Daniela Santiago

Fraca, mas forte

A uma Espanha que ficou muito aquém das expectativas na ajuda e acolhimento de refugiados, chega a história de uma jovem síria com paralisia cerebral que, numa cadeira de rodas, guiou a irmã por quase 6 mil km até ao El Dorado europeu, o país que sempre tinham sonhado, a Alemanha.

Nujeen, 15 anos, que deixou um quinto andar sem elevador num bairro curdo de Alepo para viver a primeira e, talvez, maior aventura da vida dela, dá agora nome a um livro. Uma obra onde é protagonista de uma história lavada de tabus, desinfetada de preconceitos, onde o mais fraco se torna o mais forte e conquista o sonho.

Chegou à costa grega no mesmo dia em que 11 crianças perderam a vida no Egeu, entre eles estava o pequeno Ailan Kurdi, o menino que correu mundo, que morreu às mãos da incúria do Homem, que serviu para muitos discursos e promessas, mas para nada mais. Hoje, tudo continua igual. Vergonhosamente igual.

Nujeen Mustafa logrou a travessia. Confessa que se sentia protegida no bote de borracha, no alto da sua cadeira de rodas, apesar de saber que, se algo corresse mal, seria a primeira a perder a vida. Com ela esteve sempre uma dos oito irmãos mais velhos, estudante de física que empurrou a cadeira nesta interminável aventura por nove países.

Em Lesbos, surpreendeu os voluntários por ser a primeira refugiada a chegar numa cadeira de rodas e pelo inglês, fluente, que falava. A família desconhecia-o. Os anos que passou fechada em casa, em Alepo, devido à guerra ou à discriminação das outras crianças e adultos, só fluíram porque Nujeen tinha uma televisão, o Google no computador e o mundo dos adultos que a rodeavam, numa casa cheia, onde a imaginação e inteligência de uma criança eram rainhas.

Enfrentaram o campo de refugiados de Moria, em Lesbos, fizeram a travessia para Pireaus, em Atenas. Dormiram nas ruas gregas, andaram de comboio, pela primeira vez, para chegar à fronteira com a Macedónia. Esbarraram com a vala da vergonha escavada pelos húngaros. Na Croácia dizem que foram tratadas como assassinas, delinquentes; na Eslovénia chegaram a estar presas num edifício onde só uma greve de fome, com outros refugiados iraquianos, permitiu que as libertassem, ou melhor, que as obrigassem a entrar num autocarro rumo a outro campo de acolhimento improvisado. Ainda passaram pela Áustria, até conseguirem, finalmente, pisar a Alemanha. Após algumas semanas num polidesportivo em Essen, conseguiram chegar a Colónia, onde já vivia um irmão, com um pedido de asilo em curso.

Atualmente, Nujeen estuda numa escola. Pela primeira vez na vida frequenta uma sala de aula. Tem amigos, joga basquetebol em cadeira de rodas… acima de tudo, sente-se a salvo. Tem saudades dos pais, que continuam na Turquia.

“Nujeen”, escrito pela própria Nujeen Mustafa e por Christina Lamb, biógrafa da ativista paquistanesa e Nobel da Paz Malala, já está nas livrarias espanholas.

Que grande reportagem, que exemplo de vida o desta jovem curda. Pena que se fale tanto e se faça tão pouco.

Neste dia, em que António Guterres foi aclamado Secretário-Geral das Nações Unidas, ficam os números.

Em Espanha, as Organizações Não Governamentais que se dedicam aos refugiados falam num ano de vergonha. O país vizinho de Portugal acolheu, até ao momento, 1% dos 17.387 refugiados que deveria receber em dois anos. O compromisso com a União Europeia foi assinado em setembro de 2015, mas parece ter caído em saco roto. Passado mais de um ano, os números da Organização Oxfam e do próprio Governo espanhol são escandalosos, tristes, ao contrário da história de Nujeen.

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