Tiago Fernandes em entrevista à RTP relembrou o pai Inês Geraldo - RTP

Tiago Fernandes em entrevista à RTP. "Sou um privilegiado por ser filho de uma pessoa que foi um craque"

Em Sarilhos Grandes vive-se o futebol de forma especial. Tiago Fernandes preside ao clube da terra e acolhe amigos e miúdos que querem juntar-se à sua academia para jogar futebol. Um projeto que mostra orgulho das suas raízes mesmo estando a caminho de Portimão na próxima temporada. A cidade algarvia será a nova casa do técnico de 43 anos que tentará criar uma equipa competitiva e fazer uma época de qualidade. Em conversa com a RTP, Tiago Fernandes falou do novo capítulo na carreira e relembrou, um ano depois da sua morte, o legado do pai, Manuel Fernandes, que muito o orgulha, tal como os 300 atletas que recebe no Juventude Sarilhense, desejando que "os miúdos sejam felizes".

Veja a entrevista completa de Tiago Fernandes à RTP

RTP Notícias: Gostava de começar por perguntar: porquê escolher Portimão como o próximo passo na tua carreira de treinador?

Tiago Fernandes:
Porquê Portimão? Portimão é uma cidade especial para mim. Tenho casa em Portimão há 45 anos. Desde que nasci vou para Portimão de férias e a minha infância foi muito passada na praia da Rocha e no ‘Zé do Lúcio’, uma cervejaria muito antiga onde somos tratados como família e vou voltar a estar lá com eles.

O Portimonense é um clube que me agrada bastante, a cidade também me trata bem e acho que é um clube que me dá todas as condições para seguir na minha carreira e acho que é o passo que devia dar neste momento, apesar de sacrificar um pouco a família porque vou para longe de casa. No entanto, é um passo importante para mim e estou feliz.

Como surge esta oportunidade de trocar Torres Vedras por Portimão?

Já tinha falado com algumas pessoas do Portimonense há uns tempos. No final da época, um amigo meu que tem um empresário com muita ligação Portimonense, combinou marcar um café, combinámos marcar um almoço com o presidente do Portimonense e numa entrevista, numa abordagem houve interesse de ambos os lados e apertámos a mão e combinámos como seriam as condições para mim e para a minha equipa técnica e ficou selado.

E qual seria para ti o grande objetivo do Portimonense para a próxima temporada?

O grande objetivo do Portimonense é ter uma equipa competitiva, uma equipa que jogue bom futebol, que consiga estar nos lugares cimeiros da classificação. Primeiro tentar criar condições para ter uma equipa que jogue bem, que tenha capacidade de lutar contra adversários que também são muito difíceis na II Liga para conseguirmos fazer um bom campeonato.

No ano passado estiveste no Torreense. Ficaram no quinto lugar, perto dos lugares de subida. Como é que descreves a temporada que passou enquanto treinador do Torreense?

Foi uma boa temporada. O facto de ter estado nos sub-23 no ano anterior permitiu-me levar muita gente dos sub-23 para a equipa principal do Torreense. Tínhamos uma base de miúdos com qualidade e talento e conseguimos pô-los a jogar a um nível elevado. Recrutámos outros jogadores que vieram de outras divisões de Espanha e também da Liga 3.

Depois com a chegada de um ou outro jogador com um bocadinho de mais experiência como o Rúben Pinto, o Stopira, o Pité, penso que fizemos uma equipa muito boa, muito equilibrada, com dois jogadores com qualidade por posição e foi uma época muito boa porque o objetivo era a manutenção e nós andámos a lutar pela subida até à última jornada. Fiquei feliz e orgulhoso de conseguir fazer um campeonato inteiro, o que não é fácil em Portugal.

Ter espaço para trabalhar e conseguirmos fazer uma época do princípio até final. Fui dos poucos treinadores que o conseguiu e isso também me permitiu no final da época ter algumas abordagens de outros clubes porque acho que o trabalho foi meritório.

Tendo em conta toda a temporada, o que achas que correu muito bem, correu menos bem e o que acabou por faltar? Se é que faltou alguma coisa. 

Penso que não faltou nada Penso que nós é que criámos uma expectativa por estar naqueles lugares em que ambicionávamos todos a determinada altura a subida de divisão, como é óbvio, não vou esconder, mas o nosso objetivo era fazer uma época tranquila, que foi o que me foi pedido pelo presidente.

Uma época tranquila, sem sobressaltos, porque nas últimas duas épocas eles [Torreense] tiveram que mudar de treinador em situações mais delicadas e ele [presidente] disse para fazer uma manutenção não sofrida, foram as palavras do presidente. Faz uma manutenção não sofrida, lança miúdos, precisamos de vender alguns jogadores, recuperar algum investimento que foi feito nos últimos dois anos.

