Estratégia de Desporto Escolar 2021-2025 é oportunidade mas "levanta dúvidas"

por Lusa

O Programa Estratégico do Desporto Escolar (PEDE) para o ciclo 2021-2025 é uma oportunidade, alargando os eixos nos quais assenta ao desporto verde e à cidadania, mas “levanta dúvidas” quanto a recursos e exequibilidade.

Especialistas ouvidos pela Lusa na véspera do Dia Europeu do Desporto na Escola, hoje assinalado, referem o novo ciclo como uma oportunidade, notando o alargar da abrangência estratégica do desporto escolar, ainda que com reservas quantos aos recursos, humanos e financeiros, colocados à disposição.

Para Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), em Lisboa, que chegou a presidir, o programa é “uma novidade interessante”.

O especialista destaca os Jogos Olímpicos Tóquio2020, evento que, comenta, parece ter trazido “uma consciência mais alargada de que as culturas do corpo, o desenvolvimento motor e lúdico dos jovens, necessitavam de uma revisão mais profunda do desporto nacional”.

Nos Jogos Olímpicos Tóquio2020, um total de 13 atletas tinha tido experiência no desporto escolar, 11 deles em Portugal, com destaque para todos os medalhados: Pedro Pichardo, ouro no triplo salto, no sistema cubano, mas também Patrícia Mamona, prata no triplo salto, Jorge Fonseca, bronze no judo, e Fernando Pimenta, bronze na canoagem.

Embaixador do projeto Escola Ativa, do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), Neto lecionará hoje um ‘webinar’ sobre “Comunidades, Famílias e Escolas Ativas” e espera, da nova estratégia, que traga “uma visão ecológica de como se deve promover uma estratégia de desenvolvimento desportivo a começar nos mais jovens”.

Os fundamentos da proposta “para o futuro” merecem apoio de Carlos Neto, que concorda com a “perspetiva de prepararmos as crianças para uma cultura motora básica”, e uma preocupação “não só na saúde física mas também mental, social e emocional, essencial para termos um cidadão culto, na utilização do corpo, e como forma de prevenção da saúde”.

Por seu lado, José Cordovil, que é presidente da Comissão Consultiva de Educação Física e Desporto na Escola do Comité Olímpico de Portugal (COP), alerta que o ciclo anterior, 2017-2021, “foi muito afetado na sua fase final com a pandemia de covid-19”.

“Sumariamente, o que a pandemia fez foi interromper as atividades. A única atividade que se manteve quando as escolas estiveram abertas [os treinos] não permitiu, nunca, a realização de atividades competitivas, o que distorce completamente a realidade do desporto escolar”, lembra.

A situação “levou muitos jovens a desistirem”, uma quebra semelhante à que ocorreu também no desporto federado, e para o próximo ciclo, avisa, há “uma grande incógnita”.

“Há algumas dúvidas muito sólidas sobre qual o investimento a nível público que será feito no desporto, dado que o novo programa diversifica muito o leque de eixos estratégicos que existiam anteriormente”, aponta.

O PEDE 2021-2025 integra seis eixos estratégicos: “+ Desporto + Atividade Física”, “Formação de Alunos e Professores”, “Cidadania Inclusão Ética”, “Cogestão Codecisão na Escola”, “Desporto Verde e Sustentável” e “Envolvimento das/nas Comunidades”.

Esta “diversificação muito grande do projeto”, mas “com os mesmos recursos humanos”, avalia, contribui para a incógnita que coloca sobre “o que se vai passar, tal como para o ano letivo 2021/22” no que toca às atividades competitivas, devido à evolução pandémica.

José Cordovil lamenta ainda que o grupo de trabalho para acompanhamento do programa do desporto escolar (GTAPDE), que integrava desde novembro de 2018, não tenha sido ouvido aquando da definição do programa final.

O grupo, constituído por iniciativa do Conselho Nacional de Desporto, “participou na discussão de documentos preparatórios com características completamente diferentes do programa aprovado e publicado em julho”, mas não foi convidado a elaborar um parecer sobre o documento final.

Esse parecer saiu da própria pena de José Cordovil, lamentando que o grupo não tenha sido ouvido, “porque o documento seria certamente mais sólido e não teria algumas das lacunas que apresenta”.

“No essencial, a crítica que eu apresento ao programa é que, à semelhança do que se passa em muitos domínios da atividade política nacional e na decisão sobre os programas a aprovar, não se faz uma avaliação séria: o que se fez, quais os pontos fortes e fracos atingidos. A avaliação do ciclo 2017-21 não foi feita”, critica.

Carlos Neto alerta para o facto de que o desporto escolar “sofre há muitos anos” de falta de financiamento adequado, por um lado, mas também de “recursos humanos com condições para funcionar” e falta de consciência “da comunidade educativa de que o desporto escolar, como as artes, são essenciais”, criticando a “exclusividade de interesse nas disciplinas com média para a universidade”.

