Observatório da Violência Contra Atletas faz um ano e tema continua "difícil"

por Lusa

O Observatório Nacional da Violência Contra Atletas (ObNVA) celebra na quarta-feira um ano de atividade, no qual o trabalho evidenciou como este continua a ser um tema difícil, tanto de tratar, como de falar.

“Inicialmente, estaríamos à espera de mais reportes do que aqueles que apareceram, mas temos perfeita consciência de que este não é um tema fácil de ser tratado e as pessoas começarem a falar sobre ele. Há alguma resistência, ainda que as pessoas admitam que este é um fenómeno que existe”, descreve, à Lusa, a ex-atleta e investigadora universitária na área das Ciências do Desporto Cláudia Pinheiro, que coordena o projeto.

Com um primeiro ano em que desenvolveram “todos os esforços possíveis para poder chegar a todo o lado”, no que toca ao panorama desportivo português, “a própria situação pandémica” não ajudou, mas a presença em órgãos de comunicação social foi importante.

“Por exemplo, sempre que fomos à televisão, tínhamos, imediatamente a seguir, um ou outro reporte. Temos consciência de que a comunicação social é muito importante na divulgação, e íamos tendo resultados, mas não tem sido um processo fácil, com alguma resistência”, conta.

Face a estes constrangimentos, estão “no bom caminho”, consideram, mas “ainda há muito a fazer”, sobretudo face a “uma cultura desportiva existente de validação e normalização de determinado tipo de comportamentos que ainda é muito forte”.

“Ainda é difícil admitirem que é um fenómeno que acontece no desporto e nas suas modalidades”, lamenta a coordenadora do projeto lançado no Instituto Universitário da Maia (ISMAI), no distrito do Porto.

Este ano de “muita divulgação” juntou-se a um trabalho de levantamento da situação junto de federações parceiras, em alguns casos, e entre recolha de dados e o tratamento dos mesmos, já começam a surgir alguns frutos.

Um desses casos aconteceu na ginástica, com dados apresentados num congresso europeu já neste mês, um trabalho que “ainda não está terminado” e que acontece numa modalidade em que o tema tem sido muito falado, dado o julgamento do médico Larry Nassar, nos Estados Unidos, e o estatuto e voz da norte-americana Simone Biles, uma de centenas de vítimas de abuso sexual por parte do antigo líder do corpo clínico da ginástica daquele país.

Para a frente, continuam a trabalhar dados, com mais uma modalidade a demonstrar interesse, via federação, na parceria, acelerando a obtenção de material e a perceber a especificidade de cada especialidade.

Entre os reportes que receberam, relativos a violência no seio desportivo, ficando de fora a relação com adeptos, esteve “um ou outro pedido de apoio, endereçado para as entidades competentes”.

Se a pandemia de covid-19 “poderá ter colocado alguns numa maior situação de vulnerabilidade”, uma “hipótese” relacionada com o distanciamento e paragem provocada, o que é certo é que este é um fenómeno “ainda muito oculto”.

Muitos agentes, explica a especialista, têm ainda “dificuldade em reconhecer que determinado tipo de comportamentos não pode ser tolerado”, como a humilhação e outros tipos de agressão.

“Temos de estabelecer limites. Para lá desses limites, não poderemos aceitar que aconteçam. Se falarmos de atletas que ainda são adolescentes, são mais vulneráveis a este tipo de comportamentos. É preciso analisar, avaliar, refletir sobre isto. A questão dos limites é um dos pontos centrais”, refere.

Olhando para a discussão dos limites, saltam à vista tipos de ‘motivação’ mais extremos, com um caso recente, e mediático, a vir dos Jogos Olímpicos Tóquio2020, o da judoca alemã Martyna Trajdos, que levou duas ‘chapadas’ fortes do treinador antes de subir ao ‘tatami’.

“Todos nós reconhecemos que, por vezes, há atletas que necessitam de uma ‘motivação’, digamos assim, um bocadinho diferente, para efetivamente terem melhores resultados, mas essa motivação extra, como muitos justificam, como forma de ser a única forma de se obter resultados… Poderá haver atletas que só funcionam, quase, deste modo, mas há outros que não, para quem um berro, um grito, uma chapada, não tem absolutamente nada de normal. Mas não reconhecem como tal, que está tão normalizado esse comportamento”, analisa.

De resto, de fora, “perceciona-se que não é normal”, mas o problema é dentro do seio desportivo. “Será que é normal atirar com objetos a um atleta, dar-lhe uma chapada?”, questiona Cláudia Pinheiro.

Em breve, realizarão o primeiro congresso do ObNVA, no ISMAI, para já sem data definida, após ter sido adiado do primeiro aniversário devido a vários constrangimentos, com duas oficinas para treinadores em paralelo.

O objetivo é realizar “mais ações desta natureza”, a da formação, para todos os agentes desportivos, além da produção científica para revistas internacionais e o contínuo trabalho de terreno, de recolha de dados, da divulgação e de um outro projeto, com parceiros internacionais, para já sem mais detalhes.

“Todas as pessoas que contactámos para estarem presentes no congresso, entre diferentes agentes, atletas, antigos atletas, treinadores, dirigentes, e todos ainda muito envolvidos no desporto, reconhecem que isto é um fenómeno que tem de ser debatido, analisado, e que todos temos de refletir sobre ele, para tentar ver se podemos obter iguais ou melhores resultados sem recorrermos a práticas menos adequadas”, atira.

O projeto foi lançado em setembro de 2020 pelo ISMAI e tem como parceiros várias instituições nacionais, desde logo o Comité Olímpico de Portugal (COP), a Autoridade para a Prevenção e Combate da Violência no Desporto (APCVD), a Ordem dos Psicólogos e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), entre outros.
pub