Carola Rackete. "Tenho vergonha da Alemanha e da União Europeia"

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Carola Rackete, ainda a bordo do Sea Watch 3, pouco após atracar o navio no porto italiano de Lampedusa, a 29 de junho de 2019
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A comandante alemã do navio Sea Watch 3, Carola Rackete, afirmou em entrevista publicada esta quinta-feira pelo jornal espanhol El País, que tem "vergonha do meu país, a Alemanha, e da União Europeia", por estarem a "financiar a guarda-costeira líbia e um regime que permite a tortura e o tráfico de seres humanos".

"Que deem apoio a esses criminosos, nunca o entenderei", refere.

Carola Rackete tem 31 anos e saltou há 15 dias para as páginas dos jornais em todo o mundo, pelas piores - ou melhores - razões. Depois de esperar duas semanas por uma autorização do Governo italiano, para desembarcar dezenas de migrantes repescados das águas do Mediterrâneo, a comandante do Sea Watch 3 avançou e atracou no porto italiano de Lampedusa.


Ao El País, Rackete afirma que não teve alternativa e que voltaria a fazer o que fez, se hoje se visse perante uma situação semelhante.

A situação a bordo, explica, "era muito tensa. Todos os dias recebia informações da equipa médica, dos psicólogos e da tripulação, estava tudo cada vez pior", explica, dando detalhes do pesadelo vivido a bordo.

"O barco não está preparado para ter a bordo 40 pessoas durante tantos dias. Não havia privacidade, não se podia tomar banho, as casas de banho químicas não funcionavam..."

"Todas estas pessoas veem de um país em guerra civil, sofreram abusos, também torturas. Não tínhamos uma ideia clara do futuro e isso agravava a ansiedade, até ao ponto de algumas pessoas ameaçarem suicidar-se", conta a comandante.

"Eram pessoas que já o tinham tentado. A equipa médica deixou muito claro que já não podia garantir por mais tempo a sua segurança. E essa era uma linha vermelha", refere.
A possibilidade de um Prémio Nobel
A guarda-fiscal italiana afirmou que não se justificava o estado de emergência invocado por Carola Rackete para entrar no porto. Depois de ser detida, a alemã acabou por ser mandada em liberdade por uma juíza, que considerou justificada a sua ação, por motivos humanitários.

Carola tornou-se do dia para a noite num símbolo da luta de todos aqueles que resgatam migrantes de uma morte certa, contra o decreto do ministro italiano do Interior, Mario Salvini, que encerrou os portos italianos.

A comandante do Sea Watch 3 afirma que estava consciente do que poderia resultar da quebra dessa lei, mas recusa o protagonismo que lhe é imputado.

"Na Europa há muitas pessoas a ajudar os migrantes, acolhendo refugiados. Por isso, parece-me pouco natural ou justo que a atenção se centre agora numa única pessoa", afirma. Ficou igualmente surpreendida com a notícia de que o escritor Mario Vargas Llosa, pensa propor o seu nome para Prémio Nobel da Paz.

"Que esta ação tenha desencadeado tudo isto, faz-me perceber a enorme invisibilidade do nosso trabalho. Há milhares de pessoas a fazer coisas maravilhosas todos os dias", lembra.
Um "enorme fracasso"
Ao entrar no porto de Lampedusa, o Sea Watch 3 provou que o decreto Salvini pode ser ignorado e deu imensa publicidade à causa. Carola sublinha que os problemas se devem a uma perceção errada da política migratória.

"Financiar e apoiar a guarda-costeira líbia para empurrar as pessoas para um país onde decorre uma guerra civil é algo completamente errado. Outros capitães antes de mim foram pressionados a devolve-los para lá. Se não o fizessem seriam incriminados e detidos. Esta causa veio trazer à luz muitas coisas que se estão a fazer de forma errada", defende a comandante.

Também Salvini é alvo de críticas duras, pela demora em autorizar o desembarque e apesar de dizer, após o desafio de Carole, de que planeava faze-lo na semana seguinte. "Teve 16 dias para o fazer e ninguém com autoridade moveu um dedo", reage Carola ao El País.

"Muitas pessoas nos disseram que chegaria uma solução política, mas passavam os dias sem resultados. Não tive nenhuma confirmação oficial e a situação era extremamente crítica. Ninguém a resolveu em 16 dias. E isso é um enorme fracasso, do Parlamento italiano mas, sobretudo, da Comissão Europeia. Depois daquele tempo, não podia confiar em ninguém, nem na chegada de uma solução política".

Carola foi recebida com insultos no molhe de Lampedusa. Reconhece que as opiniões perante o acolhimento aos migrantes estão muito polarizadas, não só em Itália, como no Reino Unido e na Alemanha, e afirma que os que se mantêm em silêncio "por medo" têm de levantar a voz e escolher um lado. "Teremos de nos pôr de acordo de que a vida humana vale o meso, venha de onde vier".

A capitã lamenta que a Europa não se esteja a mostrar à altura dos seus princípios nesta crise. "A União Europeia não deveria cooperar com organizações assim", insiste, referindo-se à Guarda Costeira líbia e ao regime líbio. "Financiam criminosos sabendo que o são. Tenho vergonha" que o façam, acrescenta.
Paradeiro incerto
Já a juíza que a mandou em liberdade mereceu aplauso. "Fez uma declaração muito clara do caso, do princípio ao fim. Disse que a lei Salvini se podia aplicar aos traficantes e que esse não era o nosso caso", lembra Carola, destacando a independência da magistrada, apesar das pressões políticas.

A possibilidade de saltar do ativismo para uma carreira na política ainda não se coloca, afirma também a comandante, até porque, lembra, a sua participação no esforço de salvamento dos migrantes é em si mesma uma forma de política.

Lembra ainda os insultos e acusações de que foi alvo e admite vir a agir na Justiça para denunciar os que tentam diminui-la, denegrindo-a, por exemplo, por ser mulher.

Carole diz que não tem falado com os pais nas últimas semanas, mas garante que estes a entendem e aprovam as suas ações. "Estão orgulhosos", diz.

A comandante é agora procurada em toda a Itália, depois de Matteo Salvini ter ordenado a sua expulsão.

Com Carola em paradeiro incerto, a entrevista do El País foi realizada por vezes pelo Skype, outras vezes pelo telefone, enquanto ela viajava de carro até Agrigento, na Sicília, para que se apresente perante o tribunal, sob a acusação de favorecer o tráfico de imigrantes.

Uma greve impediu-a e obrigou-a a voltar dali a 10 dias. Carola deixou a Sicília, mantendo segredo do seu paradeiro, refere o El País.

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