Tropas turcas avançam contra curdos na Síria

por Joana Raposo Santos - RTP
Pelo menos 15 pessoas, incluindo oito civis, foram mortas no decorrer do ataque Rodi Said - Reuters

A Turquia deu na quarta-feira início a uma ofensiva militar a nordeste da Síria, recorrendo a ataques aéreos e a armas de fogo para afastar as forças curdas junto à fronteira e provocando pelo menos 15 mortos. O ataque acontece dias depois de Donald Trump ter anunciado a retirada dos militares norte-americanos dessa área e desvalorizado a relação entre os Estados Unidos e os curdos.

“O nosso objetivo é destruir o corredor de terror que tem estado a ser estabelecido na nossa fronteira a sul e trazer paz à região”, garantiu o Presidente turco, Recep Erdogan, ao anunciar no Twitter o início da ofensiva.As autoridades curdas no nordeste da Síria acusam a Turquia de ter bombardeado uma prisão onde se encontram combatentes do Estado Islâmico de mais de 60 nacionalidades, descrevendo o ataque como "uma clara tentativa" para os ajudar a escapar.


“A Operação Primavera de Paz irá neutralizar as ameaças terroristas contra a Turquia e levará ao estabelecimento de uma zona segura, facilitando assim o regresso dos refugiados sírios às suas casas. Vamos preservar a integridade territorial da Síria e libertar as comunidades locais dos terroristas”, argumentou.

O ministro turco da Defesa já confirmou que “as Forças Armadas da Turquia e o Exército Nacional da Síria lançaram a operação terrestre a leste do rio Eufrates”.

De acordo com as forças turcas, foram atingidos 181 “alvos militantes”.

De acordo com ativistas que acompanharam a situação, pelo menos 15 pessoas, incluindo oito civis, foram mortas no decorrer do ataque, que fez levantar colunas de fumo em várias cidades e levou à fuga de centenas de famílias.

“Iremos avançar contra os turcos para evitar que passem a fronteira”, explicou no Twitter Mustafa Bali, porta-voz da Unidade de Proteção do Povo Curdo, que a Turquia considera uma organização terrorista. “Utilizaremos todas as possibilidades contra a agressão turca”.
EUA "não apoiam este ataque"
A ofensiva teve início apenas alguns dias depois de Donald Trump ter anunciado que iria retirar do nordeste da Síria as forças militares norte-americanas que, até agora, têm apoiado as forças curdas no combate ao autoproclamado Estado Islâmico.

De acordo com Recep Erdogan, a decisão foi-lhe comunicada no domingo por Trump através de uma chamada telefónica, durante a qual o Presidente dos EUA delegou à Turquia a liderança da luta contra o Daesh junto à fronteira síria.

A decisão leva a que os curdos, minoria étnica composta por milhões de pessoas e há muito discriminada pelos turcos, fiquem sujeitos ao plano da Turquia de os retirar da fronteira.

“A Turquia irá avançar brevemente com a operação há muito planeada para o nordeste sírio”, afirmou a Casa Branca em comunicado. “As Forças Armadas dos Estados Unidos não vão apoiar nem estar envolvidas nesta operação e vão deixar de estar presentes nessa área, uma vez que já foi derrotado o califado do autoproclamado Estado Islâmico no local”.

Donald Trump frisou que “os Estados Unidos não apoiam este ataque e deixaram claro à Turquia que esta operação seria uma má ideia”. “Desde o primeiro dia em que entrei na arena política, deixei claro que não quero lutar nestas guerras intermináveis e sem sentido – especialmente aquelas que em nada beneficiam os Estados Unidos”, acrescentou.
"Não nos ajudaram na II Guerra Mundial"
O secretário de Estado Mike Pompeo já saiu em defesa do Presidente norte-americano, explicando que o telefonema entre Trump e o homólogo turco “deixou muito claro que os soldados americanos ficariam em risco, razão pela qual o Presidente tomou a decisão de os deslocar”.

Entretanto, Donald Trump desvalorizou a aliança com os curdos. “Eles não nos ajudaram na II Guerra Mundial e não nos ajudaram na Normandia, por exemplo”, frisou o Presidente. A declaração, assim como a decisão de retirar as forças norte-americanas da fronteira, tem sido alvo de críticas de democratas e republicanos.

“É um momento doentio e vergonhoso na história dos Estados Unidos e culpo o Presidente por isso”, declarou o democrata Brad Bowman, referindo-se ao laço agora quebrado entre os EUA e as Forças Democráticas da Síria, lideradas pela Unidade de Proteção do Povo Curdo.

As Forças Democráticas têm desempenhado um papel central no combate ao Daesh, durante o qual 11 mil curdos já perderam a vida. Com a perda do apoio norte-americano, o risco de a região junto à fronteira voltar a ser alvo de ataques terroristas aumenta drasticamente.

Mike Pompeo afirmou na quarta-feira que Donald Trump “está consciente de que o autoproclamado Estado Islâmico pode voltar a surgir na região”, admitindo que “esse desafio permanece”.

No entanto, “o Presidente acredita firmemente que agora é altura de reorganizar prioridades e de proteger a América em primeiro lugar”, explicou o secretário de Estado.

Na última noite, Trump avançou no Twitter que os “EUA capturaram dois militantes do autoproclamado Estado Islâmico conhecidos como Beatles e que estão associados a decapitações na Síria”.


De acordo com o Presidente, os Estados Unidos levaram os dois homens “para fora do país, para uma localização segura controlada pelos EUA”. “Eles são os piores dos piores!”, exclamou.
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