Mulheres que contam. Marta Crawford

por Silvia Alves - RTP

Marta Crawford rendeu-se ao curso de Psicologia, depois de um episódio extramente traumático na sua vida: a morte do pai. Acabou por deixar o teatro – e investiu em algo que para si é fundamental: a parte clínica, que estrutura a sua vida, diz. Voltaria aos palcos, mais tarde, e de forma diferente, através da televisão, com o programa AB Sexo, a que se seguiram outras participações televisivas. Era “uma forma não particular, mas generalizada, de informação, informação que acabava por ser muito o básico - não é no sentido de dizer que as pessoas são básicas - é no sentido de informação que era essencial para a sua felicidade, para o seu bem-estar, para a sua realização na intimidade e na sexualidade. Coisas que já deviam ter sido faladas em tenra idade”.

Marta Crawford falou de sexo “para todos” e acrescentou três obras à sua vontade de ser pedagógica e servir o público.
Nunca se escusou a temas complexos ou complicados. A tese de licenciatura versou sobre transsexualidade (‘Contributo para a Compreensão do Transexualismo – Estudo Exploratório’). Mais tarde, faz a pós-graduação em sexualidade e, para a tese, que não chegou a concluir, entrevista inúmeras prostitutas na noite lisboeta, “mulheres extraordinárias, com uma vida muito difícil”, acrescenta.

Há mais de uma década, depois de ter feito uma TED Talk no Porto, a convite de Manuel Forjaz, teve uma epifania: pensou em fazer um Museu Pedagógico do Sexo, “onde pudessem estar, em simultâneo, crianças, jovens e adultos numa missão de educação sexual ao longo da vida, ligada à arte, à arte contemporânea, mas não só. No fundo, fazer do museu um espaço que fosse, efectivamente - esta palavra pedagógica era fundamental - que era ensinar, ajudar, apoiar através da arte. E também uma forma de enaltecer a questão da sexualidade”.

Passados doze anos, concretizou o sonho: criou o MUSEX, Museu Pedagógico do Sexo. A primeira exposição esteve patente no Palácio Anjos e chamou-se Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino.  
Desta exposição - patente entre Junho de 2022 e Março de 2023 - sobrou a obra Pérola de Vénus, no jardim do Palácio Anjos, cujos lábios são uma cópia dos de Marta. Para a exposição, o Palácio Anjos foi, metaforicamente, transformado num corpo feminino.

Nesta viagem podia entrar-se com ou sem consentimento…

Com consentimento, ficava logo a saber-se que o cérebro é o principal órgão sexual e que a pele é o maior órgão sexual. No fim de ambos os percursos, esperam-nos dois manifestos.

Entretanto, foi publicado o Relatório Preliminar do ‘Estudo Prazer Sexual’, que resulta de uma parceria entre o MUSEX - Museu Pedagógico do Sexo, o Gerador, o Mestrado Transdisciplinar de Sexologia da Universidade Lusófona e a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC). Pode lê-lo aqui.

“O sexo é muito mais do que o ato de penetração, e a vagina não é o órgão sexual mais preparado para ter prazer.” O clitóris é o único órgão sexual cuja função é exclusivamente dar prazer. Conheça as ‘100 leis naturais da cliteracia’ de Sophia Wallace.

“É preciso saber cultivar o desejo, a vontade, a curiosidade e a oportunidade. A sexualidade não pode ser um dever conjugal, nem uma obrigação.”


Marta Crawford acrescenta “um dos temas do consultório que me põe louca é esta ideia de que “nós amamo-nos profundamente, mas depois eu pressiono-te para ter sexo contigo e tu tens que ceder”. Isto cria inevitavelmente falta de desejo, falta de satisfação sexual, falta de prazer. E é isso que não pode acontecer. Tem de haver um equilíbrio entre as vontades. O sim é quando eu verdadeiramente quero estar contigo, o não é o meu direito, e a minha vontade de perceber que, por alguma razão, hoje não me apetece. E, numa relação saudável, eu tenho direito a dizer que não, sem que isso seja um problema, sem que isso me crie culpa, sem que isso me leve ao castigo da obrigação de “amanhã tenho que resolver o assunto porque ficaste em falta, eu não correspondi”... Esta equação tem de se alterar. Culpa versus pressão é a pior equação que existe dentro da sexualidade, e para os dois, porque uma mulher, quando vai forçada para uma relação íntima, está lá de corpo presente, prazer até pode ter, mas normalmente não tem, é tudo muito mais difícil. E o parceiro ou parceira que está com ela também não vai tirar esse prazer e essa intimidade, essa coesão e essa coisa tão boa que é a intimidade. Exactamente, porque se está ali com alguém que está contrariado não vai ser bom. Não é tão simples perceber isto?”
pub