Andebol/Mundial. Portugal ambiciona superar 10.º lugar do Egito2021
Portugal chega pela terceira vez consecutiva à fase final do campeonato do Mundo de andebol, em seis presenças, e exibe como melhor resultado o 10.º lugar no Egito, em 2021, alcançado após uma ausência de 18 anos.
Portugal abre na quarta-feira com os EUA, defronta na sexta-feira o Brasil e encerra no domingo a fase preliminar frente à Noruega. Os três primeiros classificados avançam para a fase regular e o quarto e último é relegado para a Taça Presidente.
O primeiro objetivo da seleção lusa, orientada por Paulo Pereira, é passar a ronda preliminar, mas, para poder ter expectativas na ‘main round’ (fase principal), terá que somar o máximo de pontos possível.
Os três primeiros classificados avançam para a fase principal com os pontos averbados nos jogos entre si, pelo que o cenário ideal, até porque Suécia e Espanha serão adversários quase certos, é vencer o grupo e começar a ‘main round’ com quatro pontos.
Por capricho do sorteio, o grupo reedita o torneio Gjensidige Cup de 2023, na altura inserido na preparação para o último Mundial, no qual Portugal terminou em segundo, com vitórias sobre o Brasil (31-28) e EUA (39-27) e derrota frente à Noruega (38-27).
Mesmo sem a experiência de outros mais tituladas, Portugal surpreendeu nas duas últimas edições do Mundial, sendo 13.º em 2023, lugar obtido na prova coorganizada pela Suécia e pela Polónia.
Sob a batuta de Paulo Pereira, que assumiu o cargo de selecionador em 2016, Portugal tem tido nos últimos anos presença e registos de relevo nas principais provas internacionais, incluindo a inédita presença nos Jogos Olímpicos Tóquio2020, o sexto lugar no Euro2020 – a melhor classificação de sempre -, num evento coorganizado pela Áustria, Noruega e Suécia, e o sétimo no Euro2024, na Alemanha.
Portugal tem amadurecido ao ritmo do crescimento de jogadores como Luís Frade (FC Barcelona), Miguel Martins (Aalborg) e Rui Silva (FC Porto), e da confirmação de valores emergentes como Diogo Rêma (FC Porto), Salvador Salvador e os irmãos Martim e Francisco Costa (Sporting).
Martim Costa, de 22 anos, eleito o melhor jogador jovem da Europa em 2024, surge no Mundial como uma das referências da seleção lusa, após ter sido o melhor marcador do Euro2024, com 54 golos, e de ter integrado o sete ideal da prova.
O aparecimento dos novos valores é sustentado na experiência de outros jogadores, como Fábio Magalhães (36 anos), Pedro Portela (35) e António Areia (34), que deverão cumprir na presente edição a sua última participação num campeonato do mundo.
Portugal ambiciona chegar aos quartos de final do Mundial pela primeira vez na sua história, tarefa que não será fácil, atendendo ao valor das equipas em prova, e na fase de grupos o seu principal obstáculo é a coanfitriã Noruega.
As duas seleções europeias do grupo já se defrontaram por seis vezes, com a Noruega a obter quatro vitórias e Portugal duas. O único encontro em fases finais de Mundiais teve lugar na ronda principal do Egito2021, tendo a Noruega vencido por tangencial 29-28.
Portugal está invicto nos jogos com o Brasil, nos quais soma um triunfo na fase preliminar do Mundial de 1997, na sua estreia, e um empate 28-28, de má memória para os lusos, há dois anos, no Mundial coorganizado por Polónia e Suécia.
Nesse último jogo, a seleção portuguesa chegou a festejar o triunfo, por 28-27, que abria as portas ao apuramento para a fase a eliminar, mas, após o recurso a imagens, foi marcado um livre de sete metros, que ditou o empate (28-28).
