Turquia acusada de enviar uigures para a China em troca de vacinas

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Um manifestante uigure usa uma máscara enquanto participa numa manifestação contra a China, em 2019 Huseyin Aldemir - Reuters

Deputados da oposição na Turquia acusam os líderes de Ancara de estarem secretamente a deportar cidadãos da etnia muçulmana uigure para a China em troca de vacinas contra a Covid-19. Nos últimos meses, cerca de 50 uigures foram detidos pelas autoridades turcas e colocados em centros de deportação. Pequim e Ancara negam qualquer acordo.

Apesar de não existirem provas concretas deste quid pro quo, sabe-se que dezenas de milhões de frascos da vacina chinesa Sinovac ainda não foram entregues à Turquia, conforme tinha sido acordado entre os dois países.

Por sua vez, nos últimos meses, cerca de 50 uigures foram detidos pelas autoridades turcas e colocados em centros de deportação – um número que, segundo os advogados, representa um aumento acentuado em relação ao ano passado.

A comunidade uigure turca receia, por isso, que a China esteja a usar as vacinas como uma forma de pressionar Ancara a assinar um acordo de extradição. O acordo foi assinado em 2017, mas apenas foi ratificado por Pequim em dezembro do ano passado e poderá ser apresentado aos deputados turcos ainda este mês. A Turquia ainda não ratificou este acordo devido à forte contestação dos partidos de oposição.

Perante a ameaça deste acordo, os uigures temem o regresso do seu maior pesadelo: a deportação para um país do qual fugiram para evitar a detenção em massa. Estima-se que nos últimos anos, mais de um milhão de uigures e membros de outras minorias muçulmanas tenham sido levados para campos de detenção na região de Xinjiang, no extremo noroeste da China, onde permanecem detidos e são alvo de tortura, violação e abuso sexual.

Pequim defende que estes são campos de “reeducação”, escolas “voluntárias” no combate ao extremismo islâmico. No entanto, vários países e organizações internacionais denunciam os crimes cometidos contra estas minorias, os quais os EUA apelidaram de genocídio.

Estou com medo de ser deportada”, disse Melike à Associated Press (AP). O seu marido, Abdullah Metseydi, é um dos uigures que se refugiaram na Turquia atualmente detido num centro de deportação.

Segundo relata a agência AP, Metseydi foi detido há um mês, quando cerca de 12 agentes da polícia apareceram em sua casa e perguntaram se tinha participado em alguma demonstração contra a China, ameaçando deportá-lo, juntamente com a sua esposa, para a China.
China e Turquia negam chantagem
As suspeitas sobre um possível acordo entre Pequim e Ancara emergiram após o primeiro carregamento de vacinas da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech ter sido retido durante semanas em dezembro – o exato mês em que a China formalizou o acordo.

As autoridades alegaram, na altura, problemas com as licenças, mas até ao momento a Turquia apenas recebeu um terço dos 30 milhões de doses da CoronaVac previstas até ao final de janeiro. A Turquia depende da vacina chinesa CoronaVac para imunizar a sua população contra a Covid-19, que já infetou cerca de 2,5 milhões de pessoas no país e provocou mais de 26 mil mortes.

Um atraso destes não é normal. Nós pagamos por estas vacinas”, disse Yildirim Kaya, deputado do principal partido da oposição da Turquia. “Estará a China a chantagear a Turquia?”, questiona.

As autoridades turcas e chinesas insistem que o acordo de extradição não visa a deportação de uigures, com os meios de comunicação estatais chineses a apelidarem as acusações de “difamação”.

O chefe da diplomacia turca, Mevlut Cavusoglu, disse em dezembro que o atraso das vacinas não estava relacionado com os uigures. “Não usamos os uigures para fins políticos, defendemos os seus direitos humanos”, disse Cavusoglu.

"É incorreto dizer que [a ratificação de Pequim] significa que a Turquia irá enviar uigures de volta para a China", sublinhou o ministro turco dos Negócios Estrangeiros. "Isso só será aplicado a pessoas culpadas [de crimes]. No passado, existiram pedidos para o envio de uigures que se encontravam na Turquia para a China. A Turquia não aplicou tais medidas", explicou.

Os advogados que representam os uigures em detenção explicam, no entanto, que na maioria dos casos, a polícia turca não tem provas de ligações a grupos terroristas. Acreditam, por isso, que as detenções têm uma motivação política.

“Eles não têm provas concretas”, disse Ilyas Dogan, professor de direito em Ancara que representa seis uigures nos centros de deportação, à Associated Press.

Dogan tem dúvidas de que, mesmo que a Turquia ratifique o documento, venha a haver deportações em massa, dada a simpatia pública pelo povo uigur na Turquia. No entanto, o advogado reconhece que a probabilidade de pessoas desta etnia serem deportadas aumentaria consideravelmente.
“Estamos com muito medo”
Estima-se que cerca de 50 mil uigures estejam refugiados na Turquia, maioritariamente na cidade de Istambul. Devido aos laços culturais compartilhados entre os dois países, a Turquia tem sido um porto seguro para elementos desta etnia que fogem à repressão do regime chinês.

Durante muito tempo, a Turquia foi um dos principais Estados a defender a etnia uigur a nível internacional, com o presidente Recep Erdogan a denunciar o tratamento da China a esta comunidade de “genocídio”.

Posteriormente, à medida que Ancara se foi tornando economicamente dependente de Pequim, as críticas ficaram mais discretas.

A crescente ameaça de deportação está a forçar muitos uigures a mudarem-se para a Alemanha, Holanda e outros países europeus. Alguns, num ato de desespero, estão a atravessar as fronteiras ilegalmente, segundo revelou à AP Ali Kutad, que fugiu da China para a Turquia em 2016.

“A Turquia é a nossa segunda terra natal. Estamos com muito medo”, admitiu Kutad.
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