Solução na Palestina "é a única garantia" para evitar nova explosão no Médio Oriente, diz Abbas
O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, acusou hoje a comunidade internacional de ser incapaz de parar uma "guerra genocida" e avisou que a solução da Palestina "é a única garantia" de evitar uma nova explosão no Médio Oriente.
Em entrevista por escrito à agência Lusa a partir de Ramallah, na Cisjordânia, Mahmoud Abbas criticou a comunidade internacional, que considera ser "incapaz de implementar qualquer uma das resoluções de legitimidade internacional, do direito internacional relacionado com a causa palestiniana" e de "parar a guerra genocida" em curso na Palestina e também "uma das mais feias que alguma vez a história testemunhou".
Para o líder da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), "é necessária uma vontade séria e real por parte da comunidade internacional e das suas instituições, especialmente as Nações Unidas, para forçar as autoridades de ocupação israelitas" na implementação da resolução n.º 2735 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 10 de junho, sobre um cessar-fogo no conflito que se prolonga há mais de um ano na Faixa de Gaza.
Do mesmo modo, Abbas apelou para a aplicação do parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça sobre o fim da ocupação israelita no prazo de 12 meses, bem como "a punição de Israel pelos seus crimes que violam o direito internacional" nos territórios palestinianos.
"Isso caso a comunidade internacional queira provar que lida com as crises internacionais de acordo com o direito internacional, com o quanto os Estados são comprometidos a respeitá-lo e que não existe um Estado acima da lei", comentou.
Questionado sobre o foco internacional na guerra no Líbano, onde foi alcançado um cessar-fogo entre Israel e o movimento xiita libanês, por oposição ao conflito na Faixa de Gaza, que permanece sem acordo entre as autoridades israelitas e o grupo islamita Hamas, o histórico dirigente palestiniano saudou a trégua no "país irmão" e expressou "total apoio" à sua segurança e estabilidade para garantir a reconstrução do que foi destruído.
Ao mesmo tempo, alertou para "a necessidade de este passo contribuir para pôr fim à violência e à instabilidade que a região sofre como resultado das políticas israelitas que estão a conduzir a região a uma explosão".
Nesse sentido, sustentou que a "solução ideal" para o Médio Oriente reside na aceleração da aplicação daquela resolução do Conselho de Segurança, na entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, onde as autoridades locais controladas pelo Hamas indicam mais de 44 mil mortos em resultado do conflito e um território devastado pelos bombardeamentos israelitas, e a retirada das Forças de Defesa de Israel (IDF) do enclave, "permitindo ao Estado da Palestina assumir todas as suas responsabilidades".
Segundo o presidente da ANP, "o mundo passou a saber que a chave para a estabilidade na região e para alcançar a paz é resolver a questão palestiniana de acordo com as resoluções internacionais" e também "a única garantia para a região não voltar a explodir novamente".
O Médio Oriente atravessa uma espiral de violência, iniciada com o ataque do Hamas em solo israelita, em 07 de outubro de 2023, onde foram mortas cerca de 1.200 pessoas e levadas outras 250 como reféns, a que se seguiu uma retaliação em grande escala de Israel na Faixa de Gaza, num conflito que se alastrou entretanto à Cisjordânia, ao vizinho Líbano e atraiu o envolvimento de outros atores regionais, como o Irão.
Mahmoud Abbas lamentou que os acontecimentos recentes sejam resultado de "uma guerra abrangente contra o povo palestiniano, na qual mais de 150.000 palestinianos foram mortos até agora, a maioria deles crianças, mulheres e idosos".
Por outro lado, além da ofensiva na Faixa de Gaza desde outubro do ano passado, destacou "os contínuos ataques na Cisjordânia perpetrados pelas forças de ocupação e pelos terroristas", e apontou mais de 700 palestinianos mortos e acima de sete mil presos no território ocupado, o que levou o Médio Oriente "à beira da explosão total, desencadeando guerras que todos sofrem, não só na região, mas em todo o mundo".
No que descreveu como "fealdade das políticas israelitas em curso para minar a solução de dois Estados", Mahmoud Abbas elencou igualmente "a continuação do roubo das terras palestinianas na Cisjordânia", ataques a locais sagrados islâmicos e cristãos, "planos sistemáticos para separar a cidade de Jerusalém da Cisjordânia" e ainda o isolamento da Faixa de Gaza.
"A arrogância israelita provou ao mundo inteiro que as soluções militares e de segurança não trarão segurança a ninguém e que o único caminho para alcançar a paz e a estabilidade encontra-se na incorporação e no estabelecimento do Estado Palestiniano independente, com Jerusalém Oriental como capital, e de acordo com as fronteiras de 1967", insistiu.
Para atingir este objetivo, o dirigente de 89 anos da Fatah, organização política criada por Yasser Arafat, seu antecessor na ANP, salientou que atualmente "existem muitos reconhecimentos internacionais do Estado da Palestina, especialmente entre os países europeus" e saudou a criação da Aliança Global para a implementação da solução de dois Estados, anunciada em setembro pela Arábia Saudita com o envolvimento de países árabes e da União Europeia, e que já efetuou dois encontros internacionais.
"Assim estamos mais perto de encarnar a independência do nosso Estado Palestiniano, a ocupação desaparecerá, por mais que tente desafiar a vontade da comunidade internacional e as decisões de legitimidade internacional", declarou ainda Mahmoud Abbas.