Escolha do futuro ministro das Finanças da Alemanha adivinha-se crucial para a UE

por Graça Andrade Ramos - RTP
Olaf Scholz, líder dos social-democratas e vencedor das eleições de setembro na Alemanha, conversa com Robert Habeck, co-líder dos Verdes e candidato a ministro das Finanças,a 21 de outubro de 2021 Reuters

Há três dias milhares de jovens alemães responderam ao apelo do movimento "sextas-feiras pelo futuro" e marcharam nas ruas de Berlim para pressionar a aliança tripartida que procura formar Governo na Alemanha a assumir políticas decididas contra as alterações climáticas.

"O nosso futuro não é questão negociável", anunciavam alguns dos cartazes. Um recado direto ao vencedor das eleições legislativas de 26 de setembro, Olaf Scholz, líder do Partido Social-Democrata, que tem de equilibrar as agendas díspares dos seus parceiros e impor igualmente as suas promessas. O SPD chegou a acordo com os liberais do FDP e com os Verdes e os três declararam na semana passada a convicçãode ser possível concluir até final de novembro o acordo que os irá responsabilizar pelo destino das políticas alemãs e provavelmente da Europa.

A pressão ambientalista tem crescido no país, sobretudo entre as camadas mais novas dos eleitores. Há dez dias, SPD, FDP e Verdes anunciaram um acordo preliminar para alcançar a neutralidade de carbono até 2045, a par de um abandono acelerado da economia baseada no carvão até 2030.

Medidas "insuficientes", para a líder do movimento das sextas-feiras, para quem o segundo objetivo deveria ser juridicamente vinculativo. Luisa Neubauer exige igualmente que a indústria automóvel alemã deixe de fabricar dentro de três anos automóveis movidos a combustíveis fósseis.

A manifestação de sexta-feira passada teve contudo um alvo principal, várias vezes apupado: Christian Lindner, líder dos liberais, que torpedeou uma proposta dos Verdes para impor um limite de velocidade nas autoestradas do país.

"Seria algo que não custaria quase nada mas que faria uma enorme diferença", deplorou à agência France Presse uma das manifestantes, Larena Dix, estudante de arquitetura de 23 anos, enquanto a seu lado, uma amiga estudante de Direito exigia aos Verdes que "não se deixassem enrolar" nas negociações.

A fúria dos ambientalistas contra Lindner tem outra face menos visível. O liberal é pretendente direto ao lugar de ministro das Finanças, em concorrência com o co-líder dos Verdes e principal arquiteto da coligação, Robert Habeck. Além das ruas, a luta tem invadido os jornais, com ambos a reivindicarem o cargo.
Dois futuros
No jornal britânico The Guardian, o analista Adam Tooze analisou os dois homens e as políticas que defendem. Sob alguns aspetos, afirma, estas são similares. Ambos disputam os votos das novas gerações, defendem as liberdades civis e não são conciliadores nem com a Rússia nem a China. Os dois querem igualmente modernizar a estafada indústria alemã, especialmente a nível tecnológico.

Chegados ao clima deixam de andar a par, com os Verdes a serem neste dossier bem mais exigentes do que os liberais. E em políticas sociais e económicas e quanto à Europa, o fosso alarga-se ainda mais.

A oposição mais feroz surge contudo a nível fiscal, com Lindner a insistir em impor limites orçamentais contra a vontade de social-democratas e de Verdes, a braços com as dificuldades de financiamento dos enormes investimentos que pretendem realizar. Ao lançar as bases da sua aliança "tricolor" há uma semana, resumidas em 12 páginas, os três assumiam compromissos genéricos. Nada de subida de impostos, respeito pelos limites do endividamento, aumento do salário mínimo para 12 euros por hora. Além do compromisso sobre o carvão.

Para evitar o braço de ferro com o FDP, ecologistas e social-democratas admitem a criação de uma estrutura financeira de fundos públicos para contornar parcialmente o freio da dívida.

Lindner ou Habeck. A grande diferença será a nível fiscal. E o que será bom para a Alemanha será, naturalmente, bom para a UE, pelo que a escolha do novo ministro das Finanças alemão deveria interessar a todos os europeus.

Adam Tooze faz notar que Lindner e o FDP querem impostos baixos, limitação do endividamento e rédea curta para os parceiros europeus, além de proporem que a crise climática seja controlada através dos privados e dos custos do carbono.

os Verdes dão naturalmente a primazia ao ambiente e ao clima, com investimentos em larga escala, os quais dependem do levantamento dos travões da dívida alemães e uma política pró europeia que prossiga o rumo da política comum de investimentos financiada pelo endividamento.

Numa Europa ainda em recuperação da crise pandémica e com os países mais endividados que nunca, o regresso defendido por Lindner e os especialistas do FDP às regras de limitação do défice a 60 por cento do PIB, com os orçamentos a respeitarem um teto máximo de três por cento, poderia ser não só ruinoso como impossível, refere Tooze.

Dados do Eurostat divulgados a 21 de outubro de 2021, indicam que em 2020 o rácio da dívida pública aumentou para 97,3 por cento na zona euro e 90,1 por cento na União Europeia.

Christian Lindner, o líder dos liberais alemães que exigem um regresso às regras orçamentais de Maastrich Foto - Reuters
Rastilho "a postos"
O analista lembra que 60 por cento da população da zona euro vive em países cuja dívida ultrapassa os 100 por cento do PIB, com a Itália à cabeça a superar os 150 por cento.A dívida de Portugal atingiu máximos históricos superiores a 130 por cento até agosto de 2021, contudo o ministro das Finanças, João Leão, acredita que se deverá fixar este ano em 128 por cento do PIB. A queda do Governo, por chumbo do Orçamento do Estado, poderá anular estas previsões.

Forçar o regresso aos critérios pré-Covid seria "um desastre", vaticina Tooze. Não só iria impedir quaisquer mudanças para uma economia verde como iria provocar uma revolta popular, a começar pela Itália, mantém.

Por tudo isso, a cedência de Scholz a Lindner seria arriscada, conclui, considerando a escolha de um conservador para as finanças alemãs um risco sistémico para a Europa.

Oito pequenos países europeus já apelaram à consolidação das finanças da União e se vão ou não conseguir os seus intentos depende em grande parte de quem se irá ocupar das finanças alemãs, refere ainda.

"O rastilho da conflagração está a postos", avisa.

Scholz, ele próprio o ministro das Finanças do último Governo de Angela Merkel, adotou em 2020 a colaboração com os franceses que abriu a porta ao plano de socorro Next Generation EU. E manteve cuidadosamente a discrição face à ameaça populista italiana em 2018, retirando-lhe argumentos e às suas congéneres que crescem um pouco por toda a União.

Ceder ao FDP e nomear Lindner como seu substituto poderia ser um retrocesso nas suas próprias táticas, mesmo que os liberais aceitassem rever os limites de 60 por cento ditados em Maastrich.

Contudo, o equilíbrio exigido pelos projetos de implementação de novas tecnologias, a viragem para uma economia verde e circular e a recuperação dos níveis de produção e de consumo, dependentes em grande parte de mais endividamento, poderá igualmente ditar a médio prazo a implosão do sonho europeu de prosperidade e sucesso, sobretudo num cenário de crise global.
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