As instituições “têm feito o que é possível, mas é a altura apropriada, pós-pandemia, para fazer uma reflexão e tomar boas decisões”. “Se formos ver os fundos comunitários que vão ser passados aos Estados-membros, é preciso interrogar qual a percentagem da ‘bazuca’ que é dada ao desporto”, afirma Carlos Neto.

O ministro da Educação, com a tutela do desporto, Tiago Brandão Rodrigues, reforça, na introdução do PEDE, o desporto escolar como “base da pirâmide desportiva”, referindo uma oferta de atividades “alargada e flexibilizada”, também às famílias e toda a comunidade educativa.

“O desporto escolar projeta-se agora para o quadriénio de 2021-2025 com mais recursos e uma estratégia de maior alcance, definindo uma visão comum a partir da qual cada estabelecimento de educação e ensino poderá desenhar o seu programa, correspondendo às especificidades da sua comunidade. [...] Por seu lado, reforça-se a relação com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estabelecidos no âmbito das Nações Unidas, aprofundando o papel do Desporto Escolar na promoção da saúde, do ambiente e da coesão social”, escreveu o governante.


Desporto escolar funcionou como ‘almofada’ durante segundo confinamento
O desporto escolar funcionou como uma ‘almofada’ na saúde mental de crianças e jovens atletas durante o segundo confinamento devido à pandemia de covid-19, disse hoje à Lusa a investigadora Liliana Pitacho.

Segundo a docente universitária, os dados recolhidos ao lado de Patrícia Palma e Pedro Correia, um trio que já tinha olhado para os efeitos na saúde mental do primeiro confinamento nos desportistas portugueses, demonstram que a possibilidade de alguma atividade e contacto na escola, com os clubes fechados, teve efeitos positivos.

Hoje, assinala-se o Dia Europeu do Desporto na Escola, no âmbito da Semana Europeia do Desporto, e os dados já recolhidos pelos investigadores destacam o desporto escolar como tendo facilitado o período de confinamento enfrentado no início do ano.

“Quando comparámos os jovens que estão no desporto escolar com os que não estão - e aqui falamos sempre de atletas federados, quer em modalidades coletivas quer individuais -, o que reparámos é que os jovens do desporto escolar tinham níveis de stress e perturbações de sono significativamente inferiores aos jovens que não estavam no desporto escolar, os níveis de felicidade também eram significativamente mais elevados”, conta Liliana Pitacho, do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT).

A investigação, levada a cabo no Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP), notou ainda que os inscritos no desporto escolar tinham uma percentagem menor de reporte de aumento de peso, além de reportarem “mais autoestima”.

Para tentar perceber a diferença, os investigadores notam como “o desporto escolar parou muito depois dos clubes”, e que os treinos foram reativados após a retoma das aulas presenciais, “ao contrário do que aconteceu nos clubes para as formações jovens”.

“Além disso, contando com as aulas de educação física ‘online’, os treinadores do desporto escolar tinham contacto regular [com os alunos], nem que fosse pelas aulas, o que não aconteceu nos clubes”, notou.

A nova investigação, abrangente a todo o desporto, contou com cerca de 3.000 participantes inquiridos, dentro dos quais cerca de 1.700 são jovens entre os 13 e os 17 anos.

O estudo incide de novo sobre variáveis relativas às perturbações de sono, nível de felicidade e outros parâmetros, mas também o aumento de peso e a escala de autoestima, aproveitando para expandir o estudo inicial, no primeiro confinamento.

“O que percebemos quando comparamos esta amostra com o primeiro confinamento, foi que o número de jovens que apresenta stress patológico diminuiu, assim como os que apresentam perturbações de sono. Houve também uma estabilização ao nível da felicidade. Numa primeira análise, indica-nos que os jovens foram criando estratégias, nomeadamente regulatórias de ‘coping’, que lhes serviu para enfrentar de forma mais normalizada o segundo confinamento”, explica Liliana Pitacho.

A “grande diferença” foi, então, a inscrição no desporto escolar, e, olhando para o desporto de formação no geral, salta à vista um valor na ordem dos 40% de jovens que reportam ter consciência de um aumento de peso.

“E ainda temos 20% que diz não saber se aumentou de peso ou não. É o que respondem. Quando vamos comparar, sabemos que houve uma maior quebra na autoestima nos jovens com aumento de peso. Os 20% que dizem não saber, têm uma autoestima inferior aos 40%, o que pode ser um mecanismo de proteção que os leva a responder que não sabem”, acrescenta a investigadora.

Liliana Pitacho pertence ao ISMAT, enquanto Patrícia Palma está afiliada ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) e Pedro Correia à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), e pretendem agora levar o estudo científico a publicações internacionais, bem como estabelecer contactos com o Governo para trabalhar os dados.
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