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Há 110 anos: o primeiro negro campeão do mundo de boxe
No dia seguinte ao Natal de 1908, o pugilista afro-americano Jack Johnson bateu o campeão do mundo de boxe, Tommy Burns, em Sydney, o principal reduto da política racista conhecida como "White Australia".
O campeão mundial canadiano, Tommy Burns, evitava colocar o título em jogo com Jack Johnson, embora já o tivesse feito por três vezes com um mesmo adversário branco. Para desencorajar e amesquinhar Johson, referia-se a ele com expressões racistas, como "todos os pretos são cobardes" [all coons are yellow]. E nisso era secundado por uma abundante opinião publicada, que considerava um inusitado atrevimento que um negro desafiasse um branco para um combate de boxe.
Segundo o relato publicado pelo historiador Peter Cochrane em The Guardian, alguma dessa imprensa considerava a obstinação de Johnson como "uma insolência grosseira e arrogante".
Burns não recusava abertamente o desafio, antes recorria à táctica de condicionar um combate com Johnson ao pagamento exorbitante de 30 mil dólares, que Johnson não tinha possibilidades de fazer. Mas em 1908, durante uma digressão de Burns pela Austrália, houve um empresário de Sydney Hugh D McIntosh, que pressentiu o bom negócio que aquele combate podia tornar-se e decidiu investir o dinheiro exigido por Burns.
Cochrane relata que um clima de histeria se apossou da imprensa australiana e cita um editorial do Illustrated Sporting and Dramatic News: "Cidadãos que nunca rezaram suplicam agora à Providência que dê força ao braço direito do homem branco, para fazer esquecer o preto". À histeria não escapou sequer o carismático escritor Jack London, que escreveu: "Pessoalmente, estive sempre do lado de Burns. Era um branco, como eu sou. Naturalmente, eu queria ver o branco vencer".
Num grande estádio de Sydney, reuniu-se em 26 de Dezembro de 1908 um público calculado em 20 mil homens (as mulheres estavam proibidas de entrar, embora algumas se tenha disfarçado de homens para assistirem ao combate).
O que Jack London, adepto confesso de Burns, viu, foi, para sua grande decepção, um "massacre sem esperança" do ídolo Tommy Burns. Johnson dominou o combate e fez durar o adversário durante 14 rounds num combate que estava programado para um máximo de 20. E tê-lo-ia feito durar mais se os organizadores não tivessem interrompido o combate, para evitarem a humilhação de uma derrota do herói branco por knock out.
A polícia foi chamada para interromper as filmagens em curso, o combate foi interrompido. "E assim, conclui Cochrane, o mundo foi poupado ao espectáculo de um negro a vencer um branco por knock out. Tinha-se travado a guerra racial por procuração, a raça brança tinha perdido, mas o mundo foi impedido de ver o final".
Os negros que se apercebem "das suas imensas possibilidades"
E cita seguidamente o Sydney Morning Herald a descrever "a multidão mais silenciosa que alguma vez saiu de um combate de pesos pesados", uma multidão, diz também, "de coração destroçado".
Um colunista religioso do mesmo Sydney Morning Herald rotulava o combate como "um carnaval de selvajaria" e pedia a Deus que impedisse a Austrália de ser "vencida por esta gente de pele escura que por todo o lado começa a aperceber-se das suas imensas possibilidades".
No Melbourne Herald, um outro colunista inconsolável resumia o combate como o confronto entre a "beleza branca" e a "rudeza negra", classificando o vencedor como "um brutamontes numa jaula". E concluía dizendo que era só graças ao tráfico de escravos que Johnson já não se encontrava "empoleirado numa árvore em África". No mesmo tom, o semanário Fairplay classificava Johnson como "um macaco gigantesco e primitivo".
A desforra do homem branco
Regressando aos Estados Unidos, Johnson defendeu com êxito o título conquistado na Austrália, agora contra um ex-campeão do mundo James J Jeffries, num combate que alguns classificaram como "o combate do século".
Mas em 1913 foi acusado de ter cometido um crime, ao abrigo de uma lei racista, por ter transportado no seu carro uma mulher branca com quem, alegadamente, tencionava ter relações sexuais. Levado a tribunal, foi condenado por um júri exclusivamente composto por brancos e comentou o veredicto em tom de desafio: "Se crucificaram Cristo, porque não a mim?"
Pagou a fiança, partiu para a Europa e regressou em 1920 para cumprir um ano de prisão. Viveu até à idade de 68 anos, tendo falecido em 1946 na Carolina do Norte. Conhecido como o "gigante de Galveston", tornou-se o herói popular de uma abundante literatura e discografia, incluindo um álbum de jazz de Miles Davis, e um filme de Ken Burns.
Recentemente, o falecido senador John McCain, o leader da maioria Henry O. Flipper, e o actor Sylvester Stallone empenharam-se em que fosse reparada a injustiça do veredicto judicial contra Johnson, e obtiveram de Donald Trump um perdão presidencial com um século de atraso - um caso raro, que tem entre outros poucos antecedentes a reabilitação dos anarquistas Sacco e Vanzetti, condenados à morte e executados por um homicídio que não cometeram.
O presidente Obama, de quem se esperara a reabilitação de Johnson, decepcionara em especial a bisneta do pugilista, que reclamara essa reabilitação. À cerimónia em que Trump anunciou o perdão presidencial estiveram presentes, além de Stallone, o antigo campeão de pesos-pesados Lennox Lewis, e o actual campeão, Deontay Wilder.