FC Alverca tenta recuperar tempos áureos RTP

Artur Moraes. "Vim para o Alverca para recuperar uma história do futebol português"

Entrevista de Artur Moraes, colaborador do FC Alverca, à RTP.

Teve uma carreira longa como guarda-redes, onde se destacou no Sporting de Braga e Benfica. Pendurou as botas e não se afastou do futebol. Artur Moraes é agora colaborador do Futebol Clube Alverca, que tenta reerguer-se das cinzas. Como um dos novos investidores, o antigo jogador afirmou que quer reescrever história num clube com muita tradição, o maior do Ribatejo. Pelo meio declara o seu amor pelo Benfica, revela que Taffarel é o seu grande ídolo, elogia o trabalho de Jorge Jesus no Flamengo e fala sobre a experiência na Chapecoense, depois do trágico acidente que vitimou a equipa em Medellín.

Os anos dourados aconteceram entre 1998 e 2002. Quatro temporadas seguidas a jogar na I Liga Portuguesa foi o melhor que o FC Alverca conseguiu no primeiro escalão do futebol português. Os ribatejanos regressariam na época 2003/04 mas foram relegados, afastando-se do pináculo do futebol em Portugal

Passou por várias dificuldades mas está preparado para renascer. Artur Moraes, antigo guarda-redes de Benfica e Sporting de Braga, investiu no clube e agora o objetivo é atingir a profissionalização que já teve noutras alturas.

Entrevistado pela RTP, Artur Moraes disse que por estes dias vive e respira Alverca. Anunciado como o “Maior do Ribatejo”, o Alverca projeta um crescimento sustentável que, a longo prazo, possa trazer o clube onde já esteve antes.
“É algo muito complexo, aos poucos as coisas vão acontecendo, com muita paciência, com muita tranquilidade e muita calma para levar este clube ao que era no passado”.

Agora colaborador dos ribatejanos, Artur Moraes explicou que o objetivo passa por restruturar todo o clube colocando-o novamente nas competições profissionais, com a formação a ter um papel de destaque.

“Tradicionalmente o Alverca sempre revelou grandes jogadores. Temos exemplos como o Maniche, Ricardo Carvalho, Deco, Caju, Rafa [Silva], André Almeida. Há um historial de grandes jogadores e o Alverca é um ponto de referência no futebol português”.

Para além de evocar o passado, Artur Moraes afirmou que quer escrever também ele a história do clube, criar novas memórias que recuperem a mística de um clube que foi de I Liga. Com a experiência do presidente Fernando Orge, o antigo guardião do Benfica espera passar os ensinamentos de uma carreira aos os jogadores do clube, para poderem absorver o sentimento de ser do Alverca.
A carreira como guarda-redes
A tentar revitalizar um histórico do futebol português, a carreira de Artur Moraes é indissociável do campeonato português. Com uma estreia auspiciosa no Sporting de Braga, o antigo guardião passou também quatro anos no Benfica e terminou a carreira no Desportivo das Aves.

A vocação para a baliza começou pelos oito anos, como revela à RTP.
“Foi aos oito anos, num torneio que disputei com outras crianças em que perguntaram quem eram os guarda-redes, e eu, voluntariamente, levantei o braço e a partir daí comecei a jogar na baliza e comecei a ter um pequeno destaque e foi um caminho sem volta”.

A estreia profissional deu-se no Paulista de Jundiaí e na Europa foi pelo Cesena que fez os primeiros jogos. “A primeira experiência em jogo oficial foi na Itália, a jogar na II Divisão, pelo Cesena. Se não me engano ganhámos o jogo por 2-1”.

Representar a AS Roma por dois anos foi um sonho de criança cumprido e uma aprendizagem que o trouxe para Portugal. Em 2010, Artur Moraes chegou ao Sporting de Braga onde mostrou credenciais que o levaram ao Benfica no ano seguinte.

De Braga, ficaram memórias de um plantel que jogou o acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões e acabou por cair para a Liga Europa. Numa prova sem falhas, a equipa chegou à final, em Dublin, onde perdeu por 1-0 com o FC Porto.

“Todas as finais que se perdem custam muito. Estar na final já era um lucro muito grande para nós. Todos os jogadores encararam aquela final como um jogo diferente mas custou”.
Benfica: o momento alto da carreira
Depois de brilhar em Braga, Artur Moraes reforçou o Benfica. O antigo guarda-redes considera que foi o melhor momento da carreira já que chegou ao clube da Luz na melhor forma física, acrescentando que pôde fazer parte de grandes partidas em ambientes intensos, caso da Liga dos Campeões.
Artur Moraes não escondeu a admiração que ainda sente pelo Benfica e revelou que se identificou de imediato com a filosofia do clube, tendo-o vivido a 100 por cento.

