Correr (em) Lisboa há quatro anos

"Correr por gosto não cansa", diz um ditado antigo. Será que correr é hoje um desporto coletivo, uma necessidade física, um escape social ou uma questão de moda? São cada vez mais os adeptos que, durante o dia, surgem sozinhos ou em grupo a correr pelas ruas da cidade de Lisboa. Razão que fez nascer, há quatro anos, um pequeno grupo amigo das corridas: Correr Lisboa.

A semana é curta, a vida saudável também. Para a fazer render é preciso correr, explica Bruno Claro, de 36 anos, fundador do grupo Correr Lisboa.

Mas o que é realmente o Correr Lisboa?

"O Correr Lisboa é uma comunidade de pessoas que se junta todos os dias da semana para correr”. Não todos os dias, mas quase. E só para quem quer, segundo Bruno Claro.

A comunidade surgiu há quatro anos e começou por ser uma rede social para corredores com um objetivo claro: “Encontre um amigo para correr”.

Com o tempo o grupo foi ficando maior, até ao ponto em que se sentiu a obrigatoriedade de criar pontos estratégicos e permanentes onde se podia praticar a modalidade.

Atualmente, são mais de um milhar os embaixadores do Correr Lisboa que vestem a "camisola amarela", oferecida pela organização, que apresentam, dizem, “orgulhosamente” nas diversas corridas que fazem um pouco por todo o mundo.

“Empregados de limpeza, procuradores, assessores, vereadores, temos de tudo no Correr Lisboa", diz Bruno Claro. "Temos desde os 17, 18 anos até aos 70 anos", acrescenta.


Além de ser saudável, correr não implica muitos gastos e, para entrar para esta comunidade, "apenas necessita de ter vontade de correr, animação e muita energia", refere Bruno com um sorriso no rosto.

"O Correr Lisboa é gratuito. Nós acreditamos no desporto gratuito e acessível a todos. Para treinar connosco basta aparecer nos dias dos nossos treinos e juntar-se ao grupo".

E esta comunidade não tem apenas "cansaço e esforço" para oferecer, sublinha Bruno Claro. "Além do grande espírito de grupo e um forte convívio, os mais assíduos recebem gratuitamente a camisola Correr Lisboa. A unica coisa que se pede é que a usem com carinho e dedicação durante as provas que eventualmente possam realizar".

Onde encontramos o Correr Lisboa
Os primeiros encontros realizaram-se há quatro anos nos espaços exteriores da Cidade Universitária, junto ao refeitório da universidade, agora são cinco os pontos semanais onde a comunidade de atletas amadores se junta para treinar.

  • A semana de treino começa às segundas-feiras, com a regular ginástica de pré-aquecimento, junto ao espaço comercial Decathlon, na Avenida António Augusto Aguiar, às 19h30;
  • Nas terças-feiras, o ponto de encontro é nas escadarias do refeitório da EUL - Cidade Universitária (19h15);
  • Às quartas-feiras, Odivelas (19h30), em frente ao Pavilhão Multiusos, ainda nesse dia, às 20h30, para os mais exigentes, existem treinos específicos e dedicados na Pista de atletismo Professor Moniz Pereira, na Ameixoeira;
  • Nas quintas-feiras, Parque das Nações (19h30), na Rua Comandante Cousteau, perto da Torre Vasco da Gama;

Todos os treinos contam com guias do Correr Lisboa, que ajudam os participantes a realizar um percurso pré-definido e com tempos de corrida pré-estabelecidos: 6m30s,6m (iniciação), 5m30s, (intermédio), 5m, 4m30 (rápido), no Parque Eduardo VII e EUL, Odivelas e Parque das Nações, entre cinco e sete minutos.

Existe também a possibilidade de caminhada em grupo, quando o número de elementos é suficiente para a sua realização.

Todos, sem exceção, no final do treino, com duração aproximada de 40 minutos, têm acesso a água engarrafada ou bebida isotónica, seguidas de alongamentos de descompressão.