E foi isso que fizemos, recuperar o investimento que foi feito e termos a capacidade de ter sucesso financeiro e termos sucesso desportivo também. O que faltou? Se o Vando [Félix] não tem saído em janeiro para o Vitória de Guimarães, nós teríamos uma arma muito importante para fazer a diferença na reta final da segunda volta. O Vando era claramente o nosso ‘Gyokeres’, como se o Sporting perdesse o Gyokeres, nós perdemos o Vando. 

Foi bom para o miúdo, foi bom para o clube mas é como tudo: não podemos querer o melhor de dois mundos, porque senti que naqueles últimos cinco jogos faltou um bocadinho de mais ajuda de algum jogador que fosse mais capaz de resolver alguns problemas no último terço. A II Liga é muito equilibrada, é muito homogénea entre clubes e ter estes jogadores faz toda a diferença.

Como é que achas que a experiência que tiveste no Torreense, de conseguir uma época de manutenção não sofrida, te vai ajudar esta época com o Portimonense?

Todos os anos são diferentes, temos que nos adaptar rapidamente para conseguirmos antecipar alguns cenários e conseguirmos conquistar pontos. A época do Torreense foi uma época de experiência em que ganhei mais 35 jogos como treinador. Como também já tinha tido no Estoril, no Leixões, ainda quando era adjunto do meu pai na II Liga na União de Leiria, no Vitória de Setúbal. Nós vamos adquirindo experiência ao longo do treino.

Felizmente comecei cedo e esta é a minha décima oitava como treinador. Penso que a experiência e a maturidade também nos faz ganhar algum calo e isso faz com que eu esteja preparado para este desafio e também estou motivado para encarar com naturalidade este desafio do Portimonense, que vai ser bastante difícil, porque como costumo dizer as equipas que desceram, não subiram. O Farense desceu, o Boavista desceu, o Vizela não subiu são mais três candidatos a subir, juntamente à União de Leiria, ao Desportivo de Chaves, ao Torreense, ao Marítimo, ao Leixões. São tudo equipas que querem subir de divisão.

Há dez, onze, doze candidatos a subir de divisão na II Liga este ano. Por isso temos de ter os pés bem assentes no chão. Não podemos querer almejar a algo sem primeiro termos uma equipa em condições para isso e vamos tentar formar uma equipa boa. Não é fácil mas vamos tentar formar uma equipa boa. A direção do Portimonense tem feito um esforço enorme para me dar todas as condições para fazermos uma boa época.

Sendo assim, achas irreal falar numa subida à I Liga ou pensas ser possível?

Não acho nem uma coisa, nem outra. Acho que temos de ter condições para o fazer e estamos a criar essas condições. Agora, não podemos dar passos maiores que as pernas. O Portimonense vai praticamente formar uma equipa toda nova e leva algum tempo até nós cimentarmos ideias e estarmos ao nosso melhor nível, sabendo que no futebol muitas vezes não há tempo para cimentar nada, temos que ganhar e os jogadores têm que perceber isso.

Quem joga no Portimonense tem de saber que tem essa obrigação de entrar em todos os jogos para ganhar. Agora, temos de ter noção das dificuldades que vamos ter e que a II Liga é bastante difícil mas vamos conseguir fazer um campeonato bom, disso não tenho dúvidas, vamos conseguir fazer uma boa época e depois logo se vê. São dez meses de competição, é muita competição. São muitos jogos, e jogo a jogo, passo a passo, sem aumentar muito a expectativa, vamos criar o nosso desafio.

E treinar na I Liga? É um objetivo voltares ao primeiro escalão do futebol português?

Todos nós treinadores temos esse objetivo de treinar na I Liga. As diferenças prendem-se pelo facto de jogares com equipas com maior visibilidade. As condições de trabalho são muito semelhantes, falo do caso do Portimonense que tem condições semelhantes a qualquer equipa da I Liga. O importante é eu estar focado no Portimonense e gostava de treinar o Portimonense na I Liga, isso é óbvio.

Treinaste o Sporting durante algum tempo. Tens como objetivo regressar ao clube do coração?

Neste momento o meu objetivo é treinar o Portimonense. Essa é uma pergunta que me colocam muitas vezes mas o meu objetivo neste momento é treinar o Portimonense. O Sporting está bem entregue. Desejo que o Sporting tenha sucesso e que faça um bom campeonato mas o meu objetivo neste momento é estar em Portimão, é desfrutar daquela equipa e também retribuir a confiança que me foi dada por parte da direção do Portimonense.

