Cavaco Silva mostrou-se pouco e revelou-se hábil

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Cavaco Silva durante as comemorações do Dia de Portugal
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Cavaco Silva mostrou-se pouco e falou menos nos primeiros 100 dias na Presidência, mas a forma como o fez revelou uma hábil gestão tanto da imagem como da mensagem, afirmaram sociólogos contactados pela Agência Lusa.

Além de uma gestão da imagem e do discurso dignas de "político profissional", sociólogos e especialistas em ciência política e comunicação contactados pela Lusa apontaram o cuidado de Cavaco Silva, ex-líder do PSD, na coabitação com um Governo do PS como aspectos que definiram o seu estilo nos primeiros 100 dias de mandato, que se completam sexta-feira.

O presidente da Associação Portuguesa de Comunicação e Marketing Político, João Quelhas, afirmou que Cavaco Silva "já compreendeu muitíssimo bem o papel que a comunicação social tem para passar a mensagem e a imagem com sucesso" e que "o ciclo político que o país vive precisa de pessoas afirmativas".

"Cavaco Silva tem agora uma postura completamente diferente do que teve quando era primeiro-ministro [1985-1995]. Tem uma imagem que corresponde aos valores da sobriedade, da ponderação e da eficácia no discurso e na acção, mas já não tem uma cara fechada", assinalou.

João Quelhas sustentou que "mais que um discurso muito elaborado ou longo", Cavaco Silva tem sabido, através de simbologias, "passar imagens muito fortes", como no caso da sua deslocação à Bósnia a 20 de Abril, em que vestiu um anoraque militar com as inscrições "Cavaco Silva" e "Comandante Supremo das Forças Armadas".

"Há seriedade, mas não há frieza absoluta. Seria um fracasso rotundo um Presidente que não fosse capaz de transmitir uma componente de humanismo", assinalou, acrescentando que em três meses na Presidência "não houve lugar a amadorismos".

No mesmo sentido, o sociólogo André Freire disse não ter dúvidas de que, ao fim de três meses de mandato, Cavaco se mostrou um verdadeiro "político profissional": "Não dá um passo que não seja absolutamente pensado e medido, estudado ao pormenor o que significa que é um político profissional." Para o sociólogo, é significativo da forma hábil como Cavaco Silva tem actuado na Presidência da República o facto de colocar na agenda política a questão da inclusão social.

"Sendo um tema caro à esquerda, o Presidente propõe este tema mas diz algo que é muito caro à direita, enfatizou o papel de outros actores que não o Estado no dever de promover a inclusão", assinalou, considerando que "as estratégias centristas tentam conciliar pontos de vista".

O lado negativo é que "as estratégias centristas tem o problema de poder cair na ambiguidade", disse André Freire.

Para Adelino Maltez, especialista em Ciência Política e professor no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, "o facto de ter sido eleito pelo centro" pode explicar, em parte, "essa atitude de previsível e deliberado apagamento de intenções".

"Apareceu com meia dúzia de valores e deu um sinal com um primeiro veto político [à Lei da Paridade] que foi cordato e não em estilo de conflito institucional. Mas logo que as circunstâncias se alterem, e vão alterar-se, será obrigado a mostrar-se mais", afirmou Adelino Maltez.

"Há suficientes motivos para a crise. As circunstâncias económicas e sociais e também europeias e internacionais vão dar pasto a muitas tensões e o Presidente da República não vai poder lavar daí as mãos", disse.

Quanto à forma, Adelino Maltez destacou que Cavaco Silva, "como grande político que é, percebeu que o povo quer silêncio".

"Percebeu que o povo quer silêncio. Usa de frases curtas, que ensaia, com uma secura silenciosa. As suas intervenções não têm o estilo dialogante do dr. Mário Soares nem o estilo choramingas do dr.

Jorge Sampaio, têm um tom de secura silenciosa e com isso só recebe elogios", afirmou.

Apesar de 100 dias de mandato ser muito pouco na vida de um Presidente que está apenas a começar, Maltez afirma: "O Presidente da República tem um tempo mais longo de criação do próprio estilo. Ele jogou nisso e não tem que mostrar serviço tão rapidamente quanto os Governos." Adelino Maltez destacou ainda o cuidado com que Cavaco Silva, ex-líder do PSD, tem gerido a coabitação com um Governo PS, referindo que "parece haver entre Presidente e Governo um acordo de cavalheiros, uma certa imagem de honradez".

Manuel Villaverde Cabral, sociólogo e presidente do conselho científico do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, manifestou-se igualmente convicto de que Cavaco Silva "vai tentar evitar" qualquer conflito com o Governo, mas alertou que "a desarmonia acabará por surgir pois nenhum regime de tipo semi-presidencial consegue evitá-lo".

"De certo modo, na Presidência, ao contrário do que aconteceu na chefia do Governo, Cavaco tem sido pura forma, puro estilo, e até agora pouco conteúdo. Resta saber o que fará num verdadeiro aperto como acredito que surgirá ainda no primeiro mandato", afirmou.

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