Ucrânia. Putin e Biden falam sobre concentração de tropas na fronteira

por RTP
O presidente ucraniano condecorou vários militares durante uma vista à linha da frente, na região de Donetsk Reuters

O exército ucraniano tem capacidade para contrariar "qualquer plano invasor do inimigo", avisa o presidente da Ucrânia, referindo-se à concentração de milhares de militares russos na fronteira. Perante o agravamento da tensão na região, os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos agendaram uma videoconferência para esta terça-feira para falarem sobre a Ucrânia. Antes disso, Joe Biden vai consultar os aliados sobre potenciais sanções económicas à Rússia.

O presidente norte-americano deverá telefonar para Londres, Paris, Berlim e Roma, para preparar e concertar a mensagem que esta terça-feira transmitirá a Vladimir Putin. A concentração de tropas russas junto à fronteira com a Ucrânia e possíveis sanções económicas contra Moscovo em caso de invasão do território ucraniano serão os principais temas de conversa.

Os serviços de informações dos Estados Unidos indicam que a Rússia tem concentradas 70 mil tropas perto da fronteira com a Ucrânia e que começou a planear uma possível invasão para o início de 2022, referiu um membro da administração Biden citado pela agência Associated Press.

Na conversa desta terça-feira, Joe Biden pretenderá deixar claro que, caso a Rússia proceda a uma ação militar, "o custo será muito elevado", na senda do que já afirmou o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.

A resposta de Washington poderia passar por sanções económicas, por mais apoio material às Forças Armadas ucranianas e ainda pelo reforço da capacidade militar dos aliados da NATO na região.

Biden também tem previsto um contacto com o Presidente ucraniano Volodymyr Zelenski alguns dias após a sua conversa com Putin. Esta segunda-feira, o secretário de Estado Antony Blinken e o presidente da Ucrânia Vladimir Zelensky concordaram dar continuidade à “ação conjunta e concertada”, anunciou na rede social Twitter.

Na semana passada, o Kremlin referiu que Putin vai procurar garantias de Biden de que a Ucrânia nunca seja incluída nos planos de alargamento da NATO, mas Biden e os seus conselheiros já recusaram dar garantias desse compromisso.
 
Esta rejeição pode aumentar os riscos de uma invasão militar russa à vizinha Ucrânia.

Na conferência de imprensa diária, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, considerou que as relações Rússia-Estados Unidos estão "numa fase particularmente negativa", apesar de Moscovo estar disposta a escutar os argumentos de Washington.

"Penso que o Presidente Putin irá escutar essas propostas com muito interesse. E seremos capazes de analisar a forma como essas [propostas] serão capazes de desanuviar as tenções", disse Peskov, em declarações posteriores à televisão estatal russa.
Ucrânia promete oferecer resistência militar à Rússia
"Durante a sua história mais recente o exército ucraniano atravessou um difícil caminho até à formação de uma estrutura militar preparada, muito organizada, confiante nas suas próprias forças e capaz de abortar qualquer plano invasor do inimigo", referiu Volodymyr Zelenski, em comunicado, no dia do 30º aniversário da criação da Forças Armadas da Ucrânia.

O líder ucraniano também prestou homenagem aos soldados que têm defendido o país, onde desde 2014 decorre um conflito com milícias pró-russas na região de Donbas (leste). Neste conflito já morreram 14 mil pessoas.

"Estou seguro de que as Forças Armadas da Ucrânia prosseguirão defendendo de forma fiável a liberdade e independência do nosso Estado", afirmou.

O presidente ucraniano condecorou vários militares durante uma vista à linha da frente, na região de Donetsk, com parte do território controlado pelo seu exército.

A Ucrânia tem feito alertas sucessivos para a concentração de mais de 90 mil soldados russos junto à fronteira, com o objetivo de invadir o território durante o inverno.

O jornal The Washington Post refere que os serviços de informações dos Estados Unidos admitem que a Rússia poderia aumentar a sua presença militar na fronteira com o país vizinho até aos 175 mil soldados.