Os que ainda não tiveram oportunidade de conhecer esta comunidade ou que tenham menos aptidão para a corrida, podem sempre encontrar o Correr Lisboa através do facebook ou diretamente na página oficial do grupo de corrida.
Um guia para cada velocidade
Correr não é a profissão oficial, mas todos os dias vestem a camisola do Correr Lisboa para servirem de guias às dezenas - por vezes centenas - de pessoas que procuram esta modalidade.

Ser guia nesta comunidade é mais do que o título, é ser um parceiro de corrida com quem se conversa e se discute qualquer outro assunto, que até pode estar à margem do meio, porque correr é só o pretexto.

Cátia Nascimento e Pedro Serra são dos primeiras guias a entrar para esta aventura. Ao fim de quatro anos, afirmam que não estão arrependidos.

"A proposta foi feita da minha parte ao Correr Lisboa, já corro com eles desde 2013 e era uma coisa que eu queria já há algum tempo", refere Cátia.

Pedro sente esta função como uma forma de "dar oportunidade a pessoas de conhecerem a corrida e sentir que as ajudo a atingir um objetivo."

Atualmente e no conjunto dos cinco pontos de treino espalhados pela cidade existem 18 guias, correndo estes com tempos pré-estabelecidos entre os 4,5 minutos até aos sete minutos por quilómetro.


Um "Vicente" em cada corredor
Com o nascimento desta comunidade e com o lema “Juntos vamos pôr Lisboa a Correr”, houve a ideia de criar um símbolo.

"A nossa mascote é o Vicente, que é o padroeiro da cidade de Lisboa, aqui representado por um dos corvos que acompanhou a caravela até à cidade", explica Bruno Claro.



Aproveitando a lenda de São Vicente e dos dois corvos que acompanharam a nau do mártir até Lisboa, o rosto do Correr Lisboa adotou a imagem de um corvo, sob fundo amarelo, na sua representação gráfica. Uma imagem cada vez mais comum nas centenas de provas existentes e Portugal e no mundo.

Apesar de ser o organizador principal do Correr Lisboa, Bruno Claro diz que "o Correr Lisboa são todos, assim como todos aqui são Vicentes".

Assessor na área de tecnologia de informação, na Câmara de Lisboa, Bruno diz dedicar o tempo que ainda lhe sobra à promoção da corrida comunitária.

Sorrindo, realça: "E claro, à minha mulher, que também aqui anda, e as minhas duas filhotas pequenitas."


Fomos feitos para correr?
O corpo humano foi feito para se movimentar e uma das atividades mais simples e baratas é a corrida. Basta um bom par de ténis, uma t-shirt e uns calções confortáveis. E força de vontade.

No entanto, antes de começar, há alguns conselhos a levar em conta:
  • Antes de tudo, consultar um médico, procurar saber se as condições de saúde são as mínimas para a prática da modalidade;
  • Começar devagar. Se nunca correu, pode sempre optar, inicialmente, por caminhar e de vez em quando correr;
  • Estabeleça um objetivo simples e ligeiro para dar mais direção ao seu treino e motivação. Os cinco quilómetros são um dos pontos desafiantes antes das grandes distâncias;
  • Variar nos treinos. Criar e manter uma sequência de estímulos diferentes servirá para melhorar o condicionamento físico, com treinos intervalados entre subidas e corridas mais longas e mais curtas;
  • Os treinos de fortalecimento também são extremamente importantes para evitar lesões. Se puder, além da corrida, realizar exercícios de extensão, flexão de quadril e agachamentos, estes vão ajudar a fortalecer a musculatura dos joelhos;
  • Se possível, saiba quanto tempo dura o treino versus os quilómetros percorridos. Sempre que possível tente ir um pouco mais longe nos seus limites, nem que seja poucos minutos por dia, mas respeite o esforço do corpo e lembre-se de que quando estiver muito cansado é hora de parar;
  • Mude de preferência os hábitos alimentares, enriquecendo a alimentação com boas fontes de ferro, como carne vermelha, feijão, folhas verdes escuras, lentilha, e com os carbo-hidratos, para fornecerem energia para os treinos como arroz, massa e pães integrais. Aposte ainda em gorduras boas como o azeite, nozes e sementes oleaginosas;
  • Não esquecer a água, porque pior do que uma insolação é uma desidratação, mas há que ter em atenção que tudo o que é demais também não ajuda e correr com a barriga plena de água não é agradável;
  • Correr de preferência pela manhã, final da tarde ou à noite, sem esquecer que na cidade, muitas vezes, não há pistas dedicadas à prática da modalidade, aconselhando por isso ao uso de roupa clara e/ou refletora.
"Custa" muito correr?
O esforço que se faz nesta modalidade pode ir muito além do físico. Há que acrescentar, por vezes, mais e melhor equipamento e o próprio custo das provas, como explica à RTP Bruno Claro.