Falemos agora do teu pai, Manuel Fernandes. Sabemos o jogador que foi e a figura que foi para o futebol português, não só para o Sporting. Que ensinamentos deixou o teu pai, que conselhos e como é que os aplicas na tua carreira de treinador?

O meu pai era uma muito honesta e sincera. Lembro-me da altura em que subiu o Campomaiorense, teve uma proposta para ir treinar o Boavista que na altura estava na Liga Europa e não aceitou porque gostava muito das pessoas de Campo Maior, gostava muito daquela terra. Com o Santa Clara a mesma coisa. Quando subiu o Santa Clara teve a oportunidade de ir treinar para o Vitória de Guimarães e preferiu ficar nos Açores.

Eu sou um pouco assim também. Gosto de estar onde as pessoas me tratam bem e se estiver bem não tenho objetivo de sair para outro lado.

Ele foi uma pessoa com quem aprendi muito, foi com ele que comecei no futebol. Eu sou um privilegiado por ser filho de uma pessoa que foi um craque como jogador. Foi um excelente treinador. Foi um excelente diretor, foi um homem sempre honesto. Onde quer que fosse era sempre bem recebido. Não tinha inimigos e isso é fruto de se ser uma pessoa simples, natural, nada de vaidade. Sempre tivemos uma vida super tranquila em casa. Nunca tivemos nada de extravagante.

O meu pai sempre nos ensinou a ter uma vida normal e então acho que sou um pouco assim também. Sou uma pessoa que gosta de estar com os meus amigos, gosto de estar tranquilo em casa com a família e aproveita a vida.

Para além da carreira de treinador, tens o objetivo de manter o legado do teu pai vivo?

Sim, claro. Acho que é uma coisa cultural. O Manuel Fernandes foi uma pessoa que deu muito ao futebol português. Não nos podemos esquecer que é o jogador com mais jogos no campeonato português. São 486 jogos. Jogou dos 18 aos 37 na I Liga. É um caso único e tenho muito orgulho nisso. É por isso que tenho a garrafa [de vinho, em homenagem a Manuel Fernandes] para os amigos terem uma recordação dele em casa. Comercializo as garrafas de vinho porque acho que todos os amigos querem ter uma recordação dele.

É feita pelo Senhor Nabeiro que era um grande amigo dele. E depois porque podermos ter o Manuel Fernandes em casa em exposição é sempre uma companhia que temos, com um carinho grande. Então, eu quero manter este legado. Amanhã [sexta-feira, dia 27 de junho] faz um ano que o meu pai faleceu e parece que ele ainda não partiu, parece que ainda está aqui entre nós. E é por isso que o mantemos tão vivo na nossa vida.

Tens a academia Tiago Fernandes. Que projeto é este e quais são seus grandes objetivos?

O objetivo de criar aqui uma academia na minha terra já era uma coisa desde miúdo, quando eu jogava, que gostava de ter uma academia no meu clube. Sou do Juventude desde pequenino. Acompanhei este clube nas distritais, é o Juventude Sarilhense [de Sarilhos Grandes].

Sou presidente deste clube e com um grupo de amigos formámos uma direção e temos aqui a nossa infância recordada e é importante para nós termos aqui 300 atletas. O que quero é que se mantenha a sustentabilidade da academia por muitos e bons anos. É claro que tem tido um desenvolvimento e um crescimento absurdos. Nem eu esperava. Começámos num primeiro ano com 20, 30 atletas e em dois anos temos 300. E estamos a rejeitar alguns miúdos porque não temos espaço para os colocar.

As equipas estão cada vez mais competitivas. Temos a subida de divisão em alguns escalões que é importante para nós mas não é o mais importante. O mais importante é os miúdos jogarem todos o máximo de tempo possível na formação e serem felizes e divertirem-se.

Fui ao Algarve, estão na Copa Guadiana, e estavam todos felizes no hotel, todos contentes, pareciam jogadores a sério. E disse-lhes: aproveitem isto porque são momentos únicos na vossa vida. Eu não tive nada daquilo. Nunca fui a um torneio fora daqui com a idade deles porque eram outros tempos. Hoje têm acesso a estas coisas e acho que é bonito.

É a minha maior felicidade: na minha terra, o maior orgulho que eu tenho é chegar aqui à noite e ver o campo repleto de miúdos a jogar futebol. É o maior orgulho que tenho de ser desta aldeia pequenina. Não escondo que sou de Sarilhos Grandes em lado nenhum. Quando vou ao estrangeiro faço questão de frisar que sou de uma aldeia que tem poucos habitantes mas temos coisas boas e este espaço desportivo que temos aqui, que é do clube, é com enorme orgulho que conseguimos criar estas instalações e manter isto não é fácil.