Mundo
Guerra no Médio Oriente
Protestos no Irão. Regime está a conseguir bloquear rede Starlink
Teerão está a usar interferências militares para bloquear o Starlink, apertando o controlo sobre o acesso à Internet durante os protestos que agitam o país. Este sucesso isola mais efetivamente a população do resto do mundo e a oposição interna.
A neutralização da rede Starlink é algo sem precedentes, reagiu Amir
Rashidi, do Grupo Miaan, que monitoriza a liberdade na internet no
Irão.
Relatos iniciais indicavam domingo uma queda de 30 por cento na
conectividade, mas, em poucas horas, este número terá subido para mais de 80
por cento.
"Em mais de 20 anos de investigação,
nunca vi nada assim", afirmou.
"Esta é a primeira vez que vemos isto com uma intensidade tão grande na Starlink. É algo sem precedentes no mundo do bloqueio de sinal", disse igualmente, à agência France Press, Kave Salamantian, professor da Universidade de Savoie e especialista em geopolítica do ciberespaço e coautor de um estudo sobre a internet iraniana.
O rastreio de dados corrobora estas afirmações. A análise dos pacotes de rede mostra uma queda acentuada no
tráfego da Starlink, confirmando os relatos de campo sobre interrupções
generalizadas no serviço de satélite.
Esta é uma escalada dramática dos esforços do regime para reprimir a agitação civil e impedir que os protestos sejam transmitidos tanto para o exterior como entre a população civil.
O vazio de informação aprofunda a ansiedade entre os iranianos, que se recordam da repressão mortal que se seguiu a bloqueios semelhantes da internet durante protestos em todo o país, em novembro de 2019 e em 2022.
O vazio de informação aprofunda a ansiedade entre os iranianos, que se recordam da repressão mortal que se seguiu a bloqueios semelhantes da internet durante protestos em todo o país, em novembro de 2019 e em 2022.
Para tentar controlar os protestos, o regime clerical iraniano terá cruzado uma nova linha vermelha nos últimos dias, indo além dos bloqueios convencionais da internet impostos dia oito de janeiro e que permanecem.
Numa tentativa de contornar a rede Starlink, estará a utilizar pela primeira vez, equipamento de interferência de nível militar para interromper o acesso ao serviço de internet por satélite de Elon Musk, denunciam analistas.
Alternativa ao controlo de Teerão
O sucesso da rede Starlink no Irão é explicado porque esta tem sido
a alternativa encontrada por muita da população civil para contornar o
controlo da rede de internet por parte do regime desde o final da década
de 2000.
Nessa altura, o governo islamita realizou "uma revisão fundamental que durou
aproximadamente 10 a 12 anos, com uma reestruturação completa da rede de
internet iraniana que, essencialmente, lhes permitiu colocar o génio de
volta na garrafa", explicou Salamantian à AFP.
Muito fácil de
implementar, esse controlo opera na "camada de encaminhamento lógico.
São capazes de um controlo muito preciso, podendo decidir se um
determinado lado de uma determinada rua tem acesso à internet ou não", explicou.A rede Starlink fornece internet através de satélites em órbita baixa da Terra e é, há muito, considerada uma tábua de salvação digital para ativistas e civis em Estados autoritários como o Irão ou em zonas de guerra como a Ucrânia, onde regimes ou conflitos podem desligar as redes nacionais de internet com o simples premir de um botão.
Segundo o IranWire, a interrupção agora imposta está a afetar a maioria de dezenas de milhares de terminais Starlink, que terão sido contrabandeados para o Irão, numa quantidade que, de acordo com as estimativas, ultrapassa em muito o inicialmente calculado.
Teerão nunca autorizou o serviço, o que torna ilegal a posse e a utilização dos terminais Starlink, de acordo com a lei iraniana.
Riscos para o regime
A Starlink contorna o controlo de acessos imposto por Teerão, através a sua constelação de satélites
em órbita terrestre baixa (LEO), a qual permite aceder à internet através de uma ligação de dados entre estes satélites [que orbitam a
uma altitude de aproximadamente 550 quilómetros], e os utilizadores em
terra.
Os terminais Starlink dependem contudo dos sinais GPS para se localizarem e ligarem aos satélites e o regime tem interferido ativamente nestes sinais em todo o território desde a guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025.
Este bloqueio já estava a permitir ao regime bloquear o acesso em áreas específicas do país, onde suspeitava que estavam a ser organizados protestos ou ações da oposição.
O resultado tem sido um mapa de conetividade fragmentado, uma manta de retalhos de zonas onde o Starlink ainda funciona, ao lado de áreas, incluindo locais de importância simbólica, onde o serviço foi praticamente eliminado.
O resultado tem sido um mapa de conetividade fragmentado, uma manta de retalhos de zonas onde o Starlink ainda funciona, ao lado de áreas, incluindo locais de importância simbólica, onde o serviço foi praticamente eliminado.
O bloqueio, contudo, acarreta também elevados custos económicos, o que atinge igualmente o regime, pondo em causa a sua sustentabilidade.
Simon Migliano, especialista internacional em bloqueios de internet e censura digital, disse ao TechRadar que a medida reflete um regime sob imensa pressão.
"Este é um claro sinal de angústia — o governo está disposto a pagar um elevado preço económico para abafar a dissidência", afirmou.
Simon Migliano, especialista internacional em bloqueios de internet e censura digital, disse ao TechRadar que a medida reflete um regime sob imensa pressão.
"Este é um claro sinal de angústia — o governo está disposto a pagar um elevado preço económico para abafar a dissidência", afirmou.