Vacinação. Falta de documentação exclui parte da população de África

por RTP
Fila para a vacinação contra a Covid-19 na cidade de Narok, Quénia. Baz Ratner - Reuters

O estudo da fundação Mo Ibrahim "Covid-19 em África. Um caminho difícil para a recuperação" revela que a insuficiência de registos civis em África poderá excluir milhões de pessoas do processo de vacinação.

O mapa elaborado pela fundação Mo Ibrahim sobre a vacinação no mundo mostra o continente africano praticamente todo a vermelho, em grande destaque. Ali, apenas 6,8 por cento da população tinha a vacinação completa até 18 de novembro e apenas cinco dos 54 países africanos vão conseguir atingir os 40 por cento de população vacinada até ao final de 2021. Nos países do G7, a vacinação é de 66,8 por cento da população.

“A pandemia veio expor as ainda frágeis capacidades de saúde de África e a dependência excessiva do abastecimento externo. Aumentar as capacidades de desenvolvimento e fabrico de vacinas não trará apenas benefícios sociais e de saúde, mas também vai criar oportunidades de negócio e empregos locais”, expõe o documento.

Contudo, nem só a falta de vacinas e o atraso na entrega de doações afeta a parca vacinação no continente africano. O estudo revela que as falhas nos registos civis podem excluir à partida milhões de pessoas.

De acordo com o estudo, mais de 50 por cento das crianças nascidas em África não tem existência legal por falta de registo, até porque muitos serviços essenciais foram perturbados ou interrompidos durante a pandemia. Por outro lado, apenas 10 por cento das mortes são registadas oficialmente em África, indicam os investigadores.

“A pandemia de Covid-19 interrompeu a já fraca provisão de serviços de registo, revelando as deficiências de um sistema cujos serviços são necessários mais do que nunca”, adiantam os autores.

Num contexto de pobreza ma das grandes barreiras é também o custo destes serviços. O registo de nascimento é gratuito em apenas quatro dos 24 países da África Ocidental e Central. Sem investimento público e apoios à população, poderá haver 100 milhões de crianças nascidas em África sem qualquer registo até 2030.
Na ausência de registo civil, os cidadãos não têm documentos oficiais, o que lhes veda logo à partida o acesso aos cuidados de saúde e às vacinas. “Nenhuma política de saúde será sólida sem dados sólidos. Os cuidados de saúde não são acessíveis para a maioria dos africanos. A maioria dos países continua sem preparação para futuras pandemias”, conclui o estudo.

O estudo revelado esta segunda-feira ainda não conta com os efeitos da variante Ómicron, mas acaba por recorrer ao exemplo da África do Sul para evidenciar os perigos da falta de documentação.

“Países africanos como a África do Sul introduziram o sistema de registo de vacinas que implica a apresentação de documentos de identificação válidos, mas as estimativas mostram que a população não registada é composta por mais de 15,3 milhões de pessoas, excluindo potencialmente quase 30 por cento da população da campanha de vacinação”, lê-se no estudo.
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