António Esteves

A voar baixinho

Encontro várias razões para o estranho baptismo do aeroporto do Funchal, e nenhuma delas me parece boa. Além disso é uma decisão polémica, mal sustentada e que não vai trazer nada de extraordinário, nem a Cristiano Ronaldo nem à região.

Ronaldo já está no topo do Olimpo do futebol, e a cada dia que passa soma recordes atrás de recordes - já está por exemplo no "Top ten" dos melhores marcadores de sempre pelas selecções, e cada vez que marcar golos vai deixar para trás alguns dos maiores craques de sempre do futebol mundial. Vai ter muitas homenagens, baptismos e galardões pela frente, creio que dar nome a um aeroporto não lhe vai acrescentar nada no currículo.


Para a região, é indiferente o nome que vai ter o aeroporto, a não ser do ponto de vista simbólico. À excepção de algumas grandes capitais europeias e mundiais, e algumas até têm mais de um, não conhecemos os nomes do aeroportos onde aterramos até lá aterrarmos, e depois não guardamos memória e nunca mais nos lembramos disso. Façam um teste e perguntem à pessoa que está à vossa frente neste momento o nome de um aeroporto de um local paradisíaco: Jamaica, Punta Cana, Banguecoque, Cuba ou Bahamas. Também nestes casos, poucos dos que lá fizeram férias saberiam responder. Pensar que haverá mais turistas na Madeira porque chegam ansiosos por aterrar no aeroporto madeirense por se chamar Cristiano Ronaldo é um disparate sem sentido. O que as pessoas procuram é sol, calor, boa água e melhor gastronomia, e já agora boas estradas, excelentes hóteis e óptimas condições em geral. Isso é que traz turistas. Um aeroporto permite que cheguem mais rápido e em maior número. Só.

Esta escolha parece uma tentativa de aproveitamento do nome de Cristiano Ronaldo com fins políticos. O capitão da selecção é um filho da terra, o mais famoso dos que estão vivos, é muito querido e muito popular a nível global, e alguém terá acreditado lá na Madeira que isto podia vir a render uns votos valentes em futuras eleições. Creio que não. Alguém vai a correr votar em Miguel Albuquerque porque escolheu Ronaldo para dar o nome ao aeroporto do Funchal? Será mais fácil voltar a vencer eleições se souber criar condições para que os madeirenses vivam com qualidade, conforto e segurança e se tomar medidas para evitar algumas das maiores tragédias que afectaram os insulares nos tempos mais recentes e de má memória - cheias e incêndios. E se, ao mesmo tempo, conseguir evitar que as pessoas que vivem todo o ano no arquipélago se sintam menos isoladas e mais próximas do resto do mundo. Isto sim, traz votos.

Outra das razões que parecem presidir a esta decisão precipitada, sem que os madeirenses tivessem sido ouvidos, tem a ver com uma intenção de perpetuar o nome de Ronaldo como madeirense ilustre, ficando para sempre ligado à terra onde nasceu. Mas para isso não era preciso um nome no aeroporto, porque Ronaldo já é imortal, não apenas na Madeira mas nos livros de história do resto do mundo. Quando se falar de futebol ele vai estar entre os primeiros nomes. Sempre! Aconteça o que acontecer daqui para a frente. E esta dúvida é para mim o ponto negativo que justificava mais prudência.

Ronaldo é um exemplo, enquanto cidadão e enquanto futebolista e é hoje um nome de prestígio, mas não sabemos o que o futuro lhe reserva, o que lhe vai acontecer ou que ele fará acontecer na própria vida. Por essa razão se recomendava mais cautela. Só depois de uma pessoa morrer, de ser analisado o conjunto da herança que deixa, de tudo o que representou se pode chegar à conclusão se é merecedor ou não de dar o nome a uma estrutura que seja emblema de uma região, como é o caso do aeroporto do Funchal. Sugerir o nome de Alberto João Jardim é outro disparate, que apenas parece ter como objectivo criar uma polémica com fins políticos. Além de não ser um nome consensual na região, como Ronaldo quase consegue ser, também está vivo.

Querem um nome justo? Escolham vários nomes com ligações à região, e depois de avaliados os prós e contras façam uma pequena lista e sujeitem-na à votação dos madeirenses em geral. Envolvam as pessoas que vivem nas ilhas e que todos os dias ajudam o arquipélago a crescer. Se elas escolherem Cristiano Ronaldo, que seja. Continuará a ser uma escolha errada e precipitada por recair sobre uma pessoa ainda viva, mas pelo menos será democrática.

A informação mais vista

+ Em Foco

Os dados do sistema de Informação de Fogos Florestais da União Europeia (EFFIS) indicam que só entre os dias 14 e 15 de outubro arderam em Portugal continental cerca de 200 mil hectares.

    Filipe Vasconcelos Romão, comentador de assuntos internacionais, refere que o artigo 155 da Constituição Espanhola será aplicado sem que haja qualquer lei de enquadramento.

    Impostos, orçamentos, metas para o próximo ano. A RTP descodifica a proposta de Orçamento do Estado apresentada pelo ministro das Finanças esta sexta-feira.

      Em entrevista à Antena1 e ao Jornal de Negócios, o ministro do Trabalho e da Segurança Social considera que a apresentação da moção de censura não vai trazer mudanças significativas.