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Euro2020: Gareth Southgate, de vilão a finalista

Durante anos achincalhado pelo penálti falhado no Euro1996 de futebol, Gareth Southgate redimiu-se ao conduzir Inglaterra à final do Euro2020, contra a Itália, no domingo, em Wembley, com um caráter e serenidade elogiados pelos pares e políticos nacionais.

Lusa /
O penálti falhado no Euro1996 Reuters

A final é a primeira dos 'Three Lions' numa competição internacional desde 1966, quando Alf Ramsey guiou a Inglaterra à conquista do Mundial, pelo que Southgate superou todos os 11 selecionadores que o antecederam, incluindo Bobby Robson, Terry Venables, Kevin Keegan, Sven-Goran Eriksen, Fabio Capello e Roy Hodgson.

O entusiasmo é tal que a casa de apostas Coral viu entrar Southgate, de 50 anos, para a lista de possíveis primeiros-ministros, mesmo se não lhe conhecem ambições políticas.

"Não posso estar mais orgulhoso de ter a oportunidade de liderar o meu país, e trazer felicidade neste momento em que tem sido tão difícil. É um sentimento muito especial", afirmou, sobriamente, na quarta-feira, após a semifinal frente à Dinamarca (2-1).

A grande penalidade de Southgate defendida pelo guarda-redes alemão Andreas Köpke, nas meias-finais do Euro1996, ditou a eliminação da Inglaterra (5-6 em Wembley, após 1-1) e tornou famoso o então defesa do Aston Villa pelas piores razões.

Numa atitude tipicamente britânica, gozou com a situação ao protagonizar um cómico anúncio da Pizza Hut com Stuart Pearce e Chris Waddle, os dois jogadores que falharam os penáltis da Inglaterra no desempate das meias-finais do Mundial de 1990 (3-4 novamente com a RFA, após 1-1 nos 120 minutos).

Vinte anos mais tarde, levantou sobrancelhas quando foi promovido de selecionador nacional dos sub-21 a sucessor de Sam Allardyce na equipa principal.

Em cinco anos, recuperou uma equipe traumatizada pela eliminação humilhante contra a Islândia (2-1), nos oitavos de final do Euro2016, e convenceu os mais céticos.

O antigo ponta de lança Gary Lineker disse esta semana que já tinha ficado impressionado com as qualidades de Gareth Southgate no Mundial de 2018, quando Inglaterra chegou às meias-finais, que perdeu no prolongamento face à Croácia (1-2).

"Mas, esta é uma equipa melhor, com jogadores muito melhores, com muito mais força. A forma como ele manteve os jogadores unidos e como os apoiou, não só em campo, mas fora de campo, é muito importante" afirmou.

Sobretudo, destacou a empatia com os jogadores, o que o torna um "líder incrível, muito atencioso e incrivelmente inteligente".

No início do torneio, Southgate decidiu, contra um tom crescente de críticas, manter o protesto contra a desigualdade racial no início de cada jogo, ajoelhando-se juntamente com os jogadores.

O gesto foi assobiado por muitos adeptos, apesar de serem uma minoria, e desencorajado por vários membros do Governo.

A ministra do Interior, Priti Patel, disse que "não apoiava pessoas que participem neste tipo de gestos, gestos políticos", recusando condenar os adeptos que assobiam, o que o primeiro-ministro, Boris Johnson, também não fez.

O deputado do Partido Conservador Lee Anderson ficou tão irritado que decidiu boicotar os jogos de Inglaterra no Euro2020.

Gareth Southgate respondeu de forma polida, num texto intitulado "Dear England" (Querida Inglaterra), onde defendia o patriotismo da seleção, mas também a importância de unir o país e intervir e sensibilizar a população para questões como a igualdade, inclusão e justiça racial.

"Os nossos jogadores são referências. E, para além dos limites do campo, devemos reconhecer o impacto que eles podem ter na sociedade", escreveu.

À equipa é reconhecida uma grande consciência social, seja pelo ativismo de Marcus Rashford contra a pobreza, de Raheem Sterling contra o racismo ou de Jordan Henderson, que coordenou uma iniciativa de jogadores para apoiar os serviços de saúde durante a pandemia da covid-19.

Na quinta-feira, o primeiro-ministro, Boris Johnson, que foi acusado de "falta de liderança" por não ter apoiado claramente os jogadores contra os assobios, louvou Southgate pelo "trabalho absolutamente notável".

O antigo futebolista Gary Neville, comentador da estação ITV, aproveitou o apuramento da Inglaterra para a final para deixar uma 'ferroada' a Johnson, do qual tem sido crítico.

"O nível de líderes neste país nos últimos anos tem sido pobre, mas, olhando para aquele homem, ele é tudo que um líder deve ser: respeitoso, humilde, verdadeiro, genuíno. Gareth Southgate é fantástico, inacreditável e fez um ótimo trabalho", elogiou.

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