Carlos Resende, Paulo Faria e Carlos Galambas, que integraram a primeira seleção portuguesa num Mundial de andebol, em 1997, destacam a “ambição e qualidade” da atual geração, que permite “sonhar alto”.
Tido com um dos melhores andebolistas portugueses de todos os tempos e eleito para a equipa ideal do Campeonato da Europa de 2000, na Croácia, o antigo lateral esquerdo Carlos Resende adianta que, “dada a qualidade dos miúdos, se pode esperar tudo”.
“Vai ser muito fruto do momento. Já seria bom superar a melhor classificação de sempre [10.º lugar no Egito2021]. Mas o sonho de chegar a uma medalha está lá. Pode ser que os nossos jovens tenham um momento fantástico”, disse Carlos Resende à agência Lusa.
Paulo Faria é um “fã incondicional” da seleção, que considera ter criado um “espírito de vitória incrível”, e marcará presença como adepto, tal como nas competições anteriores, na bancada da Unity Arena, em Oslo, na Noruega, para vibrar e apoiar.
“Esta seleção tem uma característica que nós em 1997, no Japão, não tínhamos. Respeitávamos demais [os adversários] e não nos sentíamos capaz de vencer todos os jogos. Esta seleção sente que pode vencer qualquer equipa e entra em campo para ganhar”, considerou Paulo Faria.
O antigo central, de 52 anos, formado no ABC de Braga e com passagens pelo Sporting e Águas Santas, destaca a qualidade da seleção nacional, “com jogadores do melhor que há”, e considera que a expectativa de uma boa participação no Mundial2025 “é grande”.
“Esta seleção vai para ganhar. É muito difícil ser campeã do mundo, pois só uma pode, mas tem ambição e isso é maravilhoso. É um gosto de ver esta seleção, com tantas soluções, individuais e coletivas, e jovens talentosos”, disse.
Carlos Galambas reconhece que Portugal, pelo que tem evoluído e conquistado nos últimos anos, pode “sonhar alto” e “fazer um excelente Mundial”, pois tem “qualidade para fazer alguma coisa bonita”, e até porque “já merece chegar ao topo”.
“Se Portugal pensar jogo a jogo e jogar ao seu melhor nível, no limite, pode fazer isso. Conseguiu um brilhante sexto lugar no Euro2020, superando o nosso sétimo, na Croácia, no Mundial já fez bons resultados, mas tudo depende, às vezes, de um jogo, que deita tudo a perder”, adianta Carlos Galambas, jogador histórico do ABC.
O antigo pivô reconhece que gostaria de ver Portugal no pódio, mas retira essa pressão aos jogadores, embora considere que, pelo trabalho realizado e pela qualidade dos seus jogadores, mais do que estar presente, já justifica lutar pelas medalhas.
“Temos uma excelente equipa, muito bem orientada por Paulo Pereira e Paulo Fidalgo, e acho que podemos sonhar, mas, às vezes, basta um resultado e tudo vem por água abaixo”, adianta Carlos Galambas.
Carlos Resende, Paulo Faria e Carlos Galambas recordam com nostalgia e orgulho a primeira participação de Portugal numa fase final de um Mundial, em 1997, no Japão, e destacam o facto de o feito de ter sido alcançado às custas da eliminação da Alemanha e da Polónia.
“Foi uma estreia especial. Para chegar ao Japão, em 1997, a nossa seleção teve que eliminar, no nosso grupo de qualificação [que só apurava um], a Alemanha e a Polónia, que dez anos depois, em 2007, foram finalistas do Mundial”, recorda o agora treinador Carlos Resende, de 53 anos.
Paulo Faria considera que a estreia da seleção portuguesa foi marcada por “bons jogos e outros menos bons” e lembra a dificuldade de adaptação ao sistema defensivo da Tunísia, que acabou por pesar na derrota por 19-18 e ditar o afastamento na primeira fase.