“No Benfica consigo fazer jogos importantes, em ambientes importantes, fazer jogos de Liga dos Campeões, conquistar campeonatos importantes pelo Benfica e depois toda a minha identificação com o clube”.

Para o antigo guardião encarnado, a festa dos benfiquistas no Marquês de Pombal deve ser um ponto de referência para qualquer jogar que represente o Benfica, descrevendo o momento como “inesquecível”.

É uma das melhores memórias que guarda do Benfica, às quais junta a chegada a duas finais da Liga Europa e todas as partidas que disputou pelo clube encarnado na Liga dos Campeões, especialmente no Estádio da Luz. Sobre os colegas com quem teve de partilhar baliza, especialmente Oblak e Júlio César, Artur Moraes explica que a rivalidade foi saudável, própria de quem luta por um lugar a titular.

“Foi algo normal, algo sadio, algo profissional entre guarda-redes que lutavam para jogar”.
O trabalho e elogios a Jorge Jesus
Enquanto representou o Benfica, Artur Moraes foi treinado por Jorge Jesus. Do técnico de 65 anos, o antigo jogador diz ter sido o melhor treinador que teve e revelou guardar muitos ensinamentos, que hoje tenta replicar no projeto que integra.

“Trabalhar com Jorge Jesus foi algo especial, foi algo intenso. É viver o futebol de maneira apaixonada todos os dias e foi o melhor treinador com o qual tive a oportunidade de trabalhar, que mais me ensinou, que mais acrescentou na minha carreira como jogador e o maior ensinamento que tive dela foi a exigência”.

Exigência que por estes dias tenta passar para os jogadores do Alverca, tentando-lhes mostrar que todos os jogos são passíveis de ser vencidos.

“Hoje o Alverca é um projeto que estamos a construir praticamente do zero e aquilo que aprendi e implemento é a mentalidade de vencer todos os dias. As pessoas que trabalham no Alverca têm de sentir prazer em ganharem os jogos, ter o prazer de vencer campeonatos. Não sei se vamos vencer mas vamos trabalhar para isso. O compromisso com a vitória aqui é diário”, explicou.
Por estes dias, Jorge Jesus treina o Flamengo e é líder do Brasileirão, com uma vantagem de cinco pontos para o segundo classificado, o Palmeiras. Artur Moraes comentou o registo do treinador português e mostrou-se feliz pelo trajeto de sucesso que Jesus tem trilhado num futebol muito diferente.

“O futebol brasileiro precisava de um treinador como ele, que pudesse ir ali e acrescentar algo de diferente, principalmente em termos de metodologia, mentalidade e exigência com o jogador brasileiro. Eu vejo com bons olhos, acho que era um momento que o futebol do Brasil precisava e torço para que tenha sucesso”.
A passagem pela Chapecoense
A 28 de novembro de 2016 o mundo acordava com a notícia da queda do avião da companhia aérea LaMia em que estava presente a Associação Chapecoense de Futebol. Morreram mais de 70 pessoas, entre jogadores, staff técnico, jornalistas e tripulação.

Um dos piores desastre aéreos conhecidos no desporto também fez parte da carreira de Artur Moraes. Pouco depois do fatídico acidente em Medellín, o guardião juntou-se à Chapecoense, na tentativa de reconstruir um clube que perdeu tudo.

O agora colaborador do Alverca lembra que aceitou o desafio como forma de representar e ajudar um clube, uma cidade, uma identidade.
“[Jogar pela Chapecoense] representou um gesto humano, estender a mão para ajudar. Acho que foi um ato de coragem e só meses depois é que percebi que não tinha ideia daquilo que iria encontrar mas foi um ato de coragem e um ato de orgulho por ter aceitado um desafio tão difícil, algo que não era só jogar futebol, era muito que isso e hoje tenho orgulho em ter participado nesse processo”.

Lembrando que a realidade que enfrentou era uma muito diferente daquela que esperava, Artur Moraes fez questão de dizer que o clube teve de se reerguer “abaixo do zero” e que não houve segundas intenções aquando da aceitação do desafio.

“Fomos de peito aberto, para abraçar uma causa e reconstruir uma equipa”.
Futuro passa por Alverca
Depois de uma carreira ligado às balizas, Artur Moraes revela que o futuro não pode ser previsto mas que está investido na realidade do Futebol Clube de Alverca. Acompanhado por um cartaz com as palavras “O Maior do Ribatejo”, o antigo jogador mostra-se motivado com o trabalho que tem pela frente no clube.

“Praticamente vivo aqui dentro [do estádio] e espero colocar o clube de volta a aquilo que era no passado”.