Eriksson: “Durante a minha ausência o futebol português tornou-se sujo”

Sven-Goran Eriksson lançou a sua biografia (“My Story – “A Minha História”) onde revela que após a primeira presença no Benfica como treinador, o futebol português tornou-se mais sujo e sujeito a mais escândalos. O técnico sueco que agora encontra-se no Guanghzou Evergrande, da China, relatou um episódio com Pinto da Costa no antigo Estádio das Antas.

Inês Geraldo, RTP /
Sven-Goran Eriksson treina os chineses do Guanghzou Evergrande TT News Agency - REUTERS

“Durante a minha ausência de cinco anos do comando técnico do Benfica, o futebol português tornou-se mais sujo, estavam sempre a acontecer muitos escândalos e havia muitas conversas sobre árbitros. Nessa altura, o FC Porto tornou-se o maior clube de Portugal”, disse Eriksson referindo-se à segunda passagem pelo clube da Luz.

O treinador sueco também falou sobre os três grandes portugueses. Na sua ausência, Eriksson afirmou que a equipa do Sporting começou a ficar para trás, havendo apenas dois clubes grandes em Portugal: o Benfica e o FC Porto.Na época de 1989/1990, os encarnados chegaram à final da Taça dos Campeões Europeus com um golo polémico do angolano Vata. Eriksson revelou que apesar de o Benfica ter uma grande equipa, o campeonato português não era prioritário. O sueco apontou baterias para a competição europeia.

“O Benfica tinha uma excelente equipa, capaz de ganhar o campeonato mas ao fim de cinco jornadas o FC Porto tinha o favoritismo do seu lado. Quisemos então focar-nos na Taça dos Campeões europeus, a mais prestigiante das competições”, continuou o treinador no seu livro.

O jogo da discórdia aconteceu no Estádio da Luz, no dia de Abril de 1990. Após perder o jogo da primeira mão no Estádio Velodróme por 2-1, os encarnados venceram em terras portuguesas com um golo de Vata. A mão do angolano que deu a final da Taça dos Campeões Europeus ao Benfica frente ao AC Milan.

“De onde estava não consegui ver como o golo foi marcado mas a bola foi ter com Vata e entrou na baliza. Os jogadores do Marselha protestaram furiosamente por ter marcado com a mão mas o golo acabou por valer. Perguntei-lhe na cabine como tinha sido e não me respondeu”.

“Disse-lhe que não estava zangado e Vata levantou-se e disse-me com que parte do braço marcou. Tínhamos ganho e estávamos na final”.

Na partida decisiva, o Benfica não conseguiu suster o AC Milan e o holandês Frank Rijkaard que marcou o único golo desse jogo e deu a vitória ao colosso italiano. Eriksson recorda que ficou furioso por perder, não pelo favoritismo italiano mas por ter estado tão perto do seu objetivo.

A preparação nos corredores do Estádio das Antas

Da época 1989/1990, Sven-Goran Eriksson lembrou um episódio no antigo Estádio das Antas. Em jogo para o campeonato, FC Porto e Benfica defrontaram-se. Os balneários só abriram para os visitantes uma hora antes de a partida começar.

E Eriksson lembra a troca de palavras com o presidente portista, Pinto da Costa. O sueco recorda que se tornou no homem mais poderoso do futebol português. Disse-lhe que os regulamentos previam que os balneários só abrissem uma hora antes do jogo.

O presidente do Porto acrescentou que apesar de respeitar Eriksson, “guerra é guerra”. E lembra a entrada na cabine: “quando entrámos, descobrimos que o balneário tinha sido pulverizado com um químico que não deixava os nossos jogadores respirarem. Os atletas equiparam-se nos corredores”, concluiu.

Apesar da altercação, o Benfica acabou por ganhar esse jogo por 2-0, com dois golos de César Brito, numa vitória que levou à conquista do campeonato.

A surpreendente dimensão de Eusébio em Moçambique

Após falhar a conquista da terceira Taça dos Campeões Europeus, o Benfica realizou a pré-época 1990/1991 em Moçambique. Nessa altura, Sven-Goran Eriksson percebeu a importância de Eusébio no país.

“Quando o autocarro parou, Eusébio saiu. Todos estavam parados a olhar para ele. Eusébio fez um gesto de saudação e um pequeno rapaz chegou-se à frente. Aproximou-se devagar e tocou-lhe na mão e sem mais nem menos a população entrou em erupção”, disse.

“Foi incrível. Foi como se ninguém acreditasse que Eusébio era real e o toque daquele rapaz o tivesse tornado numa realidade para aquelas pessoas. Não tinha ideia da dimensão de Eusébio em África”, concluiu.

Episódios em Terras de Sua Majestade



Sven-Goran Eriksson passou alguns anos à frente do comando técnico da seleção inglesa e ainda chegou a treinar o Manchester City. O técnico sueco contou também várias peripécias que passou em Inglaterra, especialmente uma em que esteve prometido como treinador do Manchester United em 2002.

Foi-lhe oferecido, por duas vezes, um lugar no Chelsea que não foi aceite. Em 2002, Alex Ferguson anunciou a sua reforma e Eriksson foi o treinador escolhido para suceder ao já retirado treinador escocês. No entanto, Ferguson voltou com a sua vontade atrás e continuou por mais dez anos em Old Trafford.

No seu livro “My Story”, o técnico sueco aborda também outras duas situações: a compra de David Beckham por parte do Real Madrid e o conselho que deu a Roman Abramovich para comprar o Chelsea em vez do Tottenham.

Em relação ao antigo internacional inglês, Eriksson lembrou que em 2003 recebeu chamadas de profissionais do Real Madrid para saber se estariam a comprar um “playboy” ou um bom profissional, já que David Beckham foi treinado pelo sueco enquanto esteve na seleção inglesa.

Sven-Goran Eriksson assegurou que o Real Madrid compraria um profissional dedicado mas também avisou sobre o grande interesse dos media no jogador. Um responsável madrileno voltou a telefonar um mês depois para agradecer as indicações do treinador sueco sobre o internacional inglês.
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