Exército do Zimbabué nega golpe e garante segurança de Mugabe

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Após uma noite de agitação nas ruas, com uma série de explosões e a tomada da televisão e edifícios estatais, o exército do Zimbabué desmentiu que esteja em curso um golpe de Estado militar, garantindo que o Presidente Robert Mugabe se encontra em segurança. O próprio Mugabe, num contacto com o Presidente sul-africano, Jacob Zuma, confirmou que está bem, apesar de se encontrar confinado à sua casa.

As últimas indicações sobre o estado do Presidente Mugabe foram comunicadas pela Presidência sul-africana, que numa nota oficial fez saber da comunicação entre Jacob Zuma e Robert Mugabe. Este terá comunicado com Zuma, dizendo-lhe que se encontra confinado a sua casa, mas que está bem.

O comunicado acrescenta que Jacob Zuma vai enviar dois emissários a Harare, onde o exército tomou a televisão estatal e assumiu o controlo de edifícios oficiais durante a madrugada: "O presidente envia a ministra da Defesa e dos antigos Combatentes, Nosiviwe Mapisa-Ngakula, e o ministro da Segurançado Estado, Bongani Bongo, ao Zimbabué para se encontrarem com o presidente Robert Mugabe e com o exército zimbabueano".
Exército minimiza alcance da operação

"Estamos apenas a visar criminosos em torno dele [Robert Mugabe] que cometem crimes que estão a causar sofrimento económico e social no país, de modo a levá-los à justiça", afirmou o exército através da televisão estatal, que foi ocupada pelos militares.

O anúncio feito às primeiras horas desta terça-feira tem lugar depois de uma noite de agitação na capital, com soldados armados e veículos militares nas ruas da capital e o registo de pelo menos três explosões.


"Assim que tivermos cumprido a nossa missão, esperamos que a situação volte à normalidade", diz o comunicado militar.

Um pormenor que está a ser considerado nas movimentações militares é também a recente deslocação do comandante do exército do Zimbabué, general Constantino Chiwenga, à China, potência que tem sido um forte apoiante do Presidente Robert Mugabe apesar das críticas internacionais.Na semana passada, o Ministério da Defesa da China colocou no seu microblog uma fotografia de Chiwenga e apertar a mão do ministro da Defesa, Chang Wanquan, em Pequim.

Os laços militares entre os dois países remontam a 1970, quando Pequim apoiou a luta do Zimbabué contra o domínio do país pela minoria branca.

Pequim sublinhou, entretanto, que a recente visita de Chiwenga, que poderá ter tomado hoje o controlo do país, se tratou de um "intercâmbio militar normal".

Questionado se Chiwenga informou os funcionários chineses de algum plano para assumir o controlo do Zimbabué, o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Geng Shuang afirmou que a visita do general foi organizada pelo ministério da Defesa, pelo que desconhece os detalhes.

"O que sei é que a sua visita foi um intercâmbio militar normal, acordado pelos dois países", declarou Geng Shuang.
"Mudança forçada de regime"

Perspectiva diferente daquela que está a ser veiculada pelas forças militares envolvidas na operação foi sublinhada durante uma reunião ministerial em Moçambique pelo ministro da Defesa do Zimbabué. Sydney Sekeramayi fala em pessoas interessadas em destruir a imagem do seu Governo para "orquestrar uma mudança forçada de regime".

"Eles divulgam informações para deteriorar a nossa imagem, com o objetivo de orquestrar uma mudança de regime forçada", declarou Sydney Sekeramayi num discurso à X Sessão da Comissão Conjunta Permanente de Defesa e Segurança, que junta Moçambique e Zimbabué em Bilene, província de Gaza, 200 quilómetros a norte de Maputo.

Sydney Sekeramayi denunciou o que diz serem forças que usam as redes sociais para espalhar informação que favorece a oposição, afrontando o governo legitimamente eleito: "Usa-se a Internet na tentativa de destruir os governos eleitos legitimamente através das redes sociais".
Embaixada dos EUA encerrada
A embaixada dos EUA no Zimbabué informou durante a noite que vai estar fechada ao público esta quarta-feira devido à "incerteza persistente" na capital do país, Harare.O exército tem sob custódia o Presidente Robert Mugabe e sua mulher, Grace Mugabe.


