Espanha recebe migrantes do navio Aquarius

por RTP
O navio Aquarius no momento da aproximação ao porto de Valência, depois de uma semana no Mar Mediterrâneo Heino Kalis - Reuters

Todos os migrantes socorridos pelo navio Aquarius já chegaram ao porto de Valência, em Espanha. A embarcação com 629 migrantes vindos da Líbia foi rejeitada por Itália e Malta há uma semana e fez a travessia do Mar Mediterrâneo nos últimos oito dias.

Os migrantes seguiam em três diferentes embarcações, que foram chegando de forma faseada, ao longo da manhã de domingo, ao porto de Valência. O primeiro a chegar foi o Dattilo, da Marinha italiana, por volta das 7h20 locais (menos uma hora em Portugal Continental), com 274 migrantes.

Entretanto, foi a vez do porto de Valência o navio Aquarius, da organização não-governamental SOS Mediterranée, que deveria ter chegado às 9h00, com 106 migrantes a bordo.


O Aquarius atracou no porto espanhol hora e meia depois do previsto, por volta das 10h30 locais. Transportava o grupo de migrantes mais vulneráveis e com maior necessidade de cuidados médicos imediatos.

Por fim, foi a vez do navio Orione, da armada italiana, com 250 migrantes, que deu entrada no porto espanhol pouco depois das 12h00 locais.

Na semana passada, dia 10, a Itália recusou-se a permitir o desembarque do Aquarius nos portos italianos. Os 629 migrantes viajavam em barcos de borracha e tinham sido resgatados no Mar Mediterrâneo, no dia anterior.

O Governo de Roma defendeu que deveria ser Malta a acolher os migrantes, mas as autoridades maltesas argumentaram que a responsabilidade era de Itália, uma vez que o salvamento ocorreu numa zona marítima sob controlo de Itália.

Perante este impasse, a Espanha ofereceu-se na segunda-feira para acolher os migrantes no porto de Valência. O presidente do Governo espanhol, Pedro Sanchez, fez esta oferta para "evitar uma tragédia humanitária".

Nesta embarcação seguiam incialmente 629 migrantes, dos quais 123 menores desacompanhados, onze crianças com menos de 13 anos e sete mulheres grávidas.

Em declarações à RTP, David Noguieira, da organização Médicos Sem Fronteiras em Espanha, diz esperar uma "mudança de paradigma" após a crise gerada pelo navio Aquarius.


O responsável deixou ainda um apelo ao Governo português e a todos os executivos europeus para que cooperem no acolhimento dos migrantes.

"Uma solução mais justa, mais humana, mais solidária para o drama migratório", que, considera, passaria por assegurar uma passagem segura aos migrantes e refugiados, sem que tenham de passar por "experiências traumáticas" para chegar à Europa.
Migrantes com mais patologias que o esperado

A Cruz Vermelha em Valência confirma que estão mais de 2.300 pessoas a participar no dispositivo de receção aos migrantes, entre trabalhadores e voluntários, tradutores, médicos, entre outros profissionais.

A organização refere que o estado de espírito dos migrantes é "bom, apesar do cansaço". Alguns tiveram de ser assistidos por equipas médicas à chegada, incluindo uma mulher grávida, que foi transportada para um centro de saúde.

O protocolo de acolhimento dos migrantes estabelece que as sete mulheres grávidas vão ser assistidas e receber cuidados médicos à chegada.

O vice-diretor da Emergências da Generalitat, Jorge Suárez, revelou entretanto que os migrantes que chegaram com o primeiro navio apresentam mais problemas de saúde do que o esperado, ainda que não tenha sido registado nenhum incidente grave.

Estas patologias estão ligadas à superlotação dos navios, escoriações, queimaduras e mal-estar ligado aos vários dias que estiveram no mar.

Óscar Corral, fotojornalista do jornal El País, registou imagens da festa de alguns migrantes aquando da chegada a solo europeu.


Os migrantes resgatados têm origem de 26 países diferentes, sendo que a maioria veio de África. No entanto, entre os 629 migrantes há também pessoas vindas do Afeganistão, Paquistão e Bangladesh, segundo os Médicos Sem Fronteiras.
França disponibiliza ajuda
O destino do Aquarius veio suscitar tensões entre vários países europeus, nomeadamente entre França e Itália, com Paris a acusar Roma de "cinismo e irresponsabilidade" e a sublinhar que o acolhimento deveria ter sido garantido pelas autoridades italianas.

Um encontro no Palácio do Eliseu entre o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente do Conselho italiano, Giuseppe Conte, chegou a estar em risco. No entanto, a visita do responsável italiano realizou-se mesmo na passada sexta-feira e os dois líderes defenderam um maior apoio aos países de chegada dos migrantes.

Entretanto, no sábado, a França mostrou-se disponível para acolher migrantes do Aquarius, depois de serem analisadas todas as situações individuais.

"O Governo francês colaborará com o Governo espanhol no acolhimento dos migrantes do Aquarius", anunciou ontem vice-presidente do executivo espanhol, Carmen Calvo.
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