"Correr pode vir a ser dispendioso. Correr de uma forma simples não é dispendioso. Se uma pessoa quiser correr em provas, todos os fins de semana, comprar os melhores ténis, os melhores equipamentos, poderá ficar mais caro do que ir ao ginásio.  Agora se correr de uma forma livre, com os recursos que temos em casa, é quase gratuito."


Uma corrida diferente para cada perfil
Correr de forma amadora não só é uma forma de estar, é também uma forma de viver, razão pela qual não basta correr por correr. É preciso saber escolher qual o tipo de corrida e distância a fazer.



Este é o tipo de corrida mais comum entre a comunidade de atletas amadores. Realiza-se, na grande maioria, em vias urbanas pavimentadas e planas. As distâncias mais comuns são cinco quilómetros, dez quilómetros, 21 quilómetros (meia-maratona) e 42 quilómetros (maratona).

Entre as provas portuguesas mais conhecidas:

  • Meia Maratona de Lisboa – Ponte 25 abril – março
  • Meia Maratona d'Douro Run – 25 de junho
  • Meia Marotona do Porto - 17 de setembro
  • Maratona de Lisboa – Ponte Vasco da Gama – 15 de outubro
  • São Silvestre Lisboa e Amadora – dezembro
  • Corrida de Natal (EDP) Lisboa - dezembro

Corta-mato

Os percursos são feitos em relva, podendo ou não ter obstáculos naturais. Nas competições oficiais, as distâncias são de 12 quilómetros na categoria adulto masculino, oito quilómetros nas categorias adulto feminino e juvenil masculino, seis quilómetros na categoria juvenil feminino e quatro quilómetros nas categorias adulto masculino e feminino, prova curta.

As corridas de corta-mato, geralmente, são pouco praticadas pelo público, mas muito indicadas para os treinos de fortalecimento muscular.

Trail

É caracterizada pelo intenso contacto com a natureza. Esta realiza-se em trilhas, bosques, florestas e praias, com obstáculos naturais, como travessias de rios. As distâncias variam entre os cinco e os 100 quilómetros e podem ser praticadas por todos os públicos.

Convém ter uns ténis adequados à modalidade e um bom saco de transporte (Camelbag) para comida e água.

Correr Lisboa, Porto, Faro, Madrid, Paris…
Com o sucesso já garantido em Lisboa e a expansão da comunidade dentro da capital e fora dela (Odivelas), Bruno Claro explica que a ideia inicial é criar novos núcleos, com o mesmo espírito, fora da zona geográfica atual.

"A grande ideia inicial, quando nasceu o Correr Lisboa, foi um correr em cada cidade. Correr Porto, Correr Viseu, Correr Madrid… Quando lançámos a aplicação, porque era digital, tudo era possível. Agora acreditamos que, mais na capacidade de organizar e juntar as pessoas, se torna mais difícil criar tantas cidades, mas o que queremos acreditar é que o Correr Lisboa inspirou muitas outras pessoas a criar um correr no Porto, um correr em Setúbal, e que outras pessoas possam fazer aquilo que nós fazemos há quatro anos".