EUA. Polícia do Capitólio desvalorizou avisos do FBI sobre ataque ao edifício

por Joana Raposo Santos - RTP
Yogananda Pittman, atual chefe da polícia do Capitólio, admitiu que o FBI tinha avisado sobre o ataque. Reuters

Os líderes da polícia do Capitólio tinham sido avisados pela inteligência norte-americana de que extremistas armados planeavam atacar o edifício, no seguimento da derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais. Os alertas foram, porém, desvalorizados, pelo que os agentes não contavam com reforços nesse dia violento que resultou em cinco vítimas mortais.

Yogananda Pittman, atual chefe da polícia do Capitólio, admitiu perante um subcomité da Câmara dos Representantes na quinta-feira que o departamento interno de inteligência dessa força policial tinha avisado que supremacistas brancos, membros de milícias e outros extremistas estavam a planear ir até Washington para levar a cabo um “último ato de apoio” a Donald Trump.

À data, Pittman estava no cargo de vice-chefe dos serviços de proteção e inteligência, tendo apenas passado a chefe da polícia do Capitólio quando o seu antecessor, Steven Sund, se demitiu na sequência do ataque.

Segundo a responsável, os pormenores desse alerta foram partilhados com os membros do seu departamento e os sargentos e tenentes ficaram encarregues de espalhar a palavra aos seus subordinados.

No entanto, segundo a Associated Press, a mensagem parece não ter chegado a todos. Quatro agentes ouvidos pela agência Associated Press no mês passado disseram ter pouco ou nenhum conhecimento do que poderia vir a acontecer a 6 de janeiro, pelo que não estavam preparados para o ataque.

Yogananda Pittman avançou ainda, na Câmara dos Representantes, que na véspera do assalto ao edifício o FBI enviou à polícia do Capitólio um aviso sobre extremistas que planeavam travar uma “guerra” para impedirem a oficialização da vitória de Joe Biden, mas que esse aviso nunca chegou às suas mãos.

De qualquer das formas, Pittman sublinhou que o alerta não a teria feito alterar o plano de segurança do seu departamento para o dia seguinte, uma vez que nenhum dos avisos sobre a violência que se aproximava fazia prever o ataque massivo que acabou por se verificar a 6 de janeiro.
Ameaças "não eram credíveis"
O democrata Tim Ryan apressou-se a acusar Pittman de ter falhado em compreender a importância da ameaça. “Você tinha os dados dos serviços de inteligência mas não juntou todas as peças para sintetizar que, basicamente, algo muito mau poderia acontecer”, criticou.

Em sua defesa, a agora chefe de polícia do Capitólio garantiu que o departamento tomou as medidas apropriadas para proteger o edifício e aqueles que se encontravam no seu interior. Frisou ainda que foram destacados agentes armados para as residências dos líderes do Congresso e que foram intercetadas as frequências de rádio usadas pelos manifestantes.

Ainda assim, os invasores conseguiram furar a linha formada pelos polícias e entrar no Capitólio. Pelo caminho foram atacando agentes e destruindo as instalações. A violência foi tal que acabou por causar cinco vítimas mortais, incluindo um agente.

“Não consigo ultrapassar a clara discrepância entre as informações de inteligência recebidas e a preparação da polícia”, apontou a democrata Katherine Clark após ouvir o testemunho de Yogananda Pittman.

A chefe de polícia respondeu que as informações fornecidas pelas agências de inteligência a partir de 3 de janeiro não eram suficientemente específicas ou credíveis, pelo que não havia nada que o seu departamento pudesse fazer em relação às mesmas.

“Nenhuma ameaça credível indicava que dezenas de milhares de pessoas iriam atacar o Capitólio dos Estados Unidos. Nenhuma das informações de inteligência do FBI ou de qualquer outra força indicaram tal ameaça”, justificou.

Segundo Pittman, a polícia estima que tenham estado cerca de dez mil pessoas no exterior do Capitólio e que 800 tenham conseguido entrar nas instalações no ataque de 6 de janeiro.

Para impedir que episódios semelhantes se repitam no futuro, a responsável tomou já “medidas de correção” no departamento de inteligência. Por agora, no entanto, terá de continuar a lidar com as investigações à atuação da polícia durante a insurreição.

Na semana passada, o sindicato da polícia do Capitólio lançou uma moção de censura contra Pittman.
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