O que é e como opera a Guarda Revolucionária do Irão?

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), braço armado do líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, é uma força altamente organizada, acusada pelo Ocidente de orquestrar e até de participar na repressão do amplo movimento de protestos que se vive no país.

Cristina Sambado - RTP /
Morteza Nikoubazl - NurPhoto via AFP

Os "Pasdaran" ("Guardiões" em persa) foram criados em 1979 pelo líder supremo, logo após a Revolução Islâmica, "a fim de propagar os ideais da Revolução Islâmica", explicou à AFP Clément Therme, investigador associado do Instituto Internacional de Estudos Iranianos. "É um exército de 150 mil a 180 mil pessoas ao serviço de uma ideologia".

Fonte diplomática ocidental, citada pela France-Presse, sob anonimato, sugere um número próximo dos 200 mil.Além da ideologia, "é uma força armada que funciona como um exército de elite com capacidades terrestres, marítimas e aéreas, mas é mais bem treinada, mais bem equipada e mais bem remunerada do que o exército regular", sublinha a fonte.

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) serve também como intermediária de Teerão com os seus aliados na região, como o Hezbollah no Líbano e as Forças de Mobilização Popular (PMF) no Iraque.


Constitucionalmente, todos os seus responsáveis são nomeados pelo líder supremo.

Em junho passado, Ali Khamenei nomeou Mohammad Pakpour como o novo chefe, sucedendo a Hossein Salami, que foi morto em ataques aéreos israelitas. Pakpour é um veterano da Guerra Irão-IraqueQuais são os recursos?
"É um império dentro de um império", destacou David Khalfa, referindo que a CGRI detém ou controla empresas em todos os setores estratégicos da economia iraniana.

"Detêm um quase monopólio", seja nas infraestruturas (portos, transportes, barragens, etc.), na energia (gás e petróleo), na tecnologia, nas telecomunicações ou nos setores financeiro e bancário.

O seu orçamento militar está estimado entre os seis e nove mil milhões de dólares por ano, ou cerca de 40 por cento do orçamento militar oficial do Irão, segundo dados recolhidos pelo investigador. "Controlam de facto a economia iraniana."
Como operam?
A Guarda Revolucionária estabeleceu uma vasta rede de inteligência que é "a mais extensa e eficaz do regime iraniano", explicou à agência AFP David Khalfa, investigador da Fundação Jean-Jaurès.

São capazes de desmantelar meticulosamente redes de protesto em tempo recorde, identificando os líderes de um movimento de protesto em questão de minutos.

Contam com uma milícia paramilitar (a Basij), recrutada sobretudo entre os jovens, que atua como uma organização ideológica infiltrada em todas as instituições e a todos os níveis da sociedade.

Segundo David Khalfa, com base em dados compilados por vários think tanks norte-americanos, o número de manifestantes varia entre os 600 mil e os 900 mil.Que papel que desempenham na repressão atual?
"Desempenham um papel central na repressão porque hoje, mais do que nunca, são o pilar do regime iraniano, o pilar da sua continuidade, da sua sobrevivência", esclareceu David Khalfa.

"Estabeleceram uma linha política e operacional em relação às manifestações: tolerância zero", acrescenta.

Daí o número considerável de mortos, mais de dois mil em duas semanas, segundo as ONG.Os especialistas acreditam que, no início dos protestos, a Guarda Revolucionária estava provavelmente a atuar nos bastidores, apoiando-se nas forças de segurança locais e na Basij.

Mas "desde o início que comandam o aparelho repressivo", "coordenam a repressão sistemática", sublinhou David Khalfa, nas declarações à AFP.

Com a continuidade dos protestos, mobilizaram as suas forças terrestres e unidades especiais, explicou o investigador. E numa "estratégia de negação" da sua responsabilidade, "estão a operar à paisana", acrescentou Clément Therme, para não serem "diretamente responsabilizados por violações dos direitos humanos"É uma organização terrorista?
Já em 2019, os Estados Unidos designaram a Guarda Revolucionária como uma organização terrorista pelo Departamento de Estado.

As autoridades europeias, incluindo membros do Parlamento Europeu, têm vindo a solicitar nos últimos dias à União Europeia que aumente a pressão sobre as autoridades iranianas, exigindo, entre outras coisas, que designe também a Guarda Revolucionária Islâmica como uma organização terrorista.

A Alemanha, em particular, é alegadamente favorável a isto, uma vez que a Força Quds, a unidade de elite da Guarda Revolucionária Islâmica que opera no estrangeiro, é suspeita de estar por trás de um ataque a uma sinagoga na Alemanha em 2021, segundo uma fonte diplomática.
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