Por outro lado, Moscovo acusa Kiev de ter concentrado 125 mil soldados na região do Donbas, em plena linha da frente, o que corresponde a metade dos efetivos das Forças Armadas ucranianas.Que temas das relações russo-ucranianas vão estar na agenda de Biden e Putin?
Além da proposta russa de um pacto de segurança na NATO para evitar a adesão da Ucrânia e da Geórgia e da concentração de tropas russas e ucranianas junto à fronteira, os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia vão debater ainda as tensões no Mar Negro e as relações económicas entre Moscovo e Kiev.

Biden e Putin também devem abordar questões relacionadas com a cibersegurança ou o programa nuclear iraniano, entre outros assuntos.

Concentração de tropas

Os movimentos de tropas russas junto à fronteira ucraniana inquietam EUA e União Europeia há várias semanas.

Nas redes sociais russas, têm surgido imagens de dezenas de tanques nos campos, transportados por via-férrea, ou imagens áreas de contingentes militares.

Os primeiros alertas chegaram dos serviços de informação norte-americanos que, em outubro, notaram "movimentos irregulares de material e pessoal no flanco oeste da Rússia", o que poderia corresponder a uma "confirmação do reforço das tropas russas perto da fronteira ucraniana". Washington enviou de imediato a Moscovo o diretor da CIA, Bill Burns, para discutir estas atividades militares, desmentidas pelo Kremlin.

No início de novembro, a Ucrânia anunciou que não tinha registo de qualquer transferência de tropas ou equipamento russos e considerava esses movimentos "normais", após diversos exercícios de treino militar, como o Zapad 2021 entre a Rússia e a Bielorrússia, em setembro.

No entanto, em meados de novembro, Kiev mudou de discurso e referia novas informações dos seus aliados que apontavam para a "forte probabilidade de desestabilização da situação na Ucrânia neste inverno". Kiev admite agora que a Rússia deslocou até 114 mil militares a norte, leste e sul, incluindo 92 mil soldados das forças terrestres e o restante no ar e mar.

Por seu lado, a Rússia acusa a Ucrânia de concentrar tropas e material de guerra na linha da frente do leste, sugerindo que a concentração das suas tropas visa dissuadir a Ucrânia e países ocidentais.

Os objetivos de Moscovo

As intenções do Kremlin também já podem ser conhecidas dos americanos, nota Kiev.

Diversos analistas admitiram que a demonstração de força de Moscovo não se destina apenas à Ucrânia, mas sobretudo "à comunidade euro-atlântica e particularmente aos Estados Unidos". Isto por causa do cada vez maior número de forças da NATO próximo das fronteiras russas “que transmitem para o Kremlin uma sensação de "cerco" e também ao envio de sofisticado material militar para Kiev.

Em outubro, os ucranianos enviaram um drone de combate turco Bayraktar contra os insurgentes pró-russos perto de Donetsk, o que enfureceu Moscovo. O ataque motivou um contacto telefónico e um protesto por Putin dirigido ao seu homólogo turco Recep Tayyip Erdogan.

Antes deste ataque, as autoridades ucranianas tinham já declarado a intenção de montar uma fábrica para produzir estes drones em cooperação com o seu fabricante, incluindo um centro comum de manutenção e formação para estes aparelhos, que foram uma ferramenta estratégica na vitória do Azerbaijão no Nagorno-Karabakh em 2020.

No entanto, os russos possuem meios de resposta, com sistemas de interferência muito eficazes, e a instalação de sistemas de defesa antiaérea.

Tensões no Mar Negro

Europeus e norte-americanos ajudam a Ucrânia a recuperar a sua frota de guerra e efetuam patrulhas no Mar Negro há vários meses. Num contacto com o Presidente francês Emmanuel Macron, Putin classificou estes exercícios militares de Washington e da NATO de "provocações". O local não fica longe da estratégica península da Crimeia, anexada por Moscovo na primavera de 2014.

A Rússia também continua a proteger os dois territórios separatistas do Donbas (leste), Donetsk e Lugansk, que os pró-russos controlam desde a guerra que teve início logo após a anexação da Crimeia. A guerra foi concluída com um frágil acordo de paz (Protocolo de Minsk), assinado por representantes da Rússia, Ucrânia e das autoproclamadas Repúblicas de Donetsk e Lugansk, sob mediação internacional e que incluiu um cessar-fogo.
 
