consigo imaginar um cenário em que os Estados Unidos da América fossem colocados numa posição de violar a soberania dinamarquesa", afirmou o presidente francês Emmanuel Macron, acrescentando que "a Gronelândia é um território sob soberania dinamarquesa e assim permanecerá".

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, insistiu que a ilha não está à venda e que apenas os groenlandeses devem decidir o seu futuro. A primeira-ministra dinamarquesa avisou que qualquer tentativa de anexação pela força significaria “o fim imediato da NATO”.

Com uma população a rondar os 57 mil habitantes, a Gronelândia dispõe de um amplo nível de autonomia desde 1979, ainda que as áreas da defesa e da política externa permaneçam sob tutela da Dinamarca.

Num contexto de crescente competição entre grandes potências, a Gronelândia passou a ocupar um lugar central nos cálculos estratégicos globais. 

A combinação entre posição geográfica, presença militar norte-americana, recursos naturais e alterações climáticas transformou a ilha num ativo geopolítico de primeira ordem. Tornou-se um símbolo do regresso da política de poder, do enfraquecimento das alianças e de um presidente que parece ver o mapa-mundo como um tabuleiro de negociação ou de conquista.
França está a trabalhar com aliados
De acordo com agência Reuters esta quarta-feira, a França já está a trabalhar com aliados "num plano sobre como responder caso os Estados Unidos concretizem a sua ameaça de tomar o controlo da Gronelândia” . O assunto será debatido com os ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e da Polónia, no final desta quarta-feira.

“Queremos agir, mas queremos fazê-lo em conjunto com os nossos parceiros europeus”, disse o ministro francês, Jean-Noel Barrot, à rádio France Inter.

A tomada de posse da Gronelândia pelos EUA causaria um choque na aliança da NATO e aprofundaria a divisão entre Trump e os líderes europeus.


c/ agências 
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