Sindicatos mobilizam-se contra "declaração de guerra"

O conteúdo do Orçamento do Estado para 2012 é lido pela CGTP como “uma declaração de guerra” e um “programa de agressão aos trabalhadores, ao povo e ao país”. Arménio Carlos, da Comissão Executiva da Intersindical, mostrou-se hoje convencido de que os portugueses vão “responder em força na luta” contra a política de austeridade. “Insensibilidade” é aquilo que a UGT encontra na proposta do Governo. Em convergência no caminho para mais uma greve geral, as centrais sindicais prometem mover um combate sem tréguas a “um Orçamento de crise”.

RTP /
Os secretários-gerais da CGTP e da UGT alinharam posições para a marcação de uma greve geral contra a austeridade Mário Cruz, Lusa

A proposta de Orçamento do Estado que o Governo fez ontem chegar à Assembleia da República configura, na avaliação da CGTP, “uma declaração de guerra”. “Aposta na penalização daqueles que fizeram sempre sacrifícios, trabalhadores pensionistas, desempregados e jovens”, reagiu esta segunda-feira Arménio Carlos, da Comissão Executiva da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses.

Em declarações à agência Lusa, o dirigente sindical conclui que há uma “linha desumanizadora” subjacente às medidas que o Governo quer aplicar a partir do próximo ano, do agravamento da carga fiscal à suspensão dos subsídios de férias e de Natal para pensionistas e trabalhadores da Função Pública e de empresas do Estado, ou o congelamento nominal de salários destes profissionais. Uma política que passa por “roubar aos pobres para enriquecer os ricos de sempre”.

É por isso que a Intersindical acredita que os portugueses vão “responder em força na luta contra estas medidas injustas e imorais que levam ao empobrecimento geral do país”.

“Um Orçamento de crise”
Na noite de segunda-feira, conhecido o teor do Orçamento de 2012, o secretário-geral da UGT reprovava o Governo por se limitar a impor “medidas de caráter financeiro e monetário, ignorando as políticas viradas para a economia, crescimento e emprego”. “De bom não vemos nenhuma medida a não ser com o objetivo de cumprir o défice à custa dos trabalhadores e dos pensionistas”, criticou João Proença, citado pela Lusa.

O dirigente da União Geral dos Trabalhadores esperava “ver incluídas no documento medidas que atendessem às dificuldades com que muitas famílias vão ser confrontadas”: “Porque não é impunemente que cortam o salário de muita gente em mais de 15 por cento, não é impunemente que se agrava o desemprego com o alargamento do horário de trabalho de alguns”.

“Não pode haver uma política do posso, quero e mando, que vai muito para além do Memorando de Entendimento com a troika, e há muitas medidas que aparecem com uma necessidade que não é minimamente justificada”, rematou João Proença, para quem o documento ontem apresentado pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, só pode ser visto como “um Orçamento de crise”.

“A resposta que este Governo merece”
É na quarta-feira que CGTP e UGT devem anunciar a data de uma nova greve geral conjunta. A última realizou-se a 24 de novembro de 2010. Os secretários-gerais das estruturas, João Proença e Carvalho da Silva, explicavam ontem, em conferência de imprensa, que a paralisação era o resultado de um “grande grau de convergência de preocupações” e constituiria uma resposta “à intensificação da exploração” dos trabalhadores e ao empobrecimento do país.

A iniciativa das centrais sindicais mereceu o aplauso do secretário-geral do PCP, que realiza hoje em Lisboa o seu próprio “desfile de indignação e protesto” contra as “medidas brutais” do Orçamento do Estado. À entrada para mais uma sessão do Clube dos Pensadores, em Gaia, Jerónimo de Sousa afirmava na segunda-feira à noite que a greve geral “não vai ser um ponto de chegada”, mas antes “um patamar mais alto” de uma luta “que vai ter de continuar”.

Mais tarde, durante e após o debate, o secretário-geral dos comunistas tornaria a defender a renegociação da dívida portuguesa, uma via rejeitada pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, em entrevista à RTP. “Vai dizendo que não e outros dirão que não até ao fim, mas o grande problema é que depois desta questão do défice das contas públicas virá a dívida e os juros e as primeiras tranches a pagar”, criticou Jerónimo de Sousa, que evocaria o exemplo da Grécia: “Todos diziam que não era possível renegociar a dívida. Hoje, perante o risco de colapso, já estão a fazer um perdão”.

Se o Bloco de Esquerda, pela voz da deputada Ana Drago, considera “uma excelente notícia a realização de uma greve geral”, porque “não é possível seguir no caminho dos cortes sobre cortes e mais cortes”, o maior partido da Oposição limita-se, para já, a afirmar que “compreende as razões da indignação e do protesto”. O porta-voz da direção do PS, João Ribeiro, garantia ontem que o partido iria “observar com atenção as manifestações e a greve geral”.
PUB