A embaixada anunciou o encerramento através da sua conta na rede social Twitter ao início do dia, pouco depois de se ouvirem as fortes explosões em Harare, onde foram vistos veículos militares nas ruas.

A embaixada adiantou que a presença de membros do staff iria ser reduzido ao mínimo durante o dia.
Mugabe em conflito com militares
O Zimbabué vive pela primeira vez uma divergência aberta entre o Presidente, que dirige o país desde 1980, e o exército.

A tensão escalou na semana passada depois de Mugabe, de 93 anos, ter despedido o seu vice-presidente e aliado de longa data, Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, que tinha estreitas ligações com os militares.As causas do "golpe" podem residir no conflito entre Emmerson Mnangagwa, com ligações fortes com os militares e há muito visto como o delfim do Presidente, e a mulher deste, Grace Mugabe.

Mnangagwa foi humilhado e demitido das suas funções, tendo fugido do país após um braço-de-ferro com a primeira-dama, que se diz ambicionar suceder a Robert Mugabe.


Na segunda-feira, o chefe das Forças Armadas, o general Constantino Chiwenga, condenou a demissão do vice-presidente do país, e avisou que o exército poderia "intervir" se não acabasse a "purga" dentro do Zanu-PF, partido no poder desde a independência do Zimbabué, em 1980.

O partido Zanu-PF, de Mugabe, reagiu no dia seguinte ao aviso sem precedentes, acusando o chefe das Forças Armadas de "conduta de traição", afirmando que as críticas do general Constantino Chiwenga destinavam-se "claramente" a perturbar a paz nacional e demonstraram uma conduta de traição, "já que foram feitas para incitar à sublevação".

Mnangagwa, há muito considerado o delfim do Presidente, foi humilhado e demitido das suas funções e fugiu do país após um braço-de-ferro com a primeira-dama, Grace Mugabe.

Figura controversa conhecida pelos seus ataques de cólera e dirigente do braço feminino do partido do marido, Grace Mugabe, de 52 anos, tem muitos opositores tanto no partido como no Governo.

Com este afastamento, fica na posição ideal para suceder ao marido, que, apesar da idade avançada e da saúde frágil, foi nomeado pela Zanu-PF como candidato às eleições presidenciais de 2018.
Oposição confiante
O secretário-geral do partido da oposição no Zimbabué, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC-T), Douglas Mwonzora, afirmou esta terça-feira que, perante a tensão vivida no país, estão "seguros de que o exército está em processo de tomar o comando".

Numa entrevista telefónica a partir do Zimbabué com o canal sul-africano ANN7, Mwonzora reiterou: "Esta é a definição padrão de um golpe de Estado. Se isto não é um golpe, o que será?".

Mwonzora acrescentou que o partido governante, a União Nacional Africana do Zimbabué - Frente Patriótica (ZANU-PF) "estão em fase de negação, mas que já não têm o controlo".

A propósito da mensagem que um porta-voz do exército leu na televisão nacional esta noite, em que descartou que estivesse a ocorrer um "golpe militar", Mwonzora considerou que "é um comunicado normal quando os militares intervêm".

"Há muito ressentimento contra (o Presidente) Robert Mugabe e a sua esposa (Grace)", sublinhou o político da oposição, que pediu aos cidadãos que "tenham cuidado", já que a "situação é anormal".

Embora o secretário-geral do MDC-T tenha dito que "é a hora de salvar o país", também afirmou que "não será permitido o derramamento de sangue".

O mesmo canal de televisão contactou um porta-voz do ZANU-PF, Kennedy Mandaza, que se encontrava na África do Sul, e que apenas disse que "está a seguir de perto o desenvolvimento da situação no Zimbabué".

A conversa telefónica com Mandaza caiu após ser questionado pelo paradeiro do Presidente Mugabe.


c/ Agências

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