O estado nas negociações

A nível diplomático, as negociações estão bloqueadas. Neste aspeto, Moscovo tem insistido na importância do pleno respeito de todos os acordos, incluindo os alcançados no designado formato da Normandia (Ucrânia, Rússia, França e Alemanha), e acusado o ocidente de "exacerbar a situação através do fornecimento de armamento letal moderno a Kiev", para além das "provocadoras manobras militares" no Mar Negro.

Putin tem ainda considerado que a Alemanha e a França, os principais mediadores internacionais para a tentativa de resolução do conflito no Donbas, também instigam Kiev ao incumprimento do Protocolo de Minsk de 2015 e a infrutíferas negociações.

Os russos pretendem remeter-se à função de "mediador" e recusam reconhecer o seu envolvimento no conflito, apesar de forneceram um apoio financeiro e militar aos dirigentes e forças separatistas do Donbas. Em 11 de novembro, foi anulada uma reunião a nível ministerial, com os ocidentais a acusarem Moscovo de ter colocado "condições inaceitáveis". Neste contexto, apenas os dirigentes russos sabem se têm a intenção de recorrer à força, a que escala e em que momento.

Ucrânia de Zelensky versus Rússia de Putin

No poder desde maio de 2019, o Presidente da Ucrânia tem referido como objetivos a entrada da Ucrânia na União Europeia (UE), e a curto prazo na NATO, conforme prometeram os aliados em 2008.

A viragem da Ucrânia para o ocidente teve início com a "revolução laranja" de 2004 e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko e da primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Diversos estudos atuais indicam que a maior parte da população ucraniana apoiaria a adesão à UE e, em menor medida, a integração na NATO.

Sob a presidência de Viktor Yanukovych, a ex-república soviética voltou a virar-se para a Rússia, até à "revolução do Maidan" no inverno de 2013-2014, que teve como pretexto a recusa do Governo em assinar um acordo de associação com a UE. Pouco depois, surgia a anexação da Crimeia e o apoio político e militar aos separatistas russófonos do Donbas.

Putin receia a entrada do país vizinho na NATO e o reforço do aparato militar aliado junto às suas fronteiras.
 
O líder do Kremlin não aceita que a Ucrânia se afaste progressivamente do que define como a sua "zona de influência", uma opção que deixou clara em junho quando escreveu um artigo onde considerou que a verdadeira soberania da Ucrânia apenas será possível com a Rússia porque "são um mesmo povo".

A distribuição de passaportes russos à população do Donbas e nas regiões separatistas da Abkházia e Ossétia do Sul, incluídas em território da Geórgia, também justificam a "defesa dos seus direitos".

Putin promoveu ainda o envio de uma força de dois mil soldados russos para o Cáucaso na sequência da guerra entre a Arménia e o Azerbaijão em 2020, à semelhança do que a Rússia fez na década de 1990 na Ossétia e na Transnístria, a região separatista pró-russa do leste da Moldávia.

Relações económicas entre a Rússia e a Ucrânia

As exportações da Rússia para a Ucrânia caíram na sequência da degradação das relações bilaterais entre as duas ex-repúblicas soviéticas. Pelo contrário, as exportações para a UE quase duplicaram desde 2012. A China é atualmente o primeiro parceiro comercial da Ucrânia, em particular devido ao incremento nas áreas da agricultura e siderurgia.

As relações económicas bilaterais entre a Rússia e a Ucrânia registaram uma queda muito acentuada quando a Ucrânia deixou de comprar gás à Rússia e optou por adquiri-lo no mercado livre europeu, importando através da Hungria, Polónia e Eslovénia e utilizando as suas reservas armazenadas para garantir o fornecimento à população nos períodos de maior consumo.

Na perspetiva de analistas, a Rússia já não pode ameaçar "fechar a torneira" para exercer pressão através da energia, mas o trânsito de gás russo para a Europa permanece decisivo para o país. Por isso, Kiev tem sido o mais firme opositor à concretização, em particular, do projeto do gasoduto Nord Stream II destinado a fornecer a Europa de gás evitando território ucraniano.

C/ Lusa e agências internacionais
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