“Éramos obrigados a jogar seis para seis com ações de um para um, o que provocava um desgaste muito grande. Fez-nos muita confusão, pois não estávamos habituados. Menos experiente do que a Tunísia, à nossa seleção terão falhado alguns pormenores de jogo, que nos impediram de vencer”, refere.
Portugal terminou a sua participação no quinto e penúltimo lugar do Grupo C, com uma vitória frente ao Brasil (26-18) e derrotas com a Tunísia (19-18), República Checa (28-24), Espanha (29-26) e Egito (29-25), e falhou os oitavos de final.
“As sensações foram boas. Agora é a nostalgia, que o tempo anda de pressa. Foi o culminar de um objetivo para o qual todos tínhamos trabalhado. Conseguimos, todos juntos, fazer aquilo que nunca tinha sido feito: conseguir ir a um Mundial”, recorda Carlos Galambas, de 51 anos.
Resende, Faria e Galambas tinham como colegas de balneário, entre outros, os naturalizados Viktor Tchikoulaev e Vladimir Bolotskih, Paulo Morgado, Rui Rocha, Eduardo Filipe e Filipe Cruz, e o debutante Ricardo Costa, de 17 anos, pai de Martim e Francisco, duas das ‘estrelas’ da atual seleção.
“Foi uma alegria para todos nós. Foi o culminar de um trabalho que vinha sendo feito na altura [pelo selecionador Aleksander Donner] e conseguimos realizar o sonho de marcar presença, pela primeira vez, num Mundial”, refere Carlos Galambas.
Paulo Faria recorda que Portugal foi recebido no Japão como “uma seleção de referência”, pois tinha eliminado a Alemanha e a Polónia, e esteve em estágio cerca de 20 dias antes do inicio do Mundial, para adaptação à diferença horária.
“Ficamos muito tempo no Japão, com o estágio e a competição, mas foi uma boa experiência para toda a gente. O meu filho tinha poucos meses e quando cheguei, quase um mês e tal depois, quase não sorriu. Já não se lembrava de mim”, adianta Paulo Faria.
Carlos Resende considera que não se pode dissociar o bom momento que a seleção atravessa ao investimento realizado no andebol pelos principais clubes nacionais, respetivamente FC Porto, Sporting e Benfica.
“São estas equipas que têm marcado o passo do andebol nacional, quer em termos nacionais quer internacionais, com a presença nas competições da EHF, e desse esforço financeiro muito tem usufruído a seleção nacional”, considera o antigo jogador do FC Porto e ABC.
A estreia de João Gomes e a ausência de Alexis Borges são as principais notas dos eleitos de Paulo Pereira divulgados hoje para o Mundial2025 de andebol, que começa na terça-feira, coorganizado por Noruega, Dinamarca e Croácia.
“Tínhamos definido que os 17 atletas que iriam viajar para o Campeonato do Mundo seriam – se tudo corresse normalmente – os mesmos que viajaram para disputar o Torneio de França. Assim vai acontecer, não houve lesões, portanto, vão ser estes 17 atletas que vão viajar connosco para o Mundial”, disse o selecionador Paulo Jorge Pereira, citado pela assessoria da Federação de andebol.
Em relação à convocatória para os dois primeiros jogos de qualificação para o Euro2026, que Portugal venceu frente à Roménia (37-30) e Israel (36-23), saiu o pivô Alexis Borges e o lateral Joaquim Nazaré e entraram Gustavo Capdeville, Fábio Magalhães, Ricardo Brandão e João Gomes, numa lista alargada de 16 para 18.
Alexis Borges, que justificou a ausência por motivos pessoais, foi rendido pelo pivô Ricardo Brandão, o lateral-esquerdo Fábio Magalhães e o guarda-redes Gustavo Capdeville regressaram após recuperarem de lesão e o lateral-direito João Gomes substituiu Joaquim Nazaré.
