Macron acusado de reabilitar publicamente príncipe herdeiro da Arábia Saudita

por RTP
Macron é o primeiro Chefe de Estado ocidental a visitar a Arábia Saudita após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi Reuters

O presidente de França encontrou-se com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita este sábado, em Jeddah. O Eliseu diz que é para "garantir a estabilidade da região", mas os grupos de defesa dos direitos humanos classificam a reunião de "reabilitação" pública do herdeiro do trono. Emmanuel Macron é o primeiro líder político ocidental a encontrar-se com Mohammed bin Salman, suspeito de em 2018 ter "validado" o assassinato do jornalista Jamal Kashoggi, no Consulado saudita em Istambul.

"Qualquer que seja o interesse estratégico da França na Arábia Saudita, nada pode justificar a legitimação de um governante que mata jornalistas, ameaça ativistas, aprisiona mulheres defensoras dos direitos humanos, mata civis iemenitas e engana a comunidade internacional. Macron diminui-se e ao seu próprio país à medida que se inclina para a parceria com MBS (sigla de Mohammed bin Salman)”, criticou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, citada pelo jornal The Guardian. "Dói-me que seja a França, o país dos direitos humanos, o instrumento desta política, acrescentou.

No Dubai, Emmanuel Macron rejeitou as acusações de legitimar o príncipe herdeiro, justificando que as várias crises da região do Golfo Pérsico não podem ser resolvidas ignorando a Arábia Saudita. "Nós decidimos após o caso Khashoggi que não temos uma política na região, o que é uma escolha que alguns podem defender, mas eu acho que a França tem um papel importante a desempenhar na região. Isso não significa que sejamos cúmplices ou que esqueçamos", disse Macron.
 
Noto que a Arábia Saudita organizou o G20 no ano seguinte [ao caso Khashoggi] e não notei que muitas potências boicotassem" o encontro, observou Macron. "Sempre fomos claros no assunto dos direitos humanos ou neste assunto", argumentou.

Já a Human Rights Watch discorda do presidente francês e apela a Macron para que este se manifeste contra os abusos de direitos humanos potenciados pelo príncipe herdeiro. “Macron deveria abordar o atroz assassinato de Jamal Khashoggi em 2018. Ficar em silêncio sobre estas questões seria o mesmo que fechar os olhos a graves violações dos direitos humanos”, refere a ONG em comunicado.

Macron viaja acompanhado de uma comitiva de representantes de 100 empresas francesas, incluindo a Total Energies, EDF, Thales e Vivendi. A viagem começou nos Emirados Árabes Unidos, passou pela Arábia Saudita e vai terminar no Catar.

Irão, Líbano e combate ao terrorismo na agenda

Além de um papel importante para um acordo de paz regional com o Irão, a França considera a Arábia Saudita um aliado na luta contra os militantes islâmicos desde o Oriente Médio à África Ocidental e também contra a Irmandade Muçulmana. Macron e MBS devem, pois, discutir questões regionais, incluindo a ameaça nuclear no Irão e a crise no Líbano.

Macron deverá referir-se à renúncia, anunciada sexta-feira, do ministro libanês da Informação George Kordahi, que esteve na origem da crise por ter criticado a intervenção militar de Riade no Iémen.

Após o anúncio, saudado por Macron, o presidente francês disse esperar "ser capaz de envolver todos os países do Golfo no relacionamento com o Líbano". A crise económica no país piorou em consequência da crise diplomática de outubro com vários Estados do Golfo, entre eles a Arábia Saudita, a congelarem as suas importações.

Crise humanitária no Iémen

O encontro de Macron “é o selo da aprovação francesa a MBS e à sua guerra no Iémen”, disse Bruce Riedel, antigo analista da CIA para a Arábia Saudita e agora membro da organização não-governamental de investigação académica Brookings Intelligence Project. “Qualquer sinal de desaprovação ocidental ao comportamento saudita no Iémen desapareceu agora. É uma declaração notável da traição francesa ao povo iemenita ”, acrescentou.

Riedel evoca um relatório da ONU a referir que quase 400 mil crianças iemenitas corriam o risco de morrer de fome por causa do conflito no seu país, em grande parte impulsionado pelo príncipe herdeiro saudita.

A França está entre os principais fornecedores de armas da Arábia Saudita, mas tem enfrentado pressões crescentes para rever a política de vendas, precisamente por causa da coligação liderada pelos sauditas que luta contra os rebeldes Houthi no Iémen e que gerou uma das piores crises humanitárias atuais. No entanto, não há indicações de que a situação no Iémen seja abordada.

Por outro lado, vítimas da guerra no Iémen apresentaram uma queixa-crime em Paris, esta sexta-feira, contra os príncipes herdeiros da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, por financiamento do terrorismo. Argumentam que os dois países fizeram uma "aliança" com o grupo terrorista Al-Qaeda.

Com os Estados Unidos, a Arábia Saudita intervém no Iêmen desde 2015, liderando uma coligação militar de apoio ao governo contra os rebeldes Houthi, que tem o suporte do Irão, inimigo de Washington e rival de Riade.

Arábia Saudita queixa-se de Biden

A visita de Macron decorre num momento em que o estado do Golfo Pérsico expressou incerteza sobre o interesse dos EUA na região, apesar de pretenderem mais armas de Washington.

A Arábia Saudita lamentou a abordagem da Casa Branca, que pressionou Riade sobre questões de direitos humanos e a guerra do Iémen, tendo ainda divulgado informações dos serviços secretos que relacionam Mohammed bin Salman ao assassinato de Khashoggi. O príncipe herdeiro negou qualquer envolvimento no assassinato do jornalista no consulado de Riade em Istambul.

A relação do governo de Joe Biden com a Arábia Saudita está sob escrutínio no Congresso, onde democratas e republicanos expressaram profunda desaprovação às políticas do reino árabe e pediram que os EUA deixem de vender armas aos sauditas.

Por outro lado, os EUA querem persuadir o reino a aumentar a produção de petróleo. Já o conselho de segurança nacional revelou que três altos funcionários dos EUA viajaram para os Emirados Árabes Unidos, Saudita e Catar para debater questões económicas e identificar áreas em que os EUA poderiam “fazer parcerias para investir no futuro para a energia limpa”.

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