Recuando ao torneio pré-olímpico de qualificação para Paris2024, que decorreu em março, na Hungria, a seleção portuguesa viu sair da convocatória os laterais Gilberto Duarte, Gonçalo Vieira e Joaquim Nazaré, bem como os pivôs Alexis Borges e Fábio Silva.
Paulo Pereira mantém uma estrutura sólida na seleção, com três guarda-redes – Diogo Rêma, Gustavo Capdeville e Diogo Valério –, num misto de juventude, irreverência e experiência, numa palete que fornece muitas soluções de jogo.
O amadurecimento de Luís Frade, Miguel Martins, Rui Silva, Salvador Salvador, Alexandre Cavalcanti, Leonel Fernandes e Diogo Branquinho é enquadrado na experiência de Fábio Magalhães, Victor Iturriza, Pedro Portela e António Areia e na irreverência dos irmãos Francisco e Martim Costa.
O lateral-esquerdo Fábio Magalhães, com 185 chamadas à seleção principal, coroadas com 353 golos, é o jogador com mais internacionalizações entre os 18 eleitos, enquanto o mais concretizador é o ponta-direita Pedro Portela, com 490 golos, em 148 jogos.
Lista dos 17 convocados da seleção portuguesa de andebol, que vai disputar a fase final do Campeonato do Mundo de 2025, a decorrer na Croácia, Dinamarca e Noruega, entre terça-feira e 02 de fevereiro:
Diogo Rêma Marques (FC Porto)
Posição: guarda-redes.
Idade: 20.
Internacionalizações A: 20.
Golos: 0.
41. Gustavo Capdeville (Benfica).
Posição: guarda-redes.
Idade: 27.
Internacionalizações A: 56.
Golos: 0.
23. Diogo Branquinho (Sporting).
Posição: ponta esquerdo.
Idade: 30.
Internacionalizações A: 96.
Golos: 207.
21. Leonel Fernandes (FC Porto)
Posição: ponta esquerdo.
Idade: 26.
Internacionalizações A: 54.
Golos: 102.
25. António Areia (Tremblay, Fra).
Posição: ponta direito.
Idade: 34.
Internacionalizações A: 101.
Golos: 296.
04. Pedro Portela (Sporting).
Posição: ponta direito.
Idade: 35.
Internacionalizações A: 148.
Golos: 490.
24. Alexandre Cavalcanti (Melsungen, Ale).
Posição: Lateral esquerdo.
Idade: 28.
Internacionalizações A: 89.
Golos: 117.
88. Fábio Magalhães (FC Porto).
Posição: Lateral esquerdo.
Idade: 36.
Internacionalizações A: 185.
Golos: 353.
79. Martim Costa (Sporting).
Posição: lateral esquerdo / central
Idade: 22.
Internacionalizações A: 30.
Golos: 116.
Salvador Salvador (Sporting).
Posição: lateral esquerdo.
Idade: 23.
Internacionalizações A: 31.
Golos: 59.
26. Francisco Costa (Sporting).
Posição: lateral direito.
Idade: 19.
Internacionalizações A: 32.
Golos: 103.
João Gomes (Sporting).
Posição: lateral direito / central.
Idade: 22.
Internacionalizações A: 3.
Golos: 4.
82. Luís Frade (FC Barcelona, Espanha).
Posição: pivô.
Idade: 26.
Internacionalizações A: 74.
Golos: 166.
8. Victor Iturriza (FC Porto)
Posição: pivô.
Idade: 34.
Internacionalizações A: 48.
Golos: 163.
86. Ricardo Brandão (FC Porto)
Posição: pivô.
Idade: 20.
Internacionalizações: 8.
Golos: 11.
10. Miguel Martins (Aalborg, Din).
Posição: central / lateral esquerdo.
Idade: 27.
Internacionalizações A: 110.
Golos: 248.
14. Rui Silva (FC Porto).
Posição: central.
Idade: 31.
Internacionalizações A: 139.